CONTO POPULAR

 

 Índice (para consulta, clique nas hiperligações abaixo indicadas)

  O conto popular
  O narrador na tradição oral africana
  O espaço e o tempo de contar
  A linguagem do conto
  Transmissão e difusão do conto popular
  Tipologias do conto popular, características da lenda
  As funções do conto
  A passagem da infância à idade adulta
  A estrutura dos contos: funções das personagens
  Arquitectura do conto popular
  
Prática de contar

 

 

O CONTO POPULAR

Na sua essência, o conto popular reduz-se a "uma curta narrativa com fundo humano de universalidade, a transmitir-se de uns para outros povos, constituindo este fundo o que poderíamos chamar de seu esqueleto: mas, por outro lado, revela-se-nos igualmente influenciado em muita diversa graduação, segundo os casos, pelo que poderíamos chamar de colorido local, que não é mais do que o reflexo da personalidade dos grupos étnicos em cujo seio ficaram recolhidas diferentes variantes ou versões de cada conto"(Loí Carré Alvarellos, Contos Populares da Galiza, Porto, 1968) – Moutinho, Viale, Contos Populares Portugueses, Pub. Europa-América, Col. Livros de Bolso, nº271, p.12.

Em síntese:

    ·   É uma narrativa curta;
·
   Constituído por personagens, espaço, acção, e tempo;
·
   Constituído por uma moral universal;
·
   O conto pode ser influenciado pelos diversos povos;
·
   Os diversos contos étnicos juntaram ao conto o colorido local. Assim, o mesmo conto pode apresentar variantes.

 

 

O NARRADOR NA TRADIÇÃO ORAL AFRICANA

Nãoquem tenha publicado antologias de contos africanos sem ter insistido na violência que se pratica com este produto quase espontâneo da literatura oral, quando se lhe coloca as algemas da língua escrita. Lembremos em poucas palavras o ambiente natural do conto que afinal se destina a ser contado. “Para narrar um conto destaca-se um indivíduo que, em geral, fala em (nos povos aquém-Cunene é mais frequente ficarem os oradores sentados). Pouco a pouco ele vai-se animando, modula a voz segundo os vários actores que intervêm na recitação, intercala interjeições, ora lamentosas ora explosivamente admirativas. Gesticula não com os braços, mas conforme as exigências da narrativa, com o corpo todo. O auditório toma parte viva, estando às vezes como electrizado. Manifesta de onde a onde ruidosamente aprovação ou desaprovação, sublinha as partes hilariantes com risos estrepitosos e reage entendidamente às frases sarcásticas” (Viegas Guerreiro) Carlos Estermann, Cinquenta Contos Bantos do Sudoeste de Angola, Luanda, Instituto de Investigação Científica de Angola, 1971, p. 29.

 

 

O ESPAÇO E O TEMPO DE CONTAR

Ouvir uma narrativa, deixar-se seduzir pelo poder mágico das palavras, foi durante séculos uma das maiores formas de entretenimento de todo o tipo de sociedades, tanto nas mais cultas e requintadas como nas agrárias e em sociedades de transição mais lenta para a industrialização.

 Um grupo senta-se à volta do narrador. O ambiente contribui para a criação de uma atmosfera propícia: narrador e ouvintes sentam-se à roda de uma fogueira, em frente a uma lareira acesa, perto de uma fonte, segundo as épocas do ano e o país. Narrador e ouvintes saem da realidade comezinha do dia-a-dia para entrar num outro mundo, vivem emoções, surpresas e inquietações diversas à medida que o contador vai tecendo a sua narrativa. Diante dos ouvintes-participantes desfilam personagens e episódios, os ideais de valentia, de fantasia, de riqueza, de amor, de justiça. O desejo de aventura, de sair dos estreitos limites dum quotidiano sem glória, que de uma forma ou de outra todo o ser humano carrega dentro de si, faz viver outras vidas por procuração e acreditar que existe um outro mundo melhor, exterior ao nosso, em que é possível transformar desejos em realidades. Talvez um dia, quem sabe, tudo aquilo possa vir a passar-se connosco.

 Contar perto do fogo e da água parece ser um costume universal. O fogo e a água servem de protecção, como o vidro da janela através do qual os mundos se vêem mas não se penetram. O fogo sempre foi visto como um elemento protector. É antiga a crença no seu poder de afastar animais selvagens e potências malfazejas. A fogueira e a lareira simbolizam a sociedade humana, o seu agrupamento à volta de uma forma de ser comum e viva.

 A água é símbolo da vida. Possui virtudes purificadoras que limpam da doença e do pecado, tal como do e da sujidade. Em muitas culturas acredita-se que um curso de água ou mesmo um recipiente cheio impede os fantasmas dos mortos de voltarem à sua antiga casa e interferirem na vida dos seus descendentes.

 Também é habitual que o acto de contar se produza de noite, quando o manto protector da escuridão desce sobre a terra. Há culturas em que o acto transgressor de contar durante o dia é susceptível de punições terríveis. Entre os índios norte-americanos, por exemplo, era proibido contar durante o dia sob pena de se produzirem graves distúrbios meteorológicos. Vários povos da África Negra pensavam que contar durante o dia fazia cair as nuvens ou objectos do céu sobre a cabeça do narrador. Na Nova Guiné temia-se que o narrador transgressor fosse fulminado por um raio. No Norte de Africa continua a acreditar-se que contar durante o dia pode provocar uma série de doenças, sobretudo a tinha, quer no narrador quer na sua família. Os irlandeses antigos acreditavam que contar durante o dia trazia má sorte. No Alasca teria existido uma tribo em que era permitido contar durante o dia, desde que fosse às escuras. A obscuridade ambiente parece ser uma protecção fundamental, além da presença do fogo e da água, frente às ameaças que comporta o acto de narrar fora dos códigos estritos estabelecidos por cada comunidade. O mundo do extraordinário evocado pela narração, de certa forma, também se encontra adormecido.

 Segundo o testemunho apresentado por P. J. Hélias, na Bretanha rural não se contava num momento qualquer. Raramente se contava de dia: «os contos contavam-se depois do cair da noite», quando os trabalhos agrícolas tinham acabado e os ouvintes estavam disponíveis. Também entre os Dogons se contava depois de a noite cair; contar de dia podia provocar a morte da mãe do transgressor. As regras e os interditos que em certas sociedades africanas rodeiam esta manifestação de literatura oral dão conta da sua importância. Formam conjuntos que variam segundo as culturas, mas que apresentam constantes que mostram que o conto está ligado não ao sistema de parentesco e à fecundidadetrocar contos entre certas categorias de parentesco equivale a um incesto —, como ao bom funcionamento do cosmos, à alternância do dia e da noite, ao ciclo das estações contar na estação das chuvas pode causar a paragem da chuva.

 A palavra converte a ideia em realidade, é o fenómeno que parece acontecer no espírito de quem ouve o conto, seja criança ou adulto. Tanto o narrador como os ouvintes participam na criação. «Com cada conto conseguimos expressar as verdades de cada momento e de cada objectivo no nosso caminho como seres humanos, ou o que acreditamos que possa sê-lo, porque o conto é ensinamento e escola. Na narração estão contidos os comportamentos que deves desejar, os comportamentos que tens de evitar, a forma de te comportares perante o previsto e o imprevisto, a conduta e os hábitos dos seres que vamos encontrando na nossa exploração do ‘orbe’, a procura da imortalidade e outras coisas mais».

Maria Emília Traça, O Fio da Memória. Do Conto Popular ao Conto para Crianças
Porto, Porto Editora. 1992. pp. 42-43.

 

 

A LINGUAGEM DO CONTO

Respeitando com todo o escrúpulo a espontaneidade popular, não nos julgámos autorizados a retocar, sob o pretexto de uma falsa compreensão artística, a linguagem dos narradores, como infelizmente entendeu dever fazê-lo o autor de uma colecção, aliás bastante importante, da nossa península. A Forma de cada conto conserva o cunho da pessoa que o ditou. Um pouco mais correcto se a narradora era ilustrada, mais desalinho na forma se a narradora o era menos; e, se no nosso país houvesse dialectos distintamente caracterizados, ver-se-ia em cada conto reflectida essa diferenciação. (Consiglieri Pedroso, Contos Populares Portugueses, Lisboa, Vega, 1992, 5ª Ed., p34)

Em síntese:

    ·   Na recolha e transcrição, a linguagem do conto deve respeitar o estatuto sociocultural do contador (fidelidade da transcrição);
·   A personalidade do contador reflecte-se na linguagem do conto;
·
   A influência dos dialectos também deve ser respeitada na transcrição.

 

 

TRANSMISSÃO E DIFUSÃO DO CONTO POPULAR

Bases da Origem dos contos. Pela sua antiguidade histórica, situação geográfica e complexo étnico, Portugal é de inesgotável riqueza em contos populares. As viagens portuguesas levaram e trouxeram contos de todos os recantos do mundo: Índia, China, terras infinitas do continente africano. Neste último, o Português espalhou "estórias" que foram semeadas pelos negros escravos na América austral e mesmo nos Estados Unidos, segundo Franz Boas. O próprio aventureiro português era um irradiador natural. De torna-viagem, navegantes e missionários contavam contos que se incorporavam ao "corpus" nacional, tomando cores locais de fauna e flora. Um levantamento temático de contos populares em África, ampliando a Literatura Africana de Osório de Oliveira, em Goa, Timor e Macau mesmo sumário mas preciso, como Dean S. Fansler realizou nas Filipinas, revelará a presença destas variantes e fontes que Portugal exportou com sangue do seu povo. (Dicionário de Literatura, Dir. Jacinto do Prado Coelho)

 

 

TIPOLOGIAS DO CONTO POPULAR, CARACTERÍSTICAS DA LENDA

 

É de difícil classificação pela variedade tipológica:

·         maravilhosos ou de encantamento

·         de exemplo

·         religiosos ou morais

·         de animais ou fabulários

·         etiológicos (relatos míticos da fundação de um local)

 

  A lenda (tal como o conto popular) é de transmissão oral e pertence ao património cultural dum povo.

  Apresenta:

·         facto histórico transfigurado pela imaginação popular;

·         localização definida no espaço e/ou no tempo;

·         acção modelada (cristão ou não - ex.: os santos, as mouras...);

·         heróis identificados;

·         quando procura explicar um facto geográfico, pode confundir-se com o conto etiológico.

Helena de Melo Cunha e Zacarias Nascimento, Espaços, Português 10ºB, Plátano Editora, pp. 37- 38

 

 

AS FUNÇÕES DO CONTO

  

  São funções do conto popular, entre outras:

·        ser memória do grupo; – património cultural (tradições)

·        apresentar modelos exemplares, em situações dicotómicas (ex.: o bom/o mau);

·        transmitir valores

·        Condicionar comportamentos e atitudes;

·        preencher espaços de lazer. – tempo livre

 
        Em síntese:

·        função de coesão: moral; cultural; social

·        função pedagógica através do lúdico (ensinar divertindo).

Helena de Melo Cunha; Zacarias Nascimento, Espaços, Português 10ºB, Plátano Ed.

 

 

A PASSAGEM DA INFÂNCIA À IDADE ADULTA
 

Propp também é justamente famoso pelo livro As Raízes Históricas dos Contos de Fadas, em que expõe de modo aliciante e, pelo menos do ponto de vista poético, convincente a teoria de que o núcleo mais antigo dos contos mágicos deriva dos rituais de iniciação usados nas sociedades primitivas.

O que os contos narram – ou escondem, no termo da sua metamorfose – acontecia dantes: os rapazes eram separados da família e levados para a floresta (como o Pequeno Polegar, como Hansel e Gretel, como Branca de Neve...) onde os feiticeiros das tribos, vestidos de maneira a provocar o susto, com a cara tapada por máscaras horríveis (que nos fazem pensar logo em magos e bruxas...), os submetiam a provas difíceis e frequentemente mortais (todos os heróis dos contos populares as encontram no seu caminho...). Os rapazes ouviam contar os mitos da tribo e recebiam as armas (os presentes mágicos que nos contos certos doadores sobrenaturais distribuem aos heróis em perigo...) e finalmente regressavam às suas casas, muitas vezes com outro nome (também o herói dos contos populares regressa às vezes incógnito...), e estavam suficientemente amadurecidos para se casarem (como nos contos, que nove vezes em cada dez se concluem com uma festa de bodas...).

Na estrutura do conto repete-se a estrutura do rito. E precisamente a partir desta observação que Vladímir Propp (mas não ele) deduz a teoria de que o conto popular começou a viver como tal quando decaiu o antigo ritual, deixando de si apenas o conto. Os narradores, no decurso dos milénios, têm vindo sempre a trair a lembrança do rito e a servir cada vez mais as exigências autónomas do conto, que de boca em boca se transformou, acumulou variantes, acompanhou os povos (indo-europeus) nas suas migrações, absorveu os efeitos das mudanças históricas e sociais. Assim os falantes, no decorrer de poucos séculos, transformam uma língua até dar vida a uma língua nova: quantos decorreram desde o latim da decadência romana até às línguas neolatinas?

Em resumo, os contos populares terão nascido por decadência do mundo sagrado para o mundo laico: tal como por decadência chegaram depois ao mundo infantil, reduzidos a brinquedos, objectos que em eras anteriores foram objectos rituais e culturais. Por exemplo as bonecas, o pião... Mas na origem do teatro não está também um mesmo processo de passagem do sagrado ao profano?

Em torno do primitivo núcleo mágico os contos populares captaram outros mitos dessacralizantes, contos de aventuras, lendas, historietas; ao lado das personagens mágicas colocaram as personagens do mundo camponês (por exemplo o espertalhão e o palerma). Criou-se um denso e complexo magma; uma amálgama de cem cores de que no entanto — diz Propp — o fio principal é o que descrevemos.

Uma teoria pode valer tanto como outra e talvez nenhuma esteja em condições de dar uma explicação completa dos contos populares. A de Propp tem um fascínio especial porque institui uma ligação profunda — poder-se-á dizer ao nível do «inconsciente colectivo» — entre o rapaz pré-histórico que viveu os ritos iniciáticos e a criança histórica que vive precisamente com o conto uma sua primeira iniciação ao mundo do humano. A identificação entre o pequeno ouvinte e o Pequeno Polegar da história que a mãe lhe conta, à luz dessa teoria, não tem apenas uma justificação psicológica: tem também uma muito mais profunda, radicada no próprio sangue.

 Gianni Rodari, Gramática da FantasiaIntrodução à Arte de Contar Histórias
Lisboa, Ed. Caminho, 1993 (1ª ed. italiana: 1973), pp. 92-93

 

A ESTRUTURA DOS CONTOS: FUNÇÕES DAS PERSONAGENS

Analisando a estrutura do conto popular, Propp[1] conseguiu formular três princípios: 1) «os elementos constantes e estáveis do conto são as funções das personagens, independentemente do executor e do modo de execução»; 2) «o número das funções que comparecem nos contos de magia é limitado»; 3) «a sucessão das funções é sempre idêntica».

No sistema de Propp as funções são 31 e bastam, com as suas variantes e articulações internas, para descrever a forma dos contos:
 

1) afastamento

2) interdição

3) transgressão

4) interrogação

5) informação

6) engano

7) cumplicidade

8) malfeitoria (ou falta)

9) mediação

10) consenso do herói

11) partida do herói

12) herói posto à prova pelo doador

13) reacção do herói

14) recepção do objecto mágico

15) deslocação do herói

16) combate entre herói e antagonista

17) o herói marcado

18) vitória sobre o antagonista

19) reparação da desgraça ou falta inicial

20) volta do herói

21) sua perseguição

22) o herói salva-se

23) o herói chega incógnito a casa

24) pretensões do falso herói

25) ao herói é imposta uma tarefa difícil

26) cumprimento da tarefa

27) reconhecimento do herói

28) desmascaramento do falso herói ou do antagonista

29) transfiguração do herói

30) punição do antagonista

31) casamento do herói

 

Naturalmente, nem em todos os contos estão presentes todas as funções: na sucessão obrigatória verificam-se saltos, acrescentos e sínteses, que no entanto não contradizem a linha geral. Um conto tanto pode começar pela primeira função como pela sétima ou pela décima segunda, mas — se for suficientemente antigo — é difícil que saltos para trás, para recuperar as passagens esquecidas.

A função do «afastamento», que Propp indica em primeiro lugar, pode ser cumprida por uma personagem que se afasta de casa por qualquer motivo, um príncipe que parte para a guerra, um pai que morre, um dos pais que vai para o trabalho (recomendando aos filhos — e está a «interdição» — que não abram a porta a ninguém, ou que não mexam numa certa coisa), um mercador que vai fazer uma viagem de negócios, etc. Todas as «funções» podem compreender o seu contrário: a «interdição» pode ser representada por uma «ordem» positiva.

Mas não avancemos demasiado com as nossas observações sobre as «funções» de Propp senão para sugerir, a quem o deseje, que se exercite a comparar a sua sequência com a trama de qualquer filme sobre as façanhas do Agente 007: esse alguém poderá espantar-ne de encontrar um grande número delas, quase na ordem certa, tão viva e obstinadamente presente está na nossa cultura a estrutura do conto popular. E muitos livros de aventuras não apresentam marcas diferentes.

Gianni Rodari, Gramática da FantasiaIntrodução à Arte de Contar Histórias
Lisboa, Ed. Caminho, 1993 (1ª ed. italiana: 1973), pp. 93-95.


[1] VLADIMIR PROPP — estudioso russo que em 1928 publicou um importante livro Morfologia do Conto — no qual, a partir do estudo dos contos populares russos, concluiu que a estrutura dos contas populares era sempre basicamente a mesma.

 

 

ARQUITECTURA DO CONTO POPULAR

Os momentos da acção do conto, segundo Paul Larivaill.

 

  A acção tem um carácter moralizador (a luta entre o Bem e o Mal merece quase sempre um "happy-end") e o desenlace surge como prémio ou como castigo, após as diversas provas que o herói deve enfrentar. Segundo Paul Larivaille, são cinco os momentos em que se desenrola a acção:

1.       "Situação inicial" de equilíbrio;

2.       "Acontecimento perturbador";

3.       Série de acontecimentos provocados pela "dinâmica de desequilíbrio";

4.       Fim da perturbação pelo aparecimento de uma "Força Inversa Rectificadora";

5.       "Situação final".

Vasco Moreira e Hilário Pimenta, Encontro Literário, Português A, 10º Ano, Porto, Porto Ed., p188

 

PRÁTICA DE CONTAR

Proposta 1 produção oral

 

Experimente agora, dizer o conto de que mais gosta. Utilize o gravador para o ajudar a encontrar uma dicção clara, a conseguir a entoação e o ritmo adequados e a testar o grau de assimilação atingido.

Aproveite, para obter um melhor efeito, as seguintes sugestões:

“Trata-se de assimilar a história, não de a memorizar, o que destruiria a liberdade e a espontaneidade do contar, de ter a intuição perfeita do seu sentido, o correcto domínio do seu estilo. Para o conseguir, o primeiro passo é reduzir a narrativa aos seus elementos constitutivos, aos seus núcleos, despojá-la de artifícios de estilo, de descrições supérfluas, até ter um sentido exacto da gradação, da percepção nítida dos incidentes que conduzem ao desfecho. Preparar a narração da história, contando-a em voz alta para um auditório imaginário, uma e outra vez, introduzir pausas, sabiamente, intencionalmente, modelando o timbre e a intensidade da voz.

Utilizar palavras que evoquem cores, sons, perfumes, cheiros; substituir, sempre que possível, uma palavra abstracta pela sua concretização material, servir-se dum vocabulário simples e rico, evitar palavras «difíceis», conduzir o ouvinte na progressão da narrativa, recorrer a leitmotiv, a repetições encantatórias.” (Maria Emília Traça, O Fio da Memória. Do Conto Popular ao Conto para Crianças, Porto, Porto Editora, 1992. p. 138)

 

 

Proposta 2 produção escrita

 

Servindo-se dos elementos tradicionais e míticos dos contos populares, crie um conto maravilhoso.

Pode inventar o que quiser, desde que a sua história inclua um herói, um agressor e um auxiliar, cujas características devem ser seleccionadas na lista a seguir fornecida.

 

A – HERÓI

a) nascimento maravilhoso de um peixe; da água; do lume; de um animal...

b) profecia sobre o seu destino: adormecerá aos 15 anos; ficará corcunda...

c) atributos: belo; inteligente; ruivo; eloquente...

d) marca: ferimento; golpe; estrela na testa; orelhas de burro...

e) prova(s): levantar uma pedra muito pesada; construir um palácio numa noite; ouvir uma determinada música sem adormecer; colher frutos de um arbusto especial; tomar banho em água a ferver; reunir sete animais...

 

B – AGRESSOR

a) identificação: Fada Má; Madrasta; Dragão; Lobo; Diabo; Bruxa...

b) aparição: a voar numa vassoura; em bicos de pés; num tapete mágico...

c) papel: perturbar a paz familiar; provocar uma desgraça; causar prejuízo...

d) acção: oferece um anel à vítima; oferece bolos envenenados; prende ao fato da vítima um alfinete mágico; faz-se passar por um mendigo ou por uma boa velhinha para enganar a vítima

e) malfeitoria: arranca os olhos ou o coração vítima; faz com que a vítima se esqueça de tudo através de um beijo; mete a vítima numa masmorra; faz adormecer a vítima

 

C – AUXILIAR MÁGICO

a) Identificação: espírito da lâmpada que o herói pode chamar em caso de necessidade; maçãs mágicas; água da força; poção mágica

b) aparição/transmissão: surge espontaneamente; é dado ao herói como prenda ou recompensa; encontra-se na floresta...

(in Ser em Português 10, coord. A. Veríssimo, Areal Ed., 1997)

 

LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO, JOSÉ CARREIRO.
        1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/conto_popular.htm, 2007. 2.ª edição:
http://lusofonia.x10.mx/conto_popular.htm, 2016.

 

lusofonia plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo

 José Carreiro
 
aguiarcarreiro@gmail.com