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O MITO DE MONSIEUR QUEIMADO

uma imagem mítica dos Açores
 

 

António Machado Pires (1988)

 

 

 

 

Quando Vitorino Nemésio, em 1940, faz uma conferência em Nice para falar do mito de Monsieur Queimado, ele já era um universitário doutorado, professor visitante em França, escritor com obras notórias, provas demonstradas na prosa de ficção do Paço do Milhafre (1924, prefácio de Afonso Lopes Vieira), na Varanda de Pilatos (1927), na Casa Fechada (1937), na poesia em língua francesa de La Voyelle Promise, marco importante na sua trajectória literária, no conhecido Bicho Harmonioso, que, no fim da década de trinta (1938), marca uma fase «saudosista» da sua obra (i.e., não no sentido do movimento literário do Saudosismo, mas no demarcado pela «Saudade da ilha», erigida simbolicamente em seus versos).

Nemésio, saído da sua ilha natal para estudar no Continente, primeiro em Direito, depois em Letras, vinha esporadicamente à Terceira (uma das viagens com significado foi aquela em que acompanhou Raul Brandão aos Açores, em 1924). Mas as viagens de «revisita», mais importantes afectiva e literariamente, foram os dois corsos que estão na base do Corsário das llhas, em 1946 e 1955, surgindo aquele livro em 1956.

Antes, em 1932, já esse estado de espírito de ausente lhe inspirara as célebres considerações que o levaram a falar na açorianidade, termo e conceito que inventou.

«Não sei se chego a tempo com a minha colaboração para a Insula no V Centenário do descobrimento dos Açores. É uma colaboração estritamente sentimental, uma espécie de minuto de recolhimento em meia dúzia de linhas».

Essas linhas datadas de Coimbra, 19 de Julho, 1932, são um embrião de reflexões ontológicas do ser açoriano. Um «entretenimento literário», até que um dia possa tentar «um ensaio sobre a [sua] açorianidade subjacente que o desterro afina e exacerba». (Insula, n.° 7-8, Ponta Delgada, 1932.)

Mas este texto-conferência em língua francesa — Le Mythe de M. Queimado, é um dos mais importantes testemunhos da sua açorianidade e um dos menos conhecidos e citados. Foi publicado em Bulletin des Études Portugaises et de l‘Institut français au Portugal, Tomo VII, Coimbra, 1940.

O texto vem citado na bibliografia da Miscelânia de Estudos de Homenagem a Vitorino Nemésio, Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, 1971, novamente citado em J. Martins Garcia, Vitorino Nemésio, a obra e o Homem, Lisboa, Arcádia, 1978; citado ainda por Heraldo Silva, em Açorianidade na Prosa de Vitorino Nemésio — Realidade, Poesia e Mito, Col. Temas Portugueses, Imprensa Nacional / S.R.E.C., 1985.

Vem, finalmente, escolhido e transcrito na antologia de Vitorino Nemésio, publicada pelo I.C.A.L.P. em Fevereiro/1987, organização, introdução e notas de Margarida Maia Gouveia.

Este texto, como vamos ver, é uma imagem mítica dos Açores, estruturando os grandes elementos míticos da criação nemesiana, documentando porém uma notável informação geográfica e histórica dos Açores. Queimado é o nome dado popularmente ao milhafre dos Açores (que por sua vez tiram o nome destas aves), pelo que o nome de queimado fica logo carregado de valor simbólico. Em primeiro lugar, não nos surpreende o texto escrito em francês. Nemésio era romanista, ensinara em França, o francês é uma grande língua de cultura. Ele toda a vida viria a ser muito marcado pela cultura de língua francesa, tendo sido o autor das Relações Francesas do Romantismo Português (Coimbra, 1936). Aliás, o poeta de La Voyelle Promise, que já evocara naquela língua a sua ilha atlântica, deixara-se imbuir da experiência de vivências em outra língua, impelido a criar por dentro de outro sistema linguístico, assinalado vivencialmente e não adoptado por snobismo intelectual. O poeta cria por imperativo de formas interiores desencadeadas e fermentadas no quotidiano, percepcionado com uma força superior ao utente comum da língua. Aqui, pois, o francês por cultura e por vivência de poeta. Ora uma conferência como «Le Mythe de Monsieur Queimado» era não só o prolongamento da sua experiência de vivente e professor em França, de romanista e admirador da cultura francesa, mas também a oportunidade (mais uma) de, nesta nova situação, recordar a sua ilha como poeta, o fazedor de mitos (a missão mais nobre, diria Pessoa), ainda como homem que se autobiografa no disfarce mítico de uma historiazinha fantástica ou quase improvável.

«Permettez moi d’oublier un instant ma condition de professeur et de vous parler, en poète, d’une experience humaine arbitraire. [...] Mon experience [est] strictement privée. Et elle est vécue . »

Aí está, pois, como o professor e o conferencista confessam abertamente situarem-se na experiência humana pessoal, legitimamente tornada matéria de conferência, a não-ilhéus, para quem vai falar da solidão e do homem atlântico. Estamos em 1940, Nemésio tem 39 anos (andará a congeminar o Mau Tempo, já fez longos e importantes versos à sua ilha, seu cosmos de infância e idade de ouro perdidos nas distantes milhas salgadas).

Eis o que é a «história» deste Monsieur Queimado que ele conheceu ao visitar a ilha Terceira nos navios da carreira, há cerca de 20 anos. M. Queimado, que, curiosamente, tem a mesma idade dele e semelhanças físicas, é o seu anfitrião ao longo de um passeio por aquela ilha. Enquanto lhe vai falando das peculiaridades atlânticas açorianas, das características do viver ilhéu, da história natural e da geografia daquela ilha em particular, M. Queimado vai sustentando que o homem açoriano é peculiar, tal como o pombo que a natureza darwinianamente adaptou ao habitat da ilha. O passeio pela ilha conduz até à ponta do Peneireiro, na Serreta, onde Nemésio visitante e forasteiro, descobre, nas anfractuosidades rochosas, um ovo de pomba, misterioso e simbólico — C’était un ceuf, rien qu’un ceuf, et admirablement pondu[1].

Como veremos, são as considerações de M. Queimado que nos interessa analisar, e depois aquele ovo misterioso, que tantas referências parece ter, afinal, na poesia do visitante. Visitante ingénuo, que se faz passar por incrédulo, e «empresta» ao outro o tanto de açorianidade, experiência e empenho que são dele mesmo. Começa, pois, o relato mítico desdobrando-se «heteronimicamente», falando de outro, que não ele, Mateus Queimado, que ele conheceu numa longínqua viagem aos Açores...

Como se não bastasse inventar um outro sujeito, mas trocasse com ele a sua própria pele de açoriano! Esta criatura vai falar do que é meu, então, para que eu não tenha pudor e dê asas à minha imaginação (eu poète...), eu sou o visitante ingénuo e desprevenido, filtrando com o meu racionalismo e a minha cultura de citadino a cultura peculiar do outro. M. Queimado era o adjunto do director do observatório Afonso Chaves em Ponta Delgada, mas é, para Nemésio — visitante, um poeta, um pouco louco, um pouco excêntrico.

«M. Queimado était un jeune homme naïf. On l’approchait toujours par je ne sois quel côté irréel [...]. On était, en face de lui, sur les frontières d’un fou et d’un homme authentique. »[2]

Mas há naquele homem um misto de sabedoria e de, talvez, «loucura insular». Talvez daquela «loucura insular» que perpassa em certas figuras, como excêntrico e melómeno pai de Venâncio da Varanda de Pilatos[3]. E, contudo, este homem obcecado, mas sincero, estende a Nemésio, «sur le fond inépuisable de sa folie, le filet de son admirable savoir et de la qualité exquise de son jugement scientifique» (p. 204). Eis o essencial da sua «tese»:

O homem açoriano, sem antepassados da Atlântida, é um produto original dum meio todo ele peculiar; a marca da terra sobre o homem é enorme em todos os aspectos da vida insular, havendo uma quase «correspondência» simbólica entre a natureza insular e o homem insular. A ilha obriga a vida insular a fechar-se sobre si própria, gerando um isolamento singular.

Na sua teoria, M. Queimado explicava que a ilha Terceira, sensivelmente equidistante de Bordéus, da Terra Nova e de Cabo Verde, faz com que os Açores não pertençam rigorosamente nem à Europa, nem à América, nem à Africa, mais simplesmente à sua própria identidade telúrica: «[…] une conviction purement vitale et arbitraire, sur la singularité tellurique de son pays et, par lá, sur l’isolement farouche et presomptueux de sa nature […] L’idée d’une Atlantide engloutie dans les eaux, dont les Açores, les Canaries, Madêre et le Cap Ver n’eussent étés que les sommets d’une cordillère affaissée, le mettait en Colère, car elle ruinait la possibilité d’une structure açoréenne autonome et le mythe de l’homme açoréen sans ancêtres, le mythe de M. Queimado.» (p. 406)

Afastada então a teoria geogenética dos Açores oriundos da Atlântida submersa, o mito de Monsieur Queimado gera uma outra teoria, e do homo açorensis, com a sua morfologia de conduta, «c’est à dire tout ce qui, parmi les différentes fonctions des orgaries, y compris les facultés et les agents de notre âme, représente a seule adaptation possible à un but que l’individu est forcé de çoursuivre» (p. 407).

O mito de M. Queimado é, afinal, o mito explicativo das origens, o mito das origens elas mesmas, do início ab ovo do homo açorensis. O mito é fábula, explicação outra para substituir ou preencher a lacuna de outras explicações racionais e encadeadas. O que é lógico e facilmente explicável não tem mistério, nem gera mito; mas também não tem força nem «alma» histórica. O velho pensamento — nada é mais belo que o mistério — continua válido. Nenhuma crença tem mais força do que a que e baseia no mítico, sobretudo se, como neste caso, se trata de um mito primordial ou de origens. M. Queimado, figura brincada, imaginada na narratologia ou no ensaísmo nemesiano, é, neste caso, o sujeito forjado de um mito obsessivo. «La conviction de la valeur de l’empreinte de la terre sur l’homme qui la fuit devenait pour moi une hantise. [...] jeune homme sincère et obsedé» (p. 409). M. Queimado exprime, embora sob forma imaginativa e brincada, uma atitude de busca da peculiaridade da cultura dos Açores, na sua história, na sua história natural, na geografia humana, em síntese, no homem. Nemésio escolheu, sem deixar de se salvaguardar poeta, o ensaísmo e a conferência para, numa língua estrangeira, falar o mais possível das suas ilhas (da ua em especial) e aprofundar a ontologia do ser-se açoriano. O ser histórico geograficamente situado (a geografia, mais valia histórica nos Açores), mas o ser humano, na sua condição extrema e extremada pela natureza sui generis: «C’était une histoire sans éclat, sans Antiquité, sans Moyen Âge, sans Renaissance ni humanisme. Pas de Luther ou de Mirabeau, ancun Napoléon; rien que des hommes guettés par des milans [...].» (p. 415) O homem em luta com a natureza e com a sua solidão. Aqui já não são senão ligeiramente afloradas as raízes lusitanas históricas («universo de lusitanidade quatrocentista», escrevera em 1932 quando falara da açorianidade), mas tão-só o homem e o telurismo, «la singularité tellurique de son pays...»

E, contudo, essa dimensão universalizante servida por uma cultura notável (cita autores clássicos antigos, Darwin, Chateaubriand, Mark Twain, Garret, o Príncipe do Mónaco, exibe conhecimentos de cartografia atlântica, de história natural, de geologia insular a propósito das rochas), essa vontade de falar das ilhas, num «se bem me lembro» avant la lettre — vem desembocar inevitavelmente no seu próprio mito. Aquele ovo de pomba depositado na rocha da Serreta confronta com a sua obra de poeta e radica-se no mais fundo dos seus mitos pessoais. O ovo é tempo in fieri, vida à espera de eclosão, força primordial, princípio, origem. O ovo é símbolo universal de origem de vida, ideia comum nas cosmogonias célticas, gregas, egípcias, fenícias, extremo-orientais. Mas esse «ovo cósmico» é agora um ovo-centro de uma força primordial guardada no meio do oceano, «bicado e quente»:

«Ah! Ovo que deixei, bicado e quente,
Vazio de mim, no mar,
E que ainda hoje deve boiar — ardente
Ilha!
E que ainda hoje deve lá estar!»

(«O Canário de Oiro», in O Bicho Harmonioso, 1938).

Trata-se, aliás, de um dos mais significativos poemas do livro e até de toda a obra poética de Nemésio. A Ilha insere-se no Tempo, cujo fluir é um dos grandes temas nemesianos, passado do Barroco ao Surrealismo, condição do homem universal, mas aqui especialmente condição do homem insular que tenta regressar a um «tempo primordial». «O Tempo gasta a minha voz como se fosse o seu pão! / É ele o que tem tudo escondido! / Ele o que A desviou e A violou no Vento! / Ele o que fez de mim o menino perdido / E me deu a navalha com que me fiz violento!» E, mais adiante, no mesmo poema do «Canário de Oiro»:

«Tempo, ladrão, dá-me conta do fardo:
As Saudades práli! As promessas práli!
[...]
Tempo, molde de todos os lugares,
Pegada de quem desaparece
Esquema de todos os esgares,
Frio de tudo o que arrefece!»

É neste tempo de fluir agónico que o poeta (do verbo ou da prosa de M. Queimado...) procura a força das origens, a força primordial, simbolizada no ovo, no meio do oceano ou na rocha do Peneireiro na Serreta. Nos «Versos a uma cabrinha, que eu tive» (in Eu, Comovido a Oeste), a cabrinha, símbolo da liberdade de infância, rebelde e caprichosa por sua definição, está no «puro penedo»:

«Está como o ovo e ave:
Grande Segredo
Equilibrado!»

O peso do tempo faz-se de novo sentir no Limite de Idade (1972), agora que o limite de idade civil lhe anuncia o da existência e na mesma fase em que percepciona e traduz liricamente, em linguagem científica usada poeticamente, o seu próprio deperecimento, o seu ocaso, o complot biológico que o vai levando para a morte, a bater às portas de Deus. É ainda a força da poesia que lhe faz tentar recuperar o tempo perdido, mesmo que através de símbolos científicos — «cinzas de meu pai, azoto que não vejo» na «ilha ao longe» — (poema «Matéria Orgânica a distância astronómica»).

Mas sente que lhe faltam as forças para ser um homem novo:

Mas, pra milagre tal,
que é dele, o ovo?»

(Poema «Relações de Incerteza» in Limite de Idade)

Concluindo:

Monsieur Queimado, meio convivido, meio sonhado, inventado como estratagema para falar das suas ilhas, é, acima de tudo, no caso desta conferência, um pretexto para teorizar o que não fizeram em 1932, quando criou o termo e o conceito de açorianidade: o ser-se açoriano, o homem e o seu telurismo.

Nota-se a carga de emoção pessoal do poeta distanciado da sua ilha, brincando com os mitos como o fogo de Prometeu. Nemésio consciencializou o mito do seu próprio mito no «Mateus Queimado em que se desdobra e com quem dialoga na sua visita à ilha Terceira. Monsieur Queimado é ele mesmo noutro, anfitrião que fala «patrioticamente» das suas ilhas, que o leva até à rocha do Peneireiro (curiosamente é a foto da capa da 1ª edição do Corsário, 1956), onde contemplam ambos um misterioso ovo depositado na rocha: «[...] un euf de Colombe Couronné de brouillard [...]», evocação mftico-simbólica de poeta e de intelectual ávido de «inventar» ou «reinventar» a sua «Ilha ao longe».

 

Angra do Heroísmo, 25 de Setembro de 1988.

 

António Manuel B. Machado Pires

«O mito de Monsieur Queimado – uma imagem mítica dos Açores»

In Conhecimento dos Açores através da Literatura

Angra do Heroísmo, IAC, 1988, pp. 85-93.


 

[1] Estamos a seguir o texto pela antologia de M. Margarida Maia Gouveia, V.N. Estudo e antologia, ICALP, Lisboa, 1987, p. 412.
[2] Texto citado, p. 404.
[3] Veja-se Margarida Maia Gouveia, A Viagem em Vitorino Nemésio, Ponta Delgada, 1986, Cap. II, 2, «A Viagem do pai de Venâncio ou a loucura insular». V. também «O pai de Venâncio, a loucura insular e uma simbólica animal em Vitorino Nemésio», in Arquipélago, n.° VI, 1984.

 

 

 

 

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