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L I T E R A T U R A   T I M O R E N S E
EM LÍNGUA PORTUGUESA

 

Índice  (para consulta, clique nas hiperligações abaixo indicadas)

 

A oratura em Timor.

Um brevíssimo olhar sobre a literatura de Timor.

Fernando Sylvan:
- Nota biobibliográfica;

- Figuras de silêncio (
prefácio de A voz fagueira de Oan Timor);
- antologia poética.

Xanana Gusmão:
- Nota biobibliográfica;
- Mar Meu.

 

 

  FERNANDO SYLVAN 

Fernando Sylvan, pseudónimo de Abílio Leopoldo Motta-Ferreira, nasceu em Díli, Timor-Leste, em 1917. Veio para Portugal com seis anos de idade, tendo vindo a falecer em 1993, em Cascais. Foi presidente da Sociedade de Língua Portuguesa, participante activo da Resistência Maubere, poeta, prosador, dramaturgo e ensaísta. A distância geográfica entre Portugal e Timor não impediu Sylvan de escrever sobre o seu país de origem, dissertando sobre as suas lendas, tradições e folclore. 

 

OBRAS DE FERNANDO SYLVAN

POESIA

Vendaval. Porto, 1942
Oração. Porto, 1942
Os Poemas de Fernando Sylvan (capa de Neves e Sousa). Porto, 1945
7 Poemas de Timor (com vinheta de Azinhal Abelho e um desenho de João-Paulo na 1ª edição). Lisboa, 1965. 2ª edição, pirata. Lisboa, 1975.
Mensagem do Terceiro Mundo (poema e traduções de Barry Lane Bianchi, Serge Farkas, Inácia Fiorillo e Marie-Louise Forsberg-Barrett para inglês, francês, italiano e sueco). Lisboa, 1972.
Tempo Teimoso (capa da 1ª edição de Cipriano Dourado). Lisboa, 1974. 2ª edição, Lisboa, 1978
Meninas e Meninos, Lisboa, 1979
Cantogrito Maubere – 7 Novos Poemas de Timor-Leste (carta-prefácio de Maria Lamas, nota de Tina Sequeira, capa de Luís Rodrigues). Lisboa, 1981.
Mulher ou o Livro do teu Nome (com 21 desenhos de Luís Rodrigues, prefácio de Tina Sequeira). Lisboa, 1982
A Voz Fagueira de Oan Timor (organização de Artur Marcos e Jorge Marrão, prefácio de Maria de Santa Cruz). Lisboa, 1993.

PRESENÇA EM COLECTÂNEAS DE POESIA

Enterrem Meu Coração no Ramelau (recolha de textos de Amável Fernandes, desenhos de José Zan Andrade e capa de António P. Domingues e Fortunato). Luanda, União dos Escritores Angolanos, 1982.
Primeiro Livro de PoesiaPoemas em língua portuguesa para a infância e adolescência (selecção de Sophia de Mello Breyner Andresen, ilustrações de Júlio Resende). Lisboa, Caminho, 1991.
Floriram Cravos VermelhosAntologia poética de expressão portuguesa em África e Ásia (por Xosé Lois García). A Corunha (Galiza), Espiral Maior, 1993.

PROSA

LIVROS

O Ti Fateixa. Parede, 1951
Comunidade Pluri-Racial. Lisboa, 1962
Filosofia e Política no Destino de Portugal. Lisboa, 1963
A Universidade no Ultramar Português. Lisboa, 1963
O Racismo da Europa e a Paz no Mundo. Lisboa, 1964
Perspectiva de Nação Portuguesa. Lisboa, 1965
A Língua Portuguesa no Futuro da África. Braga, 1966
Comunismo e Conceito de Nação em África. Lisboa, 1969
Recordações de Infâncias (colaboração de Tina Sequeira). Lisboa, 1980
O Ciclo da Água (BD de Luís Rodrigues). Lisboa, 1987
Cantolenda Maubere/Hananuknanoik Maubere / The Legends of the Mauberes (traduções: para tétum, de Luís da Costa; para inglês, do Departamento de Projectos da Fundação Austronésia Borja da Costa. Ilustrações: 7 pinturas e 2 desenhos de António P. Domingues). Lisboa, 1988.

SEPARATAS

Da Pedagogia Portuguesa e do Desvalor dos Exames. Lisboa, 1959
Relação dos Idiomas Basco e Português. Lisboa, 1959
Arte de Amar Portugal. Lisboa, 1960
A Língua e a Filosofia na Estrutura da Comunidade. Lisboa, 1962
O Espaço Cultural Luso-Brasileiro. 2ª edição. Lisboa, 1963
Obscina Narodov Timora. Moscovo, 1964
Como Vive, Morre e Ressuscita o Povo Timor. Lisboa, 1965
Aspects of the Folk-stories in Portuguese East Africa. Atenas, 1965
Função Teleológica da Língua Portuguesa. Coimbra, 1966
A Verdadeira Dimensão do Verdadeiro Homem. Braga, 1969
A Instrução de Base no Ultramar. Lisboa, 1973
Língua Portuguesa e seu ponto de angústia hoje. Lisboa, 1978

PARTES DE LIVROS

O Ideal Português no Mundo. Lisboa, 1962
Perspectivas de Portugal. Lisboa, 1964

TEATRO

Duas Leis, peça em 3 actos, escrita em 1949 e representada em 1957
Culpados, peça em 2 actos, escrita em 1957

 

 

 

FIGURAS DE SILÊNCIO 

 

Fugir é melhor que prometer / esperança em melhores dias.
(Ruy Cinatti, Uma sequência timorense, 1970)
 

 

Quase sempre heterométricos, os substantivados versos dos poemas de Fernando Sylvan aqui reunidos, em número muito restrito em cada poema, contam, como toda a retórica mas insistentemente, com as figuras do silêncio. A litotes[1], figura do classicismo por excelência, diz-nos apenas o bastante para excitar em nós a curiosidade de saber mais sobre os temas preferenciais: Timor, o povo Maubere, o amor por uma Mulher. A esses grandes temas se aludeoutra figura de silêncio, a alusão —, desprendendo-se de certos poemas um coro de vozes Mauberes que consigo arrastam mais o mistério que a informação, que chegam a comover e a despertar um resquício de consciência e solidariedade que em nós não esteja inteiramente adormecido por décadas de propagandas. Outra figura do silêncio, a reticência, conta com a cumplicidade do leitor lúcido e mais informado, um raro leitor — excitado pelo anunciado “Cantogrito” e por dois ou três versos em que se refere um “Portugal quieto / calado / sem um acto de força” —, leitor frustrado na sua grande expectativa pelo asteísmo[2] do poeta que, subtilmente e com toda a consideração, sorri da esperança dos outros com a sua própria esperança dividida e reticente. Enfim, para completar o quadro das figuras de silêncio, as diversificadas elipses e a envolvente braquilogia[3], ou omissão de pensamentos em princípio necessários à comunicação. O poema implica, então, um contrato de sigilo e os poucos (dizerfelizespoderia parecer ironia de mau gosto...) detentores do segredo poderão atingir o sabor inteiro da mensagem. Aos outros parecerá liberdade poética exótica se não lhe adivinharem algo do sentido pleno.

Porque o grito corta a silêncio mas nele se refugia, coarctado pelas múltiplas censuras que, interior e exteriores ao poeta, impedem o mesmo grito.

Como se esta poesia se limitasse a “rezar liberdade[4] fórmula dúplice e ciciante encontrada pelo poeta.

Exceptuam-se alguns momentos circunstanciais em que o poema confessa a sua qualidade de “manifesto”, mais palavroso e linear, aproveitando a oportunidade de se tornar útil à causa, recorrendo a esse espírito transitivo que, na verdade, está na origem da poesia. Dessa origem transmissível e didáctica emprega então, e não , os processos da poesia tradicional, o refrão e as insistentes repetições outras, o ritmo lírico facilmente musicável e, posteriormente, musicado e traduzido para inglês, italiano, sueco e francês.

Como me autoriza a identificação do poeta na interior e cultural “Invasão[5] — “E atravessei a ribeira onde / moravam meus irmãos crocodilos” —, aliarei a sua notícia biográfica ao Cantolenda Maubere do Crocodilo Bei-Nai ou Avô Grande.

muitos anos vivia, num pântano, um Crocodilo que sonhava crescer e atingir os limites de Timor, que quer dizer Oriente na língua malaia. Vivia o Crocodilo num espaço apertado, estreito, e o sonho dele era grande. “O pântano é o pior sítio para morar. Água parada, pouco funda, suja, abafada por margens esquisitas e indefinidas. [...] Por tudo isto o crocodilo estava farto de viver naquele pântano mas não tinha outra morada.”[6]

O que valia ao Crocodilo era falar consigo próprio e procurar respostas para as suas perguntas. Começava até a passar fome e aconselhava-se paciência. “Mas viver de paciência não é coisa que alimente um crocodilo, respondia-se-lhe”. Resolveu, então, sair do seu lugar, mas não conseguiu fazê-lo sem a ajuda de um Menino (a quem passaria o testemunho). Ambos tinham o sonho das viagens. Correram mundo. Explicando a função teleológica[7] da Língua Portuguesa, correram Portugal, Brasil, Angola, Moçambique; fizeram conferências nas universidades de Toulouse, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Bahia de S. Salvador, Recife, Paraíba; passaram pelo Zimbabwé e a África do Sul; mandaram sua palavra para ser lida na Grécia e na Rússia; deixaram a sua mensagem por Luanda e Maputo.

O sonho do Crocodilo ia-se esfumando, mas não o do Menino que nele havia e que lhe havia de suceder, encerrado na semiprisão de um país emprestado.

O Crocodilo aumentou, aumentou de tamanho e sem perder a sua forma primitiva transformou-se numa grande ilha. O Menino chamara Timor àquela ilha, que quer dizer Oriente na língua malaia. A Língua em que falavam pelo Mundo, como todas as línguas, talvez estivesse destinada ao esquecimento num futuro muito próximo, mas nela dissera Camões, numa outra ilha utópica, do alto mostrando a grande máquina do mundo: “Ali também Timor que o lenho manda/ Sândalo salutífero e cheiroso.” (Canto X, 134).

Distinguido pela fita verde de folha de palmeira[8] que usava na cabeça, os outros crocodilos e os homens que sucessivamente invadiam a ilha não o devoraram. Do cimo dos três mil metros do Tata-Mailau, o pico-avô da ilha, no dorso do Crocodilo ou do Ramelau, o Menino acreditou que “a ilha não é terra isolada pelo mar”. Pelo menos, nenhum dos invasores “separou [seu] coração da Ilha! Do pico Tata-Mailau do monte Ramelau, lugar de repouso dos antepassados, acredita-se, espíritos antigos velam o exílio terreno.

Um outro poeta foi morto no dia 7 de Dezembro de 1975 por ter cantado em verso esse lugar mítico e o ter recriado como símbolo da esperança e ideal da liberdade.

Estas são algumas das alusões às arrastadas e ancestrais vozes Mauberes dos poemas de Fernando Sylvan, que, por lhes ter dado alguma expressão no seu entrecortado “cantogrito”, será integrado na família dos LIA-NAIN, ou seja, os “donos da palavra” de Timor.

Deste poeta, timorense e portuguêspara aqueles que não exigem a definição do indefinível, do controverso e criativo estado de contradição permanente de uma vivência de várias culturas em contacto —, deste poeta nascido em Timor e que desde 1975 preside à Sociedade da Língua Portuguesa, disse Maria Lamas[9]:

“Os seus poemas são profundamente humanos e têm a dimensão do infinito, abrindo novos horizontes à nossa sensibilidade. Comovem e fazem vibrar o espírito e a consciência de quem os . Foi o que me sucedeu, e não se apagará mais na minha sensibilidade e no meu cérebro a impressão de amor fraterno e solidariedade luminosa que dos seus poemas se desprende.”

Pela constante de fraternidade e solidariedade da sua obra recebeu apenas a medalha Pereira Passos, em 1965, no Rio de Janeiro. E o respeito e consideração de todos os que conhecem a sua figura de Silêncio, Silêncio cortado pela breve mas repetida audácia e pudor da Palavra “rezando liberdade”.

Maria da Santa Cruz, prefácio de A voz fagueira de Oan Timor, Fernando Sylvan,  Lisboa, Edições Colibri, 1993

 

 


[1] figura que combina, freq. num eufemismo, a ênfase retórica com a ironia, não raro sugerindo uma ideia pela negação do seu contrário (p.ex., não estar em seu juízo perfeito por estar maluco; não ser nada baixo por ser muito alto).
[2] elegância e polidez de linguagem; uso subtil e delicado da crítica irónica para disfarçar um elogio ou louvor; ironia.
[3] O m.q. redução; brevidade na expressão verbal (em palavra, sintagma, expressão, no discurso, no estilo etc.) [A elipse e a zeugma são mecanismos que permitem obter essa brevidade.]
[4] “Velhas Florestas de Agora”, in Cantogrito Maubere - 7 Novos Poemas de Timor-Leste.
[5] Sete poemas de Timor, 1965.
[6] Fernando Sylvan, “O crocodilo que se fez Timor”, in Cantolenda Maubere, Lisboa, Fundação Austronésia Borja da Costa, 1988.
[7] que relaciona um facto com sua causa final (diz-se de argumento, explicação ou conhecimento). Teleologia: qualquer doutrina que identifica a presença de metas, fins ou objectivos últimos guiando a natureza e a humanidade, considerando a finalidade como o princípio explicativo fundamental na organização e nas transformações de todos os seres da realidade.
[8] Segundo a lenda, os descendentes do Príncipe devem usar o sinal para não serem devorados: uma fita verde de folha de palmeira. Cf. “Invasão”.
[9] carta de 18 de Setembro de 1980, agradecendo os livros Tempo Teimoso e Meninas e Meninos.

 

 

 

     FERNANDO  SYLVAN
   ANTOLOGIA POÉTICA

 

 

 

NAVIO 

Tata-Mailau
É o pico-avô da minha Ilha.

Subi muitas vezes aos seus três mil metros.
E foi no seu alto
Que meu sonho-menino construiu um navio.

Antes.
Ninguém tinha compreendido
Que a ilha
Não é terra isolada pelo mar.

                                                                                     (in 7 Poemas de Timor, 1965)

 

 

ROTA 

Não sei se o mar tem voz
Mas a sua voz
Desde pequeno me falava lento.

E eu via nele
O que não existia na memória.
Ninguém sabia
De meus avós e bisavós
Se era quadrado ou redondo
Se tinha vida ou não.

Mas sem saber se tinha voz o mar
Ouvia a sua voz.
E sem saber se tinha vida ou não
Sentia a sua vida.

Foi ele que me disse
Que havia Espaço e Tempo.

E comecei a viajar sem medo da viagem.

E nunca mais parei
Com medo da paragem.

(in 7 Poemas de Timor, 1965)

 

 

MENINO GRANDE 

Papá,
Ressoa em todo eu
A minha voz primeira
Quando te chamava.
O menino que fui potenciou-se.
Não menino grande,
Mas sou,
Papá,
Menino verdadeiro.

não fujo a gritar pelas ravinas,
Nem monto búfalos,
Nem subo a coqueiros,
Nem me escondo detrás de bananeiras.

Nascem-me cabelos brancos,
Tenho um bigode
E sou feio e gordo.

E penso e escrevo e faço versos
E abro os braços ao mundo.

Começo a ser como querias.

Papá,
Se me visses agora
Reconhecer-me-ias!

(in 7 Poemas de Timor, 1965)

 

MENSAGEM DO TERCEIRO MUNDO
 
1971 – ano internacional contra o racismo
 
 
Não tenhas medo de confessar que me sugaste o sangue
E engravataste chagas no meu corpo
E me tiraste o mar do peixe e o sal do mar
E a água pura e a terra boa
E levantaste a cruz contra os meus deuses
E me calasse nas palavras que eu pensava.
 
Não tenhas medo de confessar que te inventasse mau
Nas torturas em milhões de mim
E que me cavas  o chão que recusavas
E o fruto que te amargava
E o trabalho que não querias
E menos da metade do alfabeto.
 
Não tenhas medo de confessar o esforço
De silenciar os meus batuques
E de apagar as queimadas e as fogueiras
E desvendar os segredos e os mistérios
E destruir todos os meus jogos
E também os cantares dos meus avós.
 
Não tenhas medo, amigo, que te não odeio.
Foi essa a minha história e a tua história.
E eu sobrevivi
Para construir estradas e cidades a teu lado
E inventar fábricas e Ciência,
Que o mundo não pode ser feito  por ti.

  

Linhas de leitura do poema "Mensagem do terceiro mundo":

Relevância da construção anafórica.
Enumeração gradativa.
Mensagem de cooperação e de aceitação do outro.
• Comprove a superação do passado em relação ao presente.

 

  

INFÂNCIA

as crianças brincam na praia dos seus pensamentos
e banham-se no mar dos seus longos sonhos

a praia e o mar das crianças não têm fronteiras

e por isso todas as praias são iluminadas
e todos os mares têm manchas verdes

mas muitas vezes as crianças crescem
sem voltar à praia e sem voltar ao mar

Janeiro de 1972 (in Tempo Teimoso, 1974)

  

 

JURAMENTO DE GALILEU 

Declaro-me convencido
de que a Terra não tem movimento
e o Homem também não.

E por isso compreendo haver ainda
quem recuse
que o outro é sempre irmão.

 

Cascais, 7 de Novembro de 1972
(in Tempo Teimoso, 1974)

 


PASSAGEM DO TESTEMUNHO 

Há quinhentos anos que gritamos
contra a violência das grilhetas e do chicote
nos nossos corpos e almas dos nossos avós.

Há quinhentos anos que gritamos
porque foi isso que nos ensinaram
nas nossas vidas dos nossos avós.

Mas na contra-fraternidade da violência
aprendemos a gritar liberdade construção independência
para as nossas vidas dos nossos netos.

 

(in Cantogrito Maubere. 7 novos poemas de Timor-Leste, Fernando Sylvan, 1981)


 

   XANANA GUSMÃO

 

O mítico líder da Resistência maubere, Xanana (aliás José Alexandre Gusmão), nasceu no Verão de 1946 em Manatuto, Timor-Leste. Filho de um professor primário, foi criado no campo, juntamente com um irmão e cinco irmãs. Fez os estudos primários e parte do secundário numa missão católica, antes de partir para Díli, onde, ainda muito jovem, deu aulas na Escola Chinesa. Em Abril de 1974, começou a trabalhar na "Voz de Timor", ao mesmo tempo que aderia à FRETILIN, o que lhe valeu ocupar o posto de vice-presidente no Departamento de Informação.

Após a invasão indonésia (Dezembro de 1975), os quadros da FRETILIN foram sucessivamente dizimados. Em 1978, com a morte de Nicolau Lobato, Xanana herdou a liderança da Resistência, que urgia reorganizar. Três anos depois, teve lugar a primeira conferência nacional do movimento, que o elegeu como líder e comandante das FALINTIL (Forças Armadas para a Libertação Nacional de Timor-Leste).

Sob o comando de Xanana, a FRETILIN entabulou (em 1983) as primeiras conversações com o ocupante indonésio. Ao mesmo tempo, implementava aquilo que designou por Política de Unidade Nacional, uma estratégia que em linhas gerais pretendia incrementar os contactos com a Igreja Católica e desenvolver uma rede clandestina nas áreas urbanas e noutras regiões ocupadas.

Em virtude do sucesso desta política, Xanana criou, em 1988, o Conselho Nacional de Resistência Maubere.

Em Novembro de 1992, um ano após o massacre de Santa Cruz, Xanana foi capturado pelas forças indonésias e encarcerado em Jacarta, onde, segundo a Amnistia Internacional, passou os primeiros 17 dias de prisão incomunicável, sob custódia dos militares, que o submeteram à tortura do sono. Levado a tribunal, foi condenado a prisão perpétua, sentença mais tarde comutada para 20 anos.

Foi nestas circunstâncias, contudo, que Xanana se revelou um verdadeiro estadista. Em pleno tribunal, para surpresa dos indonésios, denunciou perante a Imprensa internacional o genocídio do povo maubere.

Atirado para a cadeia de Cipinang, Xanana continuou a elaborar a estratégia da Resistência, enquanto estudava inglês, bahasa (língua indonésia) e Direito. Durante o pouco tempo que lhe restava, pintava e escrevia poesia. Em 1994, foi publicada uma parte dos seus ensaios políticos _ "Timor-Leste, um Povo, uma Pátria".

Para o povo maubere, Xanana, mesmo na prisão, continuava a representar um símbolo da luta pela Paz, pela Justiça, pela Liberdade, sendo a verdadeira chave para uma solução política que permitisse acabar com o conflito.

A dedicação de Xanana à causa maubere despertou a atenção da Imprensa internacional, que o começou a tratar como o "Mandela de Timor".

O próprio Mandela, durante uma visita à Indonésiadois anos, fez questão de visitar Xanana em Cipinang. Após a reunião, o presidente sul-africano considerou-o a "chave" para a resolução pacífica do conflito.

Em Abril de 1998, a Convenção Nacional da FRETILIN criou o Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT), com Xanana a ser reconduzido como líder por aclamação dos delegados da Diáspora.

Um mês depois, Suharto demite-se e a campanha internacional para libertar Xanana conhece um novo fôlego. E no início de 1999, o presidente do CNRT abandona Cipinang e é colocado sob prisão domiciliária, tendo sido libertado na primeira semana de Setembro do mesmo ano para, rapidamente, procurar refúgio na Embaixada britânica em Jacarta.

Ainda em Setembro, depois de uma semana em Darwin, na Austrália, efectua uma viagem aos Estados Unidos da América e à Europa, onde foi recebido com honras de chefe de Estado.

A 23 de Outubro, escolhido para receber o Prémio Sakharov, Xanana Gusmão regressa a Timor, onde é recebido em apoteose. E este ano, em Março, desloca-se a Portugal, Moçambique e Brasil, para contactos com os países da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa). (in http://jn2.sapo.pt/biog/xanana/, 2000)

  

Em 1973, antes mesmo da Revolução dos Cravos, Xanana Gusmão se destacava na literatura, chegando a receber o Prémio Revelação da Poesia Ultramarina. Contudo, foi a Guerra Civil Timorense, iniciada em 1975, que despertou em Gusmão a necessidade de expressar-se através da escrita. Entre 1977 e 1979, ele publicou dois livros: Pátria e Revolução (cujo título tornar-se-ia o lema da luta no país), e Guerra, Temática Fundamental do Nosso Tempo, no qual ensaia todas as características das chamadas Guerras Populares, descrevendo o papel de um líder carismático na condução de seu povo. (adaptado de Wikipédia)

 

 

   Mar Meu

 

Mar Meu, de 1998, é uma colecção de poemas e pinturas produzidos no período de 1994 e 1996 por Xanana Gusmão, aquando da sua prisão em Cipinang.

1. Atente na capa do livro Mar Meu.
1.1. Relacione a sua apresentação com o título do livro.

1.2. Interprete a composição do título, com base na sonoridade conseguida.

2. Leia o excerto do prefácio incluído no livro Mar Meu, de Xanana Gusmão. 

 

O VERSO E O UNIVERSO 

Neste estilhaçar de tempo e mundo que lugar tem a solidariedade? Quanto nos pode ocupar a injustiça que ocorre distante quando, tantas vezes, fechamos os olhos àquela que tem lugar no nosso próprio lugar?

Timor parece erguer-se como prova contrária a estes sinais de decadência. Afinal, há alma para sustentar causas, erguer a voz, recusar alheamentos. Uma nação distante se reassume como nosso lar, nossa razão, nosso empenho. O sangue que se perde em Timor escorre de nossas próprias veias. As vidas que se perdem em Timor pesam sobre a nossa própria vida.

Foi assim que li os versos de Xanana. E naquelas páginas confirmei: pela mão de um homem se escreve Timor. Um livro de Xanana Gusmão não poderia ser apenas um livro. Por via da sua letra se supõe falar todo um povo, uma nação. Há ali não apenas poesia mas uma epopeia de um povo, um heroísmo que queremos partilhar, uma utopia que queremos que seja nossa. […]

Quando perguntaram a Ho Chi Minh[1] como ele, em regime prisional, tinha produzido tão belos poemas de amor, ele respondeu: “Desvalorizei as paredes”. A estratégia da poesia será, afinal, sempre essa: a de desqualificar o escuro.

Numa cela isolada, um homem escreve versos. Reclama o simples direito de ter um mar, um céu que, sem temor, embale Timor. Neste simples acto, este homem de aparência frágil desqualificou as paredes, convocou a nossa solidariedade e negou o isolamento.

De novo, o tempo se abraça ao mundo e, no espreitar do novo milénio, nos chega mais um pretexto para acreditarmos que a justiça se faz por construção nossa.

Afinal, um simples verso refaz o Universo

Mia Couto, Maputo, 21-06-1998 (excerto)

  

Neste excerto reflecte-se sobre uma das formas de poder da palavra poética.

2.1. Refira a forma de poder que lhe é atribuída.

2.2. Explique, por palavras próprias, as frases dadas:
       “pela mão de um homem se escreve Timor”
       “este homem […] desqualificou as paredes...”

2.3. Explique a expressividade dos verbos utilizados na frase: “Reclama o simples direito de ter um mar, um céu que, sem temor, embale Timor”.

2.4. Relacione os dois últimos nomes sublinhados na frase anterior, quanto ao nível gráfico e de conteúdo.

2.5. Retire do excerto expressões relativas às atitudes de Xanana Gusmão para conseguir, através de “um simples verso”, refazer “o Universo”.

2.6. Comente a expressividade do título do excerto.


[1] Vietnamita que teve papel preponderante na guerra entre o Vietname do Norte e o do Sul (1954-75), tendo-se tornado líder espiritual do actual regime político do Vietname do Norte (estado comunista).

 

 

 

OH! LIBERDADE!  Caixa de texto:                                                       Sem título, Xanana Gusmão, Abril de 1994.
 

Se eu pudesse
pelas frias manhãs
acordar
tiritando
fustigado pela ventania
que
me abre a cortina do céu
e ver, do cimo dos meus montes,
o quadro roxo
de um perturbado nascer do sol
a leste de Timor

Se eu pudesse
pelos
tórridos sóis
cavalgar
embevecido
de encontro a mim mesmo
nas serenas planícies do capim
e sentir o cheiro de animais
bebendo das nascentes
que
murmurariam no ar
lendas
de Timor

Se eu pudesse
pelas tardes de calma
sentir
o cansaço
da natureza sensual
espreguiçando-se no seu suor
e ouvir contar as canseiras
sob
os risos
das crianças nuas e descalças
de todo o Timor

Se eu pudesse
ao entardecer das ondas
caminhar
pela areia
entregue
a mim mesmo
no enlevo molhado da brisa
e tocar a imensidão do mar
num sopro da alma
que
permita meditar o futuro
da ilha de Timor

Se eu pudesse
ao cantar dos grilos
falar
para a lua
pelas janelas da noite
e contar-lhe romances do povo
a união inviolável dos corpos
para
criar filhos
e ensinar-lhes a crescer e a amar
a Pátria Timor!

Cipinang, 8-10-1995

  

3. A arte consegue encontrar diferentes formas de expressão para se manifestar.
3.1. Estabeleça pontos de contacto entre o quadro e o poemaOh! Liberdade!”.
3.2. Justifique o primeiro verso das estrofes em função do título do poema.

4. O poemaOh! Liberdade!”está construído segundo uma progressão lógica associada às fases do dia.
4.1. Evidencie essa progressão, apoiando-se em expressões textuais.
4.2. Relacione cada fase do dia com os verbos utilizados em cada uma das estrofes.
4.3. Demonstre como a progressão textual acompanha a intencionalidade do sujeito poético.
4.4. Interprete a expressividade da pontuação forte presente no poema.
4.5. Demonstre a utilização de recursos estilísticos que evidenciem funcionalidade significativa para a construção da mensagem.

  

5. O poema "Pátria" tornou-se um verdadeiro hino da causa timorense:

 

PÁTRIA 

Pátria é, pois, o sol que deu o ser
Drama
, poema, tempo e o espaço,
Das gerações, que passam, forte laço
E as verdades que estamos a viver.
Pátria
.., é sepultura... é sofrer
De quem marca, co’a vida, um novo passo.
Ao povo — uma Pátria— é, num traço
simples
Independência até morrer!

Do trabalho o berço, paz, tormento,
Pátria
é a vida, orgulho, a aliança
Da alegria, do amor, do sentimento.
Pátria
… é tradições, passado e herança!
O som da bala é... Pátria, de momento!
Pátria
… é do futuro a esperança!

  

5.1. Interprete o conceito de «Pátria» assumido no poema.
5.2. Explique o sentido do verso «O som da bala é... Pátria, de momento!» (v. 13)
5.3. Relacione os versos «Pátria… é sepultura... é sofrer / […] Independência até morrer! / […] Pátria… é do futuro a esperança!» (vv. 5, 8 e 14) com os acontecimentos da História de Timor Lorosae.
5.4. Exponha aos seus colegas o seu conceito de «Pátria». Discuta, então, o que é ser patriota. Sintetize os consensos alcançados.

 

GERAÇÕES 

Nomes sem rosto
corações esfaqueados
de lembranças
nas lágrimas de crianças
chorando pelos pais... 

Mais do que a morte
que os fez calar
em cada gota de lágrima
a cena cruel 

...uma mãe que gemia
sem forças seu corpo desenhava
marcas da angústia
esgotada 

Os farrapos que a cobriam
Rasgados
no ruído da sua própria carne
sob o selvático escárnio
dos soldados indonésios
em cima dela, um por um 

inerte, o corpo da mulher
se tornou cadáver
insensível à justiça do punhal
que a libertara da vida 

enquanto...
golpes de coronhadas
se repercutiam
nas gotas de lágrimas que iam caindo
da mesma face das crianças 

 

 

 

 

Um pai se ofendera
no último não da sua vida
a mulher violada
assassinada sob os seus olhos 

O cheiro da pólvora
vinha de muitos furos
daquele corpo
que não era corpo
estendido
sem forma de morte 

e...
As lágrimas secaram
nas lembranças das crianças
veio o suor da luta
porque as crianças cresceram 

Quando os jovens seios
estremecem sob o choque eléctrico
e as vaginas
queimadas com pontas de cigarro
quando testículos de jovens
estremecem sob o choque eléctrico
e os seus corpos
rasgados com lâminas
eles lembram-se, eles lembram-se sempre

A luta continuará sem tréguas!

 

 

 

AVÔ CROCODILO

Diz a lenda
e eu acredito!

O sol na pontinha do mar
abriu os olhos
e espraiou os seus raios
e traçou uma rota

Do fundo do mar

um crocodilo pensou buscar o seu destino
e veio por aquele rasgo de luz

Cansado, deixou-se estirar
no tempo
e suas crostas se transformaram
em cadeias de montanhas
onde as pessoas nasceram
e onde as pessoas morreram

Avô crocodilo
– diz a lenda
e eu acredito!
é Timor!

 

 

 

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Timor-Leste, o dossier secreto 1973-1975, - Para as lendas e memórias de Timor-leste - volume 1, © J. Chrys Chrystello 1976, 1992, 1998, 2012.

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1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/timor.htm, 2008, 2015-04-07.
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 José Carreiro
 
aguiarcarreiro@gmail.com