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SUPLEMENTARISMO CULTURAL NOS AÇORES

 

 

uma reflexão pessoal de Vamberto Freitas (1998)

 

 

 

 

Aqui há algum tempo, em conversa numa mesa de amigos, Álamo Oliveira perguntava se alguém tinha uma ideia sobre quem lia suplementos literário-culturais nos Açores. O escritor, poeta e dramaturgo da Ilha Terceira tinha — e tem — todo o interesse em sabê-lo. Para além da sua vasta obra (que inclui ainda ensaio nos seus variados géneros), Álamo também já conquistou um outro lugar seguro nas páginas da nossa história cultural: coordena em Angra do Heroísmo, sem qualquer interrupção ao longo de décadas, o mais duradouro projecto suplementarista entre nós: desde o Quarto Crescente do diário A União, a fins dos anos 70 [do século XX], ao actual Vento Norte do outro jornal angrense, O Diário Insular, continuando actualmente com todo o fulgor e imaginação gráfica e temática. É claro que nenhum de nós lhe soube responder, e depressa nos demos conta de que qualquer estimativa e enquadramento social dos leitores, tinha pouca importância, mesmo tendo em conta esta época obcecada pelas estatísticas nas nossas sociedades, em nada afectaria nem o trabalho presente do Álamo nem a filosofia que rege o seu projecto quinzenalmente. Nos dias que correm, precisamente no momento intelectual português que todos vivemos, esta atitude, este estar na cultura simultaneamente de modo lúdico e sério, suponho, poderá ser visto ou entendido de vários modos por olhares exteriores, desde possivelmente considerar-se o nosso arquipélago um espaço ilhéu culturalmente limitado, anacrónico, até a um desprezo elitista, digamos assim, por parte de quem dirige um projecto sem saber exactamente a quem ele se dirige. Estas nossas incertezas são também já o resultado da modernidade que nos foi chegando às ilhas durante as últimas décadas. Acontece, porém, que os Açores não são um espaço cultural anacrónico nem Álamo Oliveira é um elitista cultural fechado numa torre de marfim, muito menos um masoquista que trabalhe para castigo próprio ou por contemplação narcisista. Acontece que ele, e todos nós com ele no arquipélago, estamos perfeitamente conscientes do que nos leva a fazer suplementos culturais: a força da tradição literária açoriana. Tradição esta que, por seu turno, leva a que os mais variadíssimos jornais do arquipélago ao longo deste século tenham feito questão de honra, mesmo na perda de dinheiro que isso acarreta nos seus quase sempre magros orçamentos, em disseminar informação cultural vinda de toda a parte e, enfaticamente, em acompanhar, como sempre acompanharam, o debate artístico e teórico em volta das questões culturais e literárias internas. Enquanto que, a nível nacional, o mesmo que dizer, em Lisboa, o incessante experimentalismo e mercantilismo da nossa remodelada Imprensa ainda no acertou com o rumo ou a natureza do seu suplementarismo, apesar das longas e fortes tradições que também o regiam, até há poucos anos, fazendo retirar para as universidades quase todo o debate cultural ensaístico consequente, os pequenos meios como os Açores desfrutam também destas vantagens. Visto que não há nem nunca houve dinheiro a ganhar pelos nossos jornais ilhéus, pelo menos que se perca o que resta em coisas que valem a pena. Tudo isto, na vida intelectual, foi já vivido pelas mais avançadas sociedades. Parece, entretanto, estar a acontecer nelas um regresso das ideias ao terreiro público, uma certa desvalorização, pelo menos convivência com o saber profissionalizado, institucional e, como frequentemente é acusado, hermético e anti-humanista. Os suplementos literários e todo o tipo de pequenas e grandes revistas dirigidas ao grande público continuam com grande pujança, por exemplo, nos Estados Unidos, na França e no Reino Unido, onde temos o exemplo da Granta cuja publicidade se gaba de se tratar da revista literária mais roubada naquele país; o grafismo raramente muda, ao contrário do que vem acontecendo entre nós, os seus colaboradores são diversificados e das mais díspares origens geográficas e intelectuais, pois o leitor identifica-se com a sua publicação, familiar que lhe é, tornando-se num signo-outro da estabilidade e continuidade possíveis que uma tradição terá eventualmente de cultivar.

É claro que a pergunta de Álamo encerrava em si, sobretudo, uma certa ansiedade perante o momento histórico que todos vivemos: a encruzilhada histórica que Portugal vive ao ter de saltar décadas de atraso crónico em todos os sectores da nossa vida pública para a necessária fracturação tectónica — permitam-me utilizar esta imagem particularmente aterrorizadora noutros sentidos, para nós açorianos — de um modernismo e pós-modernismo que nos retiram, desde logo, todas as certezas e referências institucionais que orientaram as gerações que nos precederam; a redefinição da natureza do próprio estado-nação, e tudo quanto isso implica em termos de autonomização total dos indivíduos numa sociedade de fortes coerções institucionais como a nossa, e, sim, conceitos culturais adentro do mesmo pequeno país. Teremos ainda o facto de que, hoje, a dita aldeia global coloca-nos em contacto imediato e constante com o resto do mundo, traz-nos às mãos toda e qualquer publicação temática em línguas que já são cada vez menos alheias à nossa classe culta (utilizando aqui a expressão do ensaísta Lionel Trilling, quando se referia constantemente a questões semelhantes nos Estados Unidos), esse estrato social que, como os leitores dos suplementos açorianos, não se manifesta mas temos fé de que existe. Nada disto quer necessariamente dizer que estamos, nos Açores, eu e os outros que coordenam suplementos culturais, num diálogo cego com a nossa sociedade. Não se pode — nem se deve, supõe-se — fazer cultura ou dela ser barómetro (em qualquer sociedade) questionáveis sondagens, dando às pessoas o que elas hipoteticamente querem ou preferem. Na cultura, haverá sempre uma convivência entre a tradição e a audácia intelectual, no sentido de se abalar ao mesmo tempo que se dá continuidade às assunções ou cosmovisões mais vincadas do grupo.

Antes de alargar aqui as minhas observações e de historicizar de modo minimalista algumas destas afirmações, permitam-me ainda dar-vos um testemunho pessoal no que concerne à feitura quinzenal do Suplemento Açoriano de Cultura, que eu fundei e coordeno no Correio dos Açores, de Ponta Delgada, desde fins de 1995. Paralelamente com o já referido Vento Norte, em Angra do Heroísmo, o projecto do Correio nasceu porque eu e os responsáveis pelo jornal entendemos que a maior cidade açoriana não poderia dispensar uma secção totalmente dedicada a um dos momentos literários e intelectuais mais ricos e criativos da nossa história cultural, e que veio com a liberdade e autonomia políticas da nossa região. Literatura, em primeiro lugar, mas também as artes plásticas e, de certo modo, a música assim como uma produção audiovisual, que teve e tem um Zeca Medeiros como expoente máximo, amplamente reconhecido e criticamente apreciado no nosso país. Por outro lado, Ponta Delgada é a cidade onde está localizado o maior campus da Universidade dos Açores, também com uma produção científica substancial nas Humanidades (a área que aos suplementos culturais diz respeito), e que entendemos não poderia em muitos casos ficar enclausurada adentro da comunidade científica, pois as ideias, nas suas diversas e hierarquizadas linguagens científico-académicas eventualmente serão influentes, por osmose ou por debate directo, como parte do património geral da sociedade, determinarão pensamentos, e orientações globais em toda a comunidade. Havia, pois, de se encontrar uma fórmula que soubesse, sem condescendências ou escalões hierarquizantes, juntar todas esta produção cultural num só suplemento que, pela sua natureza, iria despertar de modo preferivelmente harmónico a adesão de indivíduos e grupos que, à partida, não partilham sempre os mesmos interesses e, muito menos, os mesmos valores intelectuais, nem teriam pontos de vista coincidentes no que se refere ao entendimento do passado ou dos valores respeitantes à construção de uma sociedade moderna. Se tudo isto parece ambicioso demais e, até, irrealizável, serve-nos assim mesmo de guião ao que entendemos dever ser ou não o nosso suplemento, existe assim uma filosofia que orienta a selecção de cada texto publicado, o seu lugar nas doze páginas de cada número, o respeito inquestionável por todo e qualquer colaborador e a sua prestação. Se insisto aqui em falar de “nós” é porque, já antes do aparecimento do Suplemento Açoriano de Cultura, eu tinha feito uma larga consulta aos meus colegas escritores (pela ocasião do IV Encontro de Escritores Açorianos, na Praia da Vitória) e universitários sobre, exactamente, o que no seu entender deveria ser uma publicação deste género. É por isso que luto, em cada número, por um suplemento de “grupo”, preferivelmente identificável de imediato pelas suas posições em torno do que mais nos comove e estimula no espaço intelectual que também são e sempre foram os Açores, identificável de imediato pela sua clara noção desta rica herança literária que foi legada à nossa geração, desde que Gaspar Frutuoso publicou a primeira grande, densa e variada obra da literatura açoriana, Saudades da Terra. Historicamente, um projecto intelectual nunca é concretizado num vácuo, tem de assentar numa comunidade ou grupo, por mais numericamente reduzido que seja, que partilha e tem uma visão ideológica comum do seu lugar na história-pátria e da cultura em geral. De resto, uma vez mais, foi a tradição intelectual do nosso arquipélago, juntamente com o estatuto de periferia, real e metafórica, que uma região como a nossa tem no país português. Nalguns passos da primeira nota de abertura, tudo isto ficava mais ou menos esclarecido:

“Efectivamente, estas serão páginas que têm os Açores como ponto de referência principal e a aldeia global como tema abrangente. Partimos de nós para o exterior, num diálogo que se quer aberto e descomplexado, reflectido e estético. Do mesmo modo, receberemos todas as visões que nos queiram oferecer. Por todos os cantos deste mundo o Homem luta pela sua dignidade, pela sua afirmação. O dialogismo, entre textos e culturas, será talvez o facto predominante neste fim de século. O arquipélago açoriano sempre soube dar conta de si em literatura, e agora crescentemente nas outras artes. E essa realidade e tradição que tentaremos honrar, e cada geração que esquece ou ignora o espaço natal corre o risco de se tornar invisível, mais objecto de preconceitos exteriores do que sujeito dinâmico do seu próprio destino. Quinhentos anos de combate a meio Atlântico não nos autorizam a tanta leviandade e desumanização. A arte, todos o sabem, é a sublimação do nosso mais profundo ser, é a caminhada da caverna para o outro, é a partilha e a generosidade”.

O suplementarismo açoriano, nas suas variadas formas e estilos, repita-se, vem de uma longa e viva vontade de se dar voz a quem dentro do nosso país voz não tinha (e continua a não ter). No princípio deste século, um poeta como Garcia Monteiro já publicava no seu jornal da Horta, O Açoriano, escritores e poetas que haviam de passar ao nosso cânone, como Nunes da Rosa, Rodrigo Guerra e Roberto de Mesquita. A obra do poeta florentino só em 1938 conquistaria um lugar na cultura literária nacional, e só depois da publicação do ensaio de Vitorino Nemésio, “O Poeta e o Isolamento: Roberto de Mesquita”. Em Ponta Delgada, a Revista Açoriana Ilustrada dos anos 20 e depois o jornal A Ilha nos anos 40 (onde pontificavam, por exemplo, Pedro da Silveira e Eduíno Borges Garcia) deram voz descomplexadamente a questões prementes da nossa cultura, como a existência ou não de uma literatura açoriana e tudo o que isso implicaria em termos político-ideológicos na pátria portuguesa comum, manifestando, todos eles, uma consciência intelectual perfeitamente ao corrente do que se fazia em países e territórios tão próximos e distantes para nós como os Estados Unidos, o Brasil e Cabo Verde. A partir da década de 50 até aos nossos dias, esta actividade passaria também para Angra do Heroísmo: destacaram-se Pensamento, do jornal diocesano A União, Letras e Artes, do poeta Emanuel Félix e do escritor João Afonso, Gávea (que permanece na nossa memória apesar dos seus únicos três números publicados em 1958) e Glacial (meados da década de 60, quando a guerra colonial foi um dos temas inevitáveis e comoventes para alguns dos nossos poetas, como J.H. Santos Barros), nos quais, para além dos nomes já aqui referidos, participou ainda muito activamente Carlos Faria, natural da Golegã, mas cuja intervenção e troca de informações com o restante país foram tão assinaláveis (como o é o seu livro de poemas inspirados principalmente pela ilha de S. Jorge, O Ciclo da Esmeralda), que há poucos dias foi homenageado nessa sua ilha de afectos no V Encontro de Escritores Açorianos. Em Ponta Delgada, mas dando sempre continuidade às mesmas preocupações culturais ao mesmo tempo que se pugnava pela modernidade nos Açores, o poeta Emanuel Jorge Botelho lançaria o suplemento Raiz (que reabriria novamente um debate em volta da existência ou não da literatura açoriana), seguido pelo Seixo, coordenado pelo poeta e prosador Eduardo Bettencourt Pinto e pelo jornalista Laurindo Cabral. Santos Barros, já a residir em Lisboa, fundaria com Urbano Bettencourt a revista A Memória da Água-Viva, de que se viria a publicar sete números, tendo iniciado pouco depois, até ao seu falecimento em 1983, a coordenação do Contexto, do semanário micaelense Açores. O escritor Ruy-Guilherme de Morais, nos anos 80, fundou e dirigiu o Pulsar do Açoriano Oriental, da mesma cidade. Para os intelectuais e investigadores independentes dos Açores nos anos 50 e 60 e para todos cujos trabalhos se referem ao arquipélago, existem desde há muito as inúmeras pequenas revistas de diversos institutos culturais nas três cidades mais antigas do arquipélago. Não esqueçamos que quase toda a nossa vida intelectual teve sempre lugar à margem das instituições do ensino oficializado, com a possível excepção do Seminário de Angra, que nos legou uma das mais consciencializadas e criativas gerações, essa mesma que inclui nomes como Artur Cunha de Oliveira e José Enes, essa mesma geração que seria um pouco mais tarde responsável pelas célebres e profícuas Semana(s) de Estudo na década de 60, nas quais, pela primeira vez na nossa história, a problemática sócio-cultural das ilhas foi global, sistemática e publicamente estudada e equacionada à luz do que se passava no restante país e no além-fronteiras. Com a tardia chegada da universidade aos Açores já depois do 25 de Abril de 1974, o nosso discurso intelectual foi sempre eminentemente público, isto é, aberto, independente e em busca da maior audiência possível dentro e fora do arquipélago.

É neste século, pois, que a história cultural dos Açores consolida o que alguns outros antes de nós já sentiam, viviam, sabiam e escreviam—a portugalidade a meio Atlântico toma contornos próprios devido à sua historicidade e, como diria Vitorino Nemésio, geografia. Os suplementos culturais tiveram sempre uma função duplamente essencial: manter a cultura desenvolvida no, e trazida para, o arquipélago, ao longo dos séculos após o início do povoamento em Quatrocentos e estimular, por vezes contestariamente, a sua contínua criação. Essas forças intelectuais viram quase sempre o seu lugar num Portugal que nem sempre estava consciente de que existia para além do continente, ou que existia de modo muito mais diversificado do que ensinavam os compêndios escolares. Não foi acidentalmente que um dos livros ainda mais influentes entre nós é As Ilhas Desconhecidas, do continental Raul Brandão, publicado na década de 20. Ao lê-lo, logo após a sua saída, Vitorino Nemésio como que via a confirmação de tudo o que lhe era familiar e profundamente sentido, mas nunca havia sido dito de modo tão directo, avisado, numa voz simultaneamente exterior e empática, a voz de um intelectual e artista português que percebeu por inteiro que as ilhas eram, de facto, um outro e desconhecido Portugal. Deu-se, como nunca havia acontecido antes entre um ilhéu e um continental, esse melvilleano choque de reconhecimento; nascia a açorianidade literária. A especificidade cultural dos Açores no país português seria desde então até nós a temática a enfrentar e a desvendar, por vezes obsessivamente. Não era, nem nunca foi, a demanda de uma diferencia çao redutora; pelo contrário haveria de ser sempre a reivindicação de pertença ao todo nacional, mas sem a violação interior de quem se nega a si próprio, ou é negado pelos outros.

Os nossos suplementos culturais foram as nossas mais autênticas universidades. No isolamento quase absoluto até à recente abertura moderna da nossa sociedade, não haveria outro modo de proporcionar e juntar todos aqueles que iam pensando e escrevendo os Açores. De quando em quando, um ou outro dos nossos escritores conseguia publicar nos jornais nacionais, mas mesmo esses procuravam as publicações que iam aparecendo nas ilhas. A geração pós-25 de Abril manteve esse diálogo bidireccional: escrevia-se lá fora sobre a existência das ilhas, e cá dentro agitavam-se águas paradas, contestavam-se os poderes internos, dava-se, aberta mas criticamente, continuidade à tradição, ligava-se o arquipélago ao todo nacional, e reconhecia-se a incipiente actividade intelectual das nossas ilhas em terra, que sempre foram as nossas comunidades principalmente nos Estados Unidos e no Canadá. As ilhas são, continuam a ser, um Portugal à distância, necessita de meios para as suas vozes culturais públicas. Mesmo que tivéssemos um outro lugar nos órgãos culturais nacionais, nunca prescindiríamos das nossas publicações. Há um mar imenso entre nós. Não creio em discriminação continental, digamos inqualificada, perante as ilhas: creio que o desconhecimento generalizado, provocado por instituições do ensino que sempre nos apontavam como meras ilhas adjacentes, é que é responsável pela ausência que sentíamos nas mais destacadas páginas culturais do nosso país. Nas últimas décadas este fosso tem sido ultrapassado, por vezes quando ilhéus ou continentais esclarecidos estão à frente dessas publicações. Seja como for, somos ainda o outro, por força desta nossa história e geografia, no todo nacional. Não será esta ainda uma questão totalmente pacífica entre nós nos Açores, mas, ressalvadas as naturais divergências entre um relativamente numeroso grupo de escritores e intelectuais no e do arquipélago, as posições teóricas respeitantes à nossa produção cultural caminham para um indisfarçado consenso:

“No que respeita a nós que escrevemos — lembrou-me numa carta de há uns anos o poeta Marcolino Candeias, então residente no Canadá mas hoje Director da Casa da Cultura em Angra do Heroísmo — eu não vejo como possamos escapar a este fatum de sermos açorianos no que se escreve, o que não quer dizer que sejamos regionalistas, no sentido de folclóricos, e que queiramos, isolando-nos do mundo, criar o mito açoriano-melhor-que-os-outros. Quem não compreender que somos uma maneira de sermos portugueses sendo diferentes, não entende nada. Eu que resisti à ideia de Literatura Açoriana… fiquei arrepiado quando vi as provas de Na Distância Deste Tempo, porque só na altura das provas, só depois de impressos [os poemas] é que vi o que não tinha sido capaz de ver antes, porque sempre tinha buscado o caminho contrário ao do regionalismo… quando os meus versos, malgré moi même, eram açorianos. A missão que a nossa geração assumiu é ingrata, porque é uma missão de ruptura, adoptando como metáfora a ruptura epistemológica. A nossa geração é obrigada a garimpar e a extrair da alma açoriana o seu universalismo, coisa que até aqui tinha sido feita quase só individualmente; ao fazê-lo tem necessariamente de afirmar o valor do minério real que for encontrando. Ninguém, nenhum de nós, penso, escolheu uma tal missão; foi o destino histórico. Não se trata de saber se somos grandes escritores, se vamos ficar na História. A mim, pessoalmente, isso não me tira o sono. Ninguém vai ganhar o Nobel, nem sequer ser “nobelizável”, suponho. Mas a geração, sim, essa marcará a História. Não só os que escrevem como os que pintam, etc. — e os outros que pintam a manta e o caneco. Os que depois vierem beneficiarão disso, como nós beneficiámos de Antero, de Nemésio, de Mesquita, de Pedro da Silveira, de Eduíno de Jesus, de Emanuel Félix, etc. Acho que quando se diz que a literatura açoriana actual não ficará na História — porque não presta — esquece-se certamente que a portuguesa não começou em Camões. Mas eu gosto dos trovadores”.

Eis aí, em parte, outro modo de responder à pergunta de Álamo Oliveira sobre quem lê ou não os nossos suplementos culturais. Longe vão os dias em que a literatura e a cultura séria tinham a ilusão de pertencer ou de movimentar toda uma sociedade ou uma classe social. Escrevemos, hoje, para os que, perante uma sociedade-outra que se está a construir, criando outros referenciais e valores para além da literatura, alimentam a nossa memória colectiva, guardam para as gerações futuras através da arte e de letras afins os arquivos de como chegámos ao nosso tempo, e de como, nós próprios, o vivemos. E a memória profunda, digamo-lo também assim, que se contrapõe conscientemente às efemeridades sem fim em que está mergulhado o nosso tempo presente, vagamente denominado, até mesmo na sociedade portuguesa, de pós-modernismo. O que já não será pouco, supõe-se, e não poderá ser contabilizado em número de leitores, e muito menos em valor monetário.

 

Vamberto Freitas, “Suplementarismo cultural nos Açores – uma reflexão pessoal” in A Ilha em Frente: Textos do Cerco e da Fuga, Lisboa, Edições Salamandra, 1999.

 

 

 

 

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acores/acorianidade_freitas_1998b.htm, 2008.
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