LITERATURA DE MACAU
   EM LÍNGUA PORTUGUESA

 

Benilde Justo Caniato

    

Estabelecendo uma homologia entre língua e literatura, distinguimos a literatura portuguesa das literaturas de língua portuguesa, nas quais incluímos as literaturas africanas. A literatura de Macau terá algumas diferenças da literatura portuguesa, especialmente quanto à temática. Não nos cabe, no entanto, discutir aqui tal assunto, uma vez que pretendemos fazer apenas uma breve introdução a um trabalho de investigação mais ampla. Preferimos, então, adotar as palavras de Graciete Batalha em intervenção ao III Congresso de Escritores Portugueses, em 1990: “(...) disse literatura de Macau e não literatura macaense, porque de macaense é mais a temática do que a autoria” (BATALHA, 1991, p. 184). Assim, vamos considerar escritores de Macau aqueles ali nascidos, e os que por ali passaram ou ali se radicaram.

     Península de dimensões geográficas limitadas, hoje com pouco mais de 20 quilômetros quadrados, incluindo as ilhas de Taipa e Coloane, Macau tem sido, ao longo de mais de 400 anos, ponto de encontro de duas culturas distintas. A influência da cultura ocidental fez-se sentir a partir de meados do século XVI, com a chegada dos portugueses. Templos, casas de chá, farmácias, moradias, jardins constituem as marcas do universo cultural chinês.

   Território chinês sob administração portuguesa, outras culturas provenientes de comunidades de outras partes da Ásia, da Europa e da África passaram a integrar seu universo1. Como dizem os autores de Macau, Cidade Memória no Estuário do Rio das Pérolas (CALADO et al., 1985, p. 132), a sedução de Macau está numa mistura de pessoas, hábitos, construções, ou seja:

    “um templo chinês, um pagode, um convento, uma mesquita, uma simples casa chinesa ou um palácio português. (...) conjunto híbrido onde se interligam as mais variadas culturas e formas, que, cristalizando ao longo de quatro séculos, transformaram aquele organismo urbano num acontecimento único”.

     A presença literária portuguesa no Extremo-Oriente marca-se pela possível estada de Camões em Macau, onde, conforme diz a tradição, teria escrito parte de seu poema. O jardim, que tem o nome de Gruta de Camões, lugar privilegiado da cidade, tem inscritas algumas estâncias em seus penedos, simbolizando na figura do Poeta a expansão lusitana pelo mundo.

     Bocage esteve no Território dois séculos depois de Camões como guarda-marinha, e ali escreveu odes, duas delas dedicadas a senhoras macaenses, “senhoras de grande linhagem e de grande beleza”. O poeta arcádico, no entanto, não se mostrou encantado por Macau, como se observa nesta quadra de um de seus sonetos:

Um governo sem mando, um bispo tal,
de freiras virtuosas, um covil,
três conventos de frades, cinco mil
nhons e chinas cristãos, que obram muito mal.

Em fins do século XIX, Venceslau de Morais residiu em Macau, tendo ali exercido funções de oficial da marinha e de magistério. Sua obra Traços do Extremo Oriente registra observações atentas sobre costumes do Território português. Seu tema preferido, no entanto, foi o Japão, principalmente a musumé, a mulher japonesa, que o fascinava por seus gestos e por sua meiguice.

1. A celebração do Tratado de Amizade e Comércio entre a China e Portugal em 1887 possibilitou a Portugal a perpétua ocupação e governo, mas ficaram dúvidas quanto à soberania do Território pertencer à China ou a Portugal. Em 1979, quando a China e Portugal estabeleceram relações diplomáticas, ficou assentado ser Macau território chinês sob administração portuguesa. A Declaração Conjunta entre os dois países, em 1987, determinou, por fim, que a China retomará o exercício da soberania sobre Macau em 20 de Dezembro de 1999. Definido como Território sob administração portuguesa, Macau é um Estado regional, caracterizando-se como Cidade-Estado Semi-Soberana.

O poeta simbolista Camilo Pessanha (1867-1926) viveu grande parte de sua existência em Macau, onde foi professor e advogado. Apenas alguns dos poemas de sua Clepsidra (1ª ed. 1920) são de inspiração oriental, mas ali constam oito elegias chinesas das dinastias Ming e Tang traduzidas por ele, publicadas primeiramente no semanário O Progresso de Macau (1914). O volume China (1944), publicação póstuma, compõe-se de vários artigos do poeta sobre a cultura chinesa, que tanto admirava.

Manuel da Silva Mendes (1876-1932), contemporâneo de Camilo Pessanha, procurou registrar, em seus textos, a terra em que viveu por quase 30 anos. Colaborador de vários jornais da época (A Vida Nova, Jornal de Macau, Pátria) e de revistas (O Oriente, Revista de Macau), as crônicas que mais representam a cidade foram selecionadas por Graciete Batalha em Macau, Impressões e Recordações (1979).

O romancista português Joaquim Paço d’Arcos, filho do governador de Macau (1918-1923), Henrique Correia da Silva Paço d’Arcos, publicou duas obras com temas macaenses: Amores e Viagens de Pedro Manuel (1935) e Navio dos Mortos e outras Novelas (1952). A primeira tem como personagem um chefe da polícia secreta de Macau que era também capitão de piratas nos mares da China. A segunda conta a história da filha de um rico chinês residente em Macau, assassinada pelo marido que, por princípios ideológicos, não admitia poder sua mulher herdar a fortuna do pai. O navio, que fazia o transporte de mortos chineses do estrangeiro, trouxe os corpos de ambos, pois o marido, condenado pela justiça inglesa, morrera na forca.

Curiosidades de Macau Antiga e Lendas Chinesas de Macau, Efemérides da História de Macau (1954), Chinesices e Macau, factos e lendas são crônicas, que registram memórias e aspectos da vida e da história da Cidade do Nome de Deus, do macaense Luís Gonzaga Gomes (1907-1976). Grande conhecedor da língua chinesa, além de ter traduzido muitos textos chineses, publicou também os Vocabulários Cantonês-Português (1941) e Português-Cantonense (1942). O seu espólio encontra-se atualmente no Arquivo Histórico de Macau.

Português de nascimento, mas vivendo em Macau há mais de 60 anos, o emérito historiador Padre Manuel Teixeira tem mais de uma centena de títulos publicados. Sua vasta obra registra a evolução do Território desde a chegada dos portugueses, no século XVI, até os dias atuais. Galeria dos Homens Ilustres do Século XIX (1942), Macau através dos Séculos (1977), Vultos Marcantes em Macau (1982) são algumas de suas obras de valor não histórico mas também literário.

Três escritoras têm-se destacado pela temática macaense. Deolinda da Conceição publicou contos no jornal Notícias de Macau, posteriormente editados no livro Cheong-Sam, a Cabaia (1956). Versam sobre a exploração feminina, em Macau, onde se vendiam e compravam crianças, onde o vício do ópio dominava, onde proliferavam os negócios com o tráfico de drogas, ouro e armas. Maria Pacheco Borges, colhendo impressões entre o povo chinês de Macau, registra-as em Chinesinha (1974), narrativas que abordam, sobretudo, a sensibilidade do povo. E Maria Ondina Braga, cujo percurso literário vem sendo marcado desde os contos A China Fica ao Lado (1968), insere-se numa poetização da prosa em obras mais recentes sobre o Território: Nocturno em Macau (1991) e Dias de Macau em Passagem do Cabo (1994).

Dos prosadores macaenses deste final de século salientam-se: Henrique de Senna Fernandes, e Rodrigo Leal de Carvalho. Senna Fernandes publicou Nam Vancontos de Macau (1978) e os romances Amor e Dedinhos do [1986] e A Trança Feiticeira (1993), estes dois últimos adaptados para o cinema. Seus protagonistas são sempre macaenses, tendo o escritor o cuidado de reconstituir o ambiente de sua cidade. Quanto aos diálogos, um ou outro é que estão redigidos em patois, para, segundo o próprio autor, não tornar a leitura mais difícil, e também porque seria impossível traduzir-lhe todas “as suas nuances e inflexões de sotaque, pronúncia e entonação, de tão surpreendentes efeitos”.

Rodrigo Leal de Carvalho, romancista que se vem destacando na década de 90, apresenta paisagens e personagens com fortes traços macaenses em: Requiem para a Irina Ostrakoff, Construtores do Império e Quarta Cruzada.

Ao concluir, resta-nos uma referência aos textos em patois, dialeto falado em Macau durante quatro séculos, tendo como base a língua portuguesa do século XVI (segunda metade) e do século XVII. O poeta e prosador José dos Santos Ferreira, conhecido na Cidade do Nome de Deus por Adé, é seu maior representante. Suas obras Poéma di Macau (1983) e Macau, Jardim Abençoado (1988) são expressões vivas do dialeto, a doce língua maquista, não mais falado nos dias atuais.

Referências bibliográficas:

BATALHA, Graciete. A viragem do século e o escritor de Macau. In. Revista de cultura, Macau, v. 15, 1991.
CALADO
, Maria et al. Macau, cidade memória no estuário do rio das Pérolas. Macau: Oartex (CPS); Tomás Taveira, 1985.

in Revista Via Atlântica nº1, Março 1997.

 

 

 

       UMA DÚVIDA CHAMADA
                LITERATURA MACAENSE

 

 

 Existe uma literatura macaense? Esta foi a grande dúvida que marcou o segundo e último dia do encontro "Lusofonia: Os Caminhos da Escrita", organizado pela Instituto Português do Oriente (IPOR). Uma questão que dividiu a audiência e, mais do que isso, os especialistas portugueses e chineses presentes.

 


     "Existe literatura de Macau, sobre Macau, de gente que passou por , mas não há uma literatura macaense", defendeu Beltrão Coelho, o principal editor privado em língua portuguesa na RAEM. O problema, disse, é que "nãoum ambiente que provoque tertúlias, não há uma comunidade literária". O que existe, explicou, são "franco-atiradores ao longo dos tempos", muito dos quais nem são naturais do território, mas passaram nele um determinado período da vida. Ou ainda autores que estão em Portugal e que escreveram sobre Macau, cuja obra muitas vezes até é mais conhecida na RAEM do que a dos autores locais, reconheceu.


     Paradoxalmente, para Beltrão Coelho, cada vezmais gente academicamente preparada e "condições para produzir no território, desde que não pensemos em português, mas em toda a comunidade". Isto porque, na sua opinião, "tudo o que se possa fazer agora tem que ser efectuado sempre a pensar nas duas línguas: editar em português ou chinês e imediatamente traduzir para o outro idioma". Para o editor, assim "se consegue uma coexistência e uma convivência cultural".


     O problema, afirmou Beltrão Coelho, é que "não existe, como nunca existiu, um incentivo para a escrita" em Macau. Por isso, defendeu a criação de mais prémios literários (o IPOR apresentou recentemente um relativo ao conto infantil) e até de bolsas de escrita, patrocinados, por exemplo, por mecenas ligados à indústria do jogo. "Macau tem condições financeiras para o fazer, não tem essa preocupação cultural", atirou.


    
 LITERATURA CHINESA EM ALTA

Se do lado português o panorama traçado foi negativo, junto da literatura produzida em Macau de expressão chinesa, a reacção é a inversa. Nas palavras de Stella Lee, especialista em literatura macaense e membro do Instituto Cultural, do lado chinês da RAEM existem "pelo menos cerca de 30 autores, especialmente poetas". Entre os mais novos, acrescenta, há mesmo "uma rede de troca e de contacto" criativo.


     "A literatura de língua chinesa em Macau existe há muito tempo", referiu Stella Lee. "Nos anos 80 do século passado, como Macau estava estabilizada, após o 25 de Abril de 1974 e a Revolução Cultural, a literatura chinesa cresceu muito, chegando ao topo nos anos 90", acrescentou. "De momento, está um pouco em queda, porque enfrentamos uma nova Macau e temos que pensar sobre o que vamos escrever"


     Um dos principais impulsionadores desta literatura têm sido o jornal "Ou Mun", que organiza anualmente um concurso literário. "Daí nasceram vários autores", assegura Stella Lee, acrescentando que a maioria são mulheres de meia-idade.


     Ao contrário da comunidade portuguesa, onde o termo "literatura macaense" ainda levanta muitas dúvidas, nos falantes de chinês, este é um assunto arrumado. "Tem que ter como tema Macau e ser escrita por autores que vivam na RAEM há muito tempo", explicou a especialista, referindo-se às conclusões de um colóquio recente.


    
PONTES ENTRE CHINA E LUSOFONIA

A problemática da definição da literatura macaense surgiu ontem, durante a primeira mesa do segundo e último dia do encontro "Lusofonia: Os Caminhos da Escrita", onde participavam, além de Stella Lee, o sociólogo José Carlos Venâncio, o leitor de português na Universidade de Pequim Gustavo Infante e a autora de origem cambojana residente em Macau Liao Zixin.


     Curiosamente, foi sobre a escritora que caíram muitas interrogações. Isto porque o seu livro "As alucinações de Ao Ge", escrito em e sobre Macau, se encontra traduzido para francês e prepara-se agora para ser publicado em russo, sem que exista ainda uma versão portuguesa. Segundo a própria, isso deve-se ao facto da troca de culturas na RAEM não ser suficiente, porque não existe um meio para isso. No entanto, o IPOR anunciou que, em Março do próximo ano, essa lacuna será colmatada e Liao Zixin vai passar a poder ser lida na língua de Camões.

A literatura macaense em língua portuguesa: ruptura ou continuidade?”, Maria Antónia Espadinha, Universidade de Macau, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Departamento de Português. (Upload: 2010-07-08)

LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO, JOSÉ CARREIRO.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/macau.htm, 2007.
2.ª edição:
http://lusofonia.x10.mx/macau.htm, 2016.

 

 

lusofonia plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo

 José Carreiro
 
aguiarcarreiro@gmail.com