José Carreiro
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 MIGUEL TORGA 
 A Criação do Mundo

 

 

 

                                     1937-1981
                           
1ª ed. conjunta: 1991; 3ª ed. 2002, Publicações Dom Quixote.

   

 

PREFÁCIO DO AUTOR À TRADUÇÃO FRANCESA

 Querido Leitor: 

Vais ler de uma assentada, se a macicez do texto te não desanimar a curiosidade, os seis dias desta Criação do Mundo, que foram aparecendo nas montras separadamente, à medida que iam decorrendo. Livro temerariamente concebido na mocidade, imprevisível na trama e no rumo, só o tempo lhe podia dar corpo e remate, traçando-lhe o enredo e marcando-lhe a duração. O que acabou por acontecer, já que os fados, condoídos da cegueira do projecto, não quiseram calar, antes de ele ser levado a cabo, a voz do autor.

Todos nós criamos o mundo à nossa medida. O mundo longo dos longevos e curto dos que partem prematuramente. O mundo simples dos simples e o complexo dos complicados. Criamo-lo na consciência, dando a cada acidente, facto ou comportamento a significação intelectual ou afectiva que a nossa mente ou a nossa sensibilidade consentem. E o certo é que há tantos mundos como criaturas. Luminosos uns, brumosos outros, e todos singulares. O meu tinha de ser como é, uma torrente de emoções, volições, paixões e intelecções a correr desde a infância à velhice no chão duro de uma realidade proteica, convulsionada por guerras, catástrofes, tiranias e abominações, e também rica de mil potencialidades, que ficará na História como paradigma do mais infausto e nefasto que a humanidade conheceu, a par do mais promissor. Mundo de contrastes, lírico e atormentado, de ascensões e quedas, onde a esperança, apesar de sucessivamente desiludida, deu sempre um ar da sua graça, e que não trocaria por nenhum outro, se tivesse de escolher. Plasmado finalmente em prosa — crónica, romance, memorial, testamento —, tu dirás, depois da última página voltada, se valeu a pena ser visitado. Por mim, fiz o que pude. Homem de palavras, testemunhei com elas a imagem demorada de uma tenaz, paciente e dolorosa construção reflexiva frita com o material candente da própria vida.

 Coimbra, Julho de 1984

                                        Miguel Torga

 

 

UMA LEITURA DE A CRIAÇÃO DO MUNDO
     

 
Miguel Torga, no Prefácio de 1984, explica o título da obra: “Todos nós criamos o mundo à nossa medida.”
Quanto ao género, diz:Plasmado finalmente em prosa — crónica, romance, memorial, testamento […]”.
De facto, A Criação do Mundo tende para um hibridismo em que a “narrativa autobiográfica é contaminada por géneros como as memórias, o relato de viagem, o ensaio, o auto-retrato e as cartas” (Clara Crabbé Rocha, O Espaço Autobiogáfico em Miguel Torga, cap. VI), aos quais se pode acrescentar o lirismo.
 Em qualquer dos casos, Miguel Torga termina o Prefácio, dizendo: “Homem de palavras, testemunhei com elas a imagem demorada de uma tenaz, paciente e dolorosa construção reflexiva frita com o material candente da própria vida.”
  

 

A leitura do texto autobiográfico é aliciante, principalmente por dois motivos:

 

 - um, porque A Criação do Mundo é uma obra de iniciação, o tema é o da iniciação de um jovem à vida adulta, tal como o também chamado romance de aprendizagem ou de formação que incide sobre o processo de constituição e consolidação (cultural, psicológica, social) da personalidade de uma personagem, geralmente desde a sua infância ou adolescência até um estádio de maior maturidade.
Neste sentido o próprio narrador usa no volume respeitante ao Quinto Dia uma frase que funciona como um prolongamento do título Criação, “o homem se descobre a descobrir”. Esta frase confirma o título e descodifica o seu sentido figurado. Ainda neste volume, o conhecimento do eu é uma intenção manifesta: “Descer dentro de mim à fundura possível”; “O tempo acabara por me ensinar que nãoespelho mais transparente do que uma página escrita”.
 Verifica-se um centralismo autobiográfico assumido conscientemente pelo protagonista. O estatuto de isolamento é realçado pela recorrência de alusões à sua condição de ser  “sozinho no mundo”, ao desejo de descobrir o mundo “recolhidamente” e “numa intimidade quase secreta”. A palavra “isolado” aparece com muita frequência ao longo da narrativa.
 É quase exclusivamente no 5º Dia que o leitor encontra referências explícitas às funções autobiográficas:
- conhecimento introspectivo;
- catarse;
- empenhamento de doação individuais.
 Porquê no 5º Dia?
Tal facto deve-se sobretudo à circunstância de ser essa a fase da Criação em que a convergência do homem e do artista se produz de modo mais acabado, fruto da evolução do protagonista desde a frescura da inocência do 1º Dia até à maturidade.
Há uma linha de evolução que vai da focalização interna (da sabedoria incipiente do rapaz, perspectiva cognitivamente limitada) até à focalização omnisciente.
Nesta fase, a sua escrita literária é objecto de reflexão (reflecte sobre a escrita do 4º Dia, do Diário e da obra Portugal).
  
- outro motivo, é por haver na obra uma convergência entre um Eu individual e um Eu universal. Como diz Sartre: o homem é o “universal singular”.
 Na obra, o autor cria um mundo pessoal e fictício a partir do real. Mas não fica por aqui, o universo fictício é por sua vez transformado em simbólico.
Por exemplo, o próprio espaço físico assume na narrativa um valor referencial, fictício e simbólico.
Notamos uma coexistência de um espaço real e um fictício (Agarez) ao nível da toponímia. Deste modo o artista consegue tornar fictício um local cuja descrição é a imagem do real.
 Este artifício pode ser interpretado do seguinte modo: por um lado permite a verosimilhança e por outro é sintoma da relutância em escancarar as portas da intimidade e iludir uma total entrega do Eu. Alem do mais, reforça a evidência de criação de um mundo próprio.
  

 

A Criação do Mundo foi uma obra escrita faseadamente.

 

 Escreve Miguel Torga no Prefácio de 1984: “Livro temerariamente concebido na mocidade, imprevisível na trama e no rumo, o tempo lhe podia dar corpo e remate, traçando-lhe o enredo e marcando-lhe a duração.”
 A sua divisão em dias  pode ser vista como uma adaptação do mito pagão das quatro idades do Homem (Hesíodo).
 
Dia
Publicado em 1937.
Passa-se desde a idade da escola primária até aos 13 anos.
Corresponde à idade do ouro.
No livrocomunhão com a natureza, inocência, vida comunitária e fraterna.
No entanto, após a saída do Seminário, se nota um hiato entre o protagonista e os habitantes de Agarez.
A ida para o Brasil é vista como uma hipótese de descoberta, liberdade e oportunidade.
 
Dia
Publicado no mesmo volume de 1937.
Passa-se desde os 13 aos 17 anos.
Idade da prata.
Salienta-se a ida do protagonista para o Brasil, exemplo da emigração da época, ondechoque e encantamento e onde o rapaz se faz um homem. Um Brasil que será o cenário de cinco anos de tristezas e sofrimentos (conflito com a tia), de modo que o regresso a Portugal passa, entretanto, a ser visto como libertação.
 
Note-se que, até ao segundo dia, é dominante a narrativa pura, sendo que, a partir do terceiro dia, a escrita torna-se mais madura, com intromissão da crónica histórica e social e do ensaio reflexivo.
 
Dia
Publicado em 1938.
Passa-se desde os 17 aos 30 anos, tempo em que completa os três ciclos do liceu em três anos, estuda medicina e, formando-se em 1933, virá, de início, a exercer a profissão em Vila Nova e em Leiria.
Idade do bronze.
O enriquecimento cultural afasta-o das origens. Salientam-se alguns comentários à situação política (instituição da ditadura).
A morte da revista Trajecto, ditada pelo poder opressor, é outro marco importante.
 
Dia
Publicado em 1939.
Dezembro de 1937 a Janeiro de 1938
Idade do ferro.
A viagem à Europa, oprimida e devastada pela implantação do fascismo, é transformada num extenso relato de viagem que serve de pretexto para a crónica histórica, social e política. Viajou pela Espanha franquista, pela Itália de Mussolini e pela França, voltando, apesar dos perigos de repressão, a Portugal.
Sabemos que, chegado a Portugal, é preso pela P.I.D.E. e encarcerado no Aljube. O livro, proibido durante 32 anos, veio a ser publicado em 1971.
Condição de artista: “Se nasci para dizer alguma coisa. É [em Portugal], e apenas , que poderei encontrar a minha voz. E conquistar ao mesmo tempo uma liberdade sem remorsos”.
 
Dia
Publicado em 1974.
A acção passa-se desde os seus 31 a 33 anos de idade. Vai desde 1938 a 1940, descrevendo as atribulações do escritor em Leiria como médico e ainda vítima do sistema, devido a actividades de divulgação de ideias subversivas. A partir de 1939, fixa-se, definitivamente, em Coimbra.
São muitas as referências ao ambiente político asfixiante.
Idade do ferro.
  
Dia
Publicado em 1981.
Passa-se desde 1940 até ao pós-25 de Abril.
Morte dos pais do protagonista.
Ida ao Brasil para um Congresso de Literatura em São Paulo “que visava clarificar a imagem que a Europa tinha do Novo Mundo” (“procurei falar em nome de quantos, nascidos no velho continente, com um sonho de abundância dentro da mala, desembarcaram em terras americanas, e a desbravar, a semear, a construir, a confraternizar e a transplantar costumes, gostos e crenças, ajudavam a facetar-lhes o perfil, que depois, as cartas que escreviam, nos cheques que mandavam, ou até no silêncio  do esquecimento tornavam familiar na consciência dos que ficavam. Era essa interacção criadora-reveladora que ali me interessava testemunhar, ao lado dos sábios e literários depoimentos de outros que o látego da necessidade não fustigara.” pág. 542)
Desencanto do pós-25 de Abril.
Em O Sexto Dia, denuncia continuar sendo vítima da repressão, mesmo depois de ter sido posto em liberdade. Reflecte sobre a fase final da ditadura salazarista e sobre a política colonialista portuguesa na África, além de abarcar os esforços de democratização que viriam a culminar na Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974. 
Apesar do percurso disfórico, o protagonista tem esperança na libertação da natureza humana: a alma “inequivocamente abismada de dor e teimosamente possessa de esperança” (in Quinto Dia)
O desfecho de cada uma das diferentes fases anuncia a procura de novas descobertas, reforçando-se o firme propósito de continuar a luta pela liberdade.
Como escreve em 1984, num Prefácio à obra reunida, o seu mundo é aqueleque ficará na História como paradigma do mais infausto e nefasto que a humanidade conheceu, a par do mais promissor. Mundo de contrastes, lírico e atormentado, de ascensões e quedas, onde a esperança, apesar de sucessivamente desiludida, deu sempre um ar da sua graça, e que não trocaria por nenhum outro, se tivesse de escolher.”

 

 

 

  A Criação do Mundo

 

 

   PLANO DE LEITURA ORIENTADA

 

 I – CONTEXTUALIZAÇÃO do capítulo na obra.

 II – Breve síntese da ACÇÃO.

 III – Escolher um dos seguintes temas:

 A – PERSONAGENS

- identificação
- relação entre as personagens
- caracterização física, psicológica e social
- relevo na acção (se é personagem principal, secundária, figurante) e função na acção

 B – ESPAÇO E TEMPO

- identificação (no caso do espaço, identificar o aludido, o da história e o histórico)
- caracterização
- função

 C – REFERÊNCIAS E ALUSÕES

- identificação das referências artísticas, culturais (usos e costumes), históricas, socioeconómicas, políticas
- em que contexto surgem tais referências
- finalidade/objectivo dessas referências

 IV – REACÇÃO à leitura (isto é, implicação pessoal na obra lida)

- o que gostei/não gostei e o porquê
- passagens que me fizeram pensar

 

ATENÇÃO:
 
- Todas as afirmações têm de ser confirmadas com expressões do texto.
- Todas as expressões do texto têm de obedecer às regras da citação (vir entre aspas e indicar o número da página em que se encontram).

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

DIETZEL, Vera Lúcia. “As viagens do narrador-personagem em A Criação do Mundo de Miguel Torga” in Mimesis, Bauru, v. 22, n. 1, p. 07-34, 2001.

MACHADO, Álvaro Manuel, “[Recensão crítica a 'O Espaço Autobiográfico em Miguel Torga', de Clara Crabbé Rocha]" in: Revista Colóquio/Letras. Recensões Críticas, n.º 54, Mar. 1980, p. 86.

ROCHA, Clara Crabbé, O Espaço Autobiográfico em Miguel Torga, Coimbra, Almedina, 1977.

TORGA, Miguel, A Criação do Mundo (1937-1981); 1ª ed. conjunta: 1991; 3ª ed., Publicações Dom Quixote.

 

 

LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO. Projeto concebido por José Carreiro.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/literatura_portuguesa/criacao_do_mundo.htm, 2009.
2.ª edição: http://lusofonia.x10.mx/literatura_portuguesa/criacao_do_mundo.htm, 2016.