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 LITERATURA AÇORIANA,
                 
ESSE PROBLEMA...

 

Ruy Galvão de Carvalho (1979, 1982)

 

 

 

Problema que tem sido, de alguns anos a esta parte, larga e apaixonadamente discutido; ou seja: a possibilidade de uma literatura de expressão açoriana.

Certo, o Açoriano é dos povos de ascendência portuguesa aquele que, devido a circunstâncias especiais, entre as quais, o factor geofísico, a insularidade, a paisagem que apresenta sempre maravilhosos contrastes, o isolamento plurissecular convidativo ao devaneio e à meditação, a natureza vulcânica do solo actuando na imaginação do ilhéu, o mar oceânico dando-lhe a imagem viva do efémero, o jogo caprichoso das nuvens e dos ventosora, como estávamos a dizer, dos povos de raiz portuguesa é o Açoriano aquele que possui uma fisionomia própria e inconfundível. O Açoriano evidencia-se, de facto, de entre a famiia lusitana, pelas suas formas originais de pensar e agir, de ver e sentir as coisas, o meio ambiente, as gentes, o universo...

Conservador no culto do Passado e da Tradição, ele é simultaneamente inovador no seu poder de adaptação a situações novas, permeável às solicitações de tudo quanto vem de fora. Daí, por conseguinte, o seu humanismo e universalismo.

Contemplativo e idealista, emotivo e solitário, o Açoriano é, a par, um homem de acção, realista e prático. Finalmente, vivendo no sonho, sente-se no entanto preso à terra-mater, ao torrão natal: é um enraizado debaixo deste aspecto, mas um enraizado que é ao mesmo tempo cidadão do mundo.

Assim no-lo revelam as suas múltiplas manifestações literárias e artísticas.

Posto isto, importa primeiramente perguntar, e este é o grande problema: Será possível, pela «matéria-prima» de que podemos dispor, criar uma literatura inteiramente nossa, portanto sem influências de qualquer origem, mesmo dos nossos irmãos continentais? Mais ainda: poder-se-á, porventura, dar expressão literária ao «caso» do homem açoriano, tornando-o universal? Enfim, aquelas características que no princípio apontamos serão suficientes para justificarmos a possibilidade de uma literatura de expressão açoriana? Definir, numa palavra, psicologicamente, o viver do homem ilhéu destas plagas atlânticas?

Vejamos, a este respeito, algumas condições que nos parecem essenciais:

Em primeiro lugar, para que um povo possa ter, realmente, uma literatura sua, necessita de uma língua viva que lhe sirva de instrumento de comunicação expressiva, de veículo transmissor, quer dizer, que esteja, como opina, acertadamente, o ensaísta José Osório de Oliveira, «em condições de satisfazer as necessidades de expressão», e que os seus escritores tomem para tema das suas obras matéria local, ou seja, a terra e o seu habitante, ao mesmo tempo dando-nos «obras vivas autênticas capazes de interessar os outros homens e com possibilidades de ficar como documentos humanos e como criações artísticas verdadeiras» (in Enquanto é possível, pág. 4 1-42).

Debaixo deste ponto de vista, nãodúvida, temos uma língua viva, a portuguesa, aquela que herdámos dos nossos antepassados, dos primeiros povoadores destes «penhascos floridos», embora ela viesse a sofrer modificações dialectais e, com o mesclamento de povos estrangeiros, enxertias vocabulares.

Seguidamente, a este elemento, que é indispensável, associam-se os, propriamente, de natureza local.

O Prof. Vitorino Nemésio indica alguns deles: «Em primeiro lugar, o apego à terra, este amor elementar que não conhece razões, mas impulsos; e logo o sentimento de uma herança étnica que se relaciona inteiramente com a grandeza do mar Mais abaixo continua: «Uma espécie de embriaguez do isolamento impregna a alma e os actos de todo o ilhéu, estrutura-lhe o espírito e procura uma fórmula quase religiosa de convívio com quem não teve a fortuna de nascer, como o logos, na água.» E concluindo, observa ainda: «... a vida açoriana não data espiritualmente da colonização das ilhas: antes se projecta num passado telúrico que os geólogos reduzirão a tempo, se quiserem... Como homens, estamos soldados historicamente ao povo de onde viemos e enraizados pelo habitat a uns montes de lava que soltam da própria entranha uma substância que nos penetra. A geografia para nós, vale outro tanto como história, e não é debalde que as nossas recordações escritas inserem uns cinquenta por cento de relatos de sismos e enchentes. Como as sereias, temos uma dupla natureza: somos carne e pedra. Os nossos olhos mergulham no mar.» (in Insula, Revista N.° 7 e 8 de Julho e Agosto de 1932).

A influência do mar é incontestável, visto o mar ter em parte feito à sua imagem e semelhança o homem açoriano. Afirma-o também Vitorino Nemésio: «a alma do ilhéu exprime-se pelo mar.» «O mar é não o seu conduto terreal como seu conduto anímico» (in Sob os Signos de Agora, pág. 140). Antero reconhecia igualmente: «Filhos do mar, como que hidráulicos por constituição» (in Prosas, vol. 1.°, pág. 109).

Outra característica merece ser aqui registada: de mistura com um certo fatalismo, existe em todo o açoriano um fundo místico que o sociólogo brasileiro Gilberto Freire filia na colonização flamenga das ilhas dos grupos Central e Ocidental (cit. por Otto Maria Carpeau, «Antero de Quental e o Pensamento Alemão», in Atlântico. Revista Luso-Brasileira, n.° 3, pág. 41).

Em derradeira análise, a insularidade fez do português dos Açores um homem independente, de mentalidade autónoma, e, sob o aspecto antropológico, como o provou Arruda Furtado, um tipo bem diferenciado e bem definido, tendo a esta mesma conclusão chegado A. Morelet e o mencionado Gilberto Freire, entre outros.

Porém, literariamente falando, poucas são ainda as obras, em verso e prosa, mesmo em teatro, de essencialidade açoriana.

Daí, por isso, o de não termos propriamente uma literatura nossa. Não nossa, mas que seja capaz de interessar o homem de qualquer parte do mundo. Tenha, em suma, significação universal.

Infelizmente faltou-nos sempre, ao longo dos séculos, aquilo que é fundamental para a sua formação: tradição e continuidade. Pois uma literatura não se fabrica, cria-se.

A terminar, nosso apelo neste momento é este: que as gerações actuais sejam as primeiras a dar os primeiros passos nesse sentido, tomando por tema o viver das nossas gentes: seus usos e costumes, suas lendas, crendices e superstições, suas tradições e folguedos, suas danças e cantares, seu falar e seu drama quotidiano. Repetimos: Com significação humana e universal.

A regionalização pode ser agora um feliz começo... Oxalá!

 

Refundido aos 13 de Março do Ano da Graça de 1982.

 

 

POESIA AÇORIANA

 

Pelo que atrás ficou exposto, pode, em última análise, dizer-se que, rigorosamente, ainda não existe poesia de significação açoriana.

Os poetas destas Ilhas de bruma, portugueses dos quatro costados, manifestam as mesmas tendências literárias dos seus irmãos continentais; de facto, os seus poemas possuem as mesmas características gerais da poesia nacional. Além disso, as próprias escolas e correntes literárias encontram sempre imediatamente audiência nos poetas açorianos: eles as seguem! Daí, por consequência, não haver nos Açores poesia à parte, autónoma, de expressão ilhoa.

Contudo, devido ao isolamento forçado de quem nasceu em terras rodeadas de água por todos os lados, o poeta açoriano reflecte nos seus poemas como não podia deixar de ser — o meio ambiente, paisagem, céu de nuvens quase permanentes, mar e vento, — ao mesmo tempo que imprime à sua obra literária uma feição particularmente subjectiva, toda, — é claro, — derivada de uma fina sensibilidade e de um temperamento constitucionalmente melancólico. É que o poeta açoriano é, no fundo, um solitário e contemplativo, permanentemente cosido com a sua dor e ralado de saudades, preso ao amor e ao encanto da sua terra natal, refugiando-se, em derradeira análise, no Sonho e na Miragem... Por isso, uma das características mais acentuadas da Poesia açoriana é, sem dúvida, o sentimento da Tristeza — aquela tristeza que é gémea da Dor-Distância e da Saudade-ausência.

É certo que na Poesia nacional se nota também esse sentimento de raiz afectiva; é, porém, na poesia açoriana que ele toma maior intensidade e até muitas vezes angústia íntima. E tem, afinal, a sua razão de ser: a Saudade devia ter sido o sentimento que mais dominou os primeiros povoadores destas Ilhas, originando daí, naturalmente, uma humana tristeza que, com a sucessão das gerações, se transformou em sentimento vital, quer dizer, como fazendo parte da própria índole do Ilhéu. Ora, a poesia, — que deve ser o espelho fiel dos nossos estados de alma, — imediatamente passou a exprimir esse Sentimento de dor e de saudade.

O Povo açoriano, nos seus cantares — quantas vezes melhores que os Poetas-literatos e Poetas-artistas! — costuma dar um cunho original ao que improvisa, como se poderá verificar nestas quadras de singela contextura, mas repassadas do sentimento da tristeza:

 

Ando triste, pensativo
A pensar num bem que adoro;
Chego à janela triste,
Volto para dentro e choro.

Alegria não a tenho,
A tristeza ma levou;
A culpa foi do meu bem,
Que tão cedo me deixou.

Antes que o lume se apague
Na cinza fica a calor,
Antes que o coração se ausente
No coração fica a dor.

 

Mais esta cantiga:

 

Muito custa um adeus
A quem está para partir:
Muito custa a Saudade
A quem a sabe sentir.

 

Igualmente, tanto os poetas autênticos como os simples versejadores, uns e outros não escondem nos seus poemas esse mal de alma, sobretudo quando se referem a «coitas de amor».

Quando a Amada, por qualquer motivo, às vezes fútil, deixa de corresponder aos devaneios idílicos do poeta lírico, este logo encontra nisso motivo real para lamentar as suas desditas compondo versos tocados de uma tristeza sem fim, como por exemplo no caso de Francisco Raposo de Oliveira, poeta açoriano de Nordeste (S. Miguel). Repare-se nesta sua poesia dedicada à Solidão:

 

no sossego bendito
Que em ti acho, ó Solidão,
Acha um conforto infinito,
O meu triste coração...

quem nunca amou na vida,
Não conhece o que são dores!
Oh! tu és a irmã querida
De quem padece de amores.

Para em teu seio viver,
quem pena te procura...
Quem soubesse também ser
O teu irmão, na ventura!


 

Citaremos, de passo, estoutro poeta açoriano de S. Miguel, Armando Cortes-Rodrigues, onde equivalente drama lírico se desenrola também no seguinte poema da sua autoria:

 

O sol doirou os teus cabelos
E os teus cabelos caíram ao longo teu corpo
Numa carícia branda...

O luar ungiu as tuas mãos
E as tuas mãos adormeceram no teu regaço
Esquecidas e vazias...

O mar encheu os teus olhos
E os teus olhos ganharam o segredo das águas inquietas…


E foi nelas que eu senti, mais fundo,
o mistério do longe e da minha solidão.

 

Assim, nos restantes poetas açorianos pelo menos como figura de retórica ou símbolo literário... Em suma, tristeza que é gerada na solidão atlântica e que às vezes atinge um pessimismo doloroso e um desalento negativista, como aconteceu em Antero de Quental, — o Maior Açoriano. Veja-se este soneto de conclusão schopenhaureana:

 

males são reais, dor existe
Prazeres os gera a fantasia:

Em nada, um imaginar, o bem consiste,
Anda o mal em cada hora e instante e dia.

Se buscarmos o que é, o que devia
Por natureza ser não nos assiste;
Se fiamos num bem, que a mente cria,
Que outro remédio senão ser triste?

Oh! quem tanto pudera que passasse
A Vida em sonhos , e nada vira...
Mas, no que se não , labor perdido!

Quem fora tão ditoso que olvidasse...
Mas nem seu mal com ele então dormira,
Que sempre o mal pior é ter nascido!

 

O Mar é outro elemento que influi bastante na sensibilidade de todo o poeta açoriano. Com efeito, o poeta açoriano ama o Mar; nos seus versos, à semelhança de um búzio, se repercutem as ressonâncias atlânticas. Mesmo quando o poeta ilhéu não faz a mínima alusão ao Oceano, estão sempre os seus poemas cheios dele: o seu ritmo neles perpassa incessantemente... Ritmo molhado mas cheirando a maresia. Ë de crer que a origem deste fenómeno provenha do contacto directo e constante que o poeta destas Ilhas tem com o Mar. Antero, a cada passo da sua obra poética a ele alude, tal como Oliveira San-Bento (micaelense), e, principalmente Vitorino Nemésio, natural da Terceira. Um soneto deste último:

 

O PAÇO DO MILHAFRE

À beira de água fiz erguer meu Paço
De Rei-Saudade das distantes milhas;
Meus olhos, minha boca eram as ilhas;
Pranto e cantigas andavam no sargaço.

Atlântico, encontrei no meu regaço
Algas, corais, estranhas maravilhas
Fiz das gaivotas minhas próprias filhas,
Tive pulmões nas fibras do mormaço.

Enchi enfusas nas salgadas ondas
E oleiro fui que as lágrimas redondas
Por fora fiz de vidro e, dentro, de água,

Os vagalhões da noite me salvaram
E, com partes iguais de sal e mágoa,
Minhas altas janelas se lavavam.

 

Finalmente, sente o poeta açoriano a ânsia de evasão, o desejo de se libertar destes horizontes fechados, deste forçado isolamento gerador da tristeza, da melancolia e da nostálgica saudade... Mas, em vão! É o drama eterno dos que nascem nas ilhas, drama que vem desde o período do povoamento, e que jamais acabará... Há um poeta da Ilha das Flores que, num poema, o exprime admiravelmente: é Roberto de Mesquita. O poema intitula-se

 

BALADA DA PRINCESA CATIVA

Na torre mesta e bruna do solar
vive encarcerada a pálida princesa,
nostálgica do sol e do luar,
apunhalada de mortal tristeza.
Quando ela evoca, nesta solidão,
o seu parque, os passeios ao sol posto,
exacerbado o seu mortal desgosto,
chora, e debalde tenta a evasão.

Quando da tarde ao langue desmaiar,
como os anjos felizes descuidosos,
nas árvores vizinhas vem cantar
candidamente as aves amorosas,
ou quando escuta, à noite, na estrada,
um gemer de alaúde, uma canção,
chora a pobre princesa encarcerada,
chora e debalde tenta a evasão.

Ao avistar, às vezes, da ogiva,
no velado do céu a nódoa algente
dama águia voando livremente
ante os seus tristes olhos de cativa,
mais a punge a profunda soledade
dessa negra e monótona prisão,
e, anelante do ar puro e liberdade,
chora e debalde tenta a evasão.

Dorme, princesa, dorme sem sonhar,
fecha o teu macerado coração
à voz da vida que te vem tentar:
jamais conseguirás a evasão!

 

Quanto a esta possibilidade de se criar uma poesia de significação açoriana, estamos, de facto, a verificar, nas últimas décadas, um movimento em tal sentido.

Em boa hora seja! E mesmo de máxima urgência acabar com os lugares-comuns, com as imagens banais, com os versos medidos pelos dedos; urge renovar a poesia açoriana com estruturas novas e destruir ídolos de pés de barro, em suma!

Ouçamos, para terminar, Ruy Belo:

«Poetar é, no fundo, mais um acto de humildade. É pôr de lado os suspiros, as atitudes, esquecer movimentos e tendências, amigos e aquela madrinha que deposita grandes esperanças em nós, e imolar a determinadas palavras toda a poesia possível

 

Ruy Galvão de Carvalho, “Introdução geral” a Poetas dos Açores, Angra do Heroísmo, SREC, 1989. (texto refundido do Prefácio à Antologia Poética dos Açores – 1º volume. Angra do Heroísmo, SREC, 1979, «Colecção Gaivota» nº 3)

 

 

 

 

 

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1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/
acores/acorianidade_carvalho_1979e1982.htm, 2008.
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