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 Da Literatura Açoriana

notas (muito lacunares) para uma aproximação

 

 

 

Urbano Bettencourt (1993)

 

 

 

 

 

Este texto poderia começar por uma espécie de viagem que nos levasse aos lugares da discussão sobre a existência de uma Literatura Açoriana. Sendo esta uma questão que atravessa o actual século XX (presente em mil novecentos e um), embora com reconhecidos momentos de maior incidência e nível de implicação, seguir por obrigaria, obviamente, a uma demora e a um desvio pouco compatíveis com o propósito de síntese que é o deste texto. De resto, o eventual interessado poderá sempre recorrer a uma obra como A Questão da Literatura Açoriana, de Onésimo Teotónio Almeida (Angra, SREC, 1983), onde encontrará uma elucidativa recolha de textos que fizeram esse debate, bem como desenvolvida argumentação do próprio autor.[1]

Assim sendo, tomar-se-á como ponto de partida a realidade de um corpus literário que, não começando propriamente no século XIX, sobretudo a partir daí se organiza e desenvolve num processo de progressiva ampliação e na complexificação de uma rede de (inter)relacionamentos, influências, intercâmbios, olhares cruzados. E é também a partir daí que é possível verificar como, de um modo mais consistente e assumido, a intenção estética se articula com o pendor para um maior enraizamento, uma vinculação da escrita ao seu próprio contexto e servindo a expressão de uma condição insular.

Se isto acontece principalmente graças aos chamados “contistas da Horta” (entre outros, Florêncio Terra, Nunes da Rosa e Rodrigo Guerra) e no contexto de uma dinâmica cultural que muito deve à imprensa e às trocas com o exterior, proporcionadas pelas condições de uma ilha na encruzilhada das rotas marítimas, ainda assim o que há-de ler-se é a importância de que, então, se reveste o olhar para fora como meio de enriquecer e aprofundar o olhar para dentro. Que essa é também, afinal, a lição do poeta Roberto de Mesquita, por essa mesma altura a viver o seu desterro na ilha das Flores, mas atento às escritas europeias da época, sem que isso o tenha impedido de ser “o primeiro poeta que exprime alguma coisa de essencial na condição humana tal como ela se apresenta nas ilhas dos Açores” (Vitorino Nemésio).

Um olhar que se volva para o conjunto da ficção açoriana hoje disponível não terá dificuldade em dar-se conta do caminho desde então percorrido no sentido de uma maturidade que passa, simultaneamente, pela desenvoltura no domínio dos processos narrativos e pelo aprofundamento e alargamento dos mundos representados, numa diversidade de vectores que vão desde a recuperação mitificada de alguns mundos da infância no reduto da Ilha até à dispersão ou perdição no grande mundo, seja ele Lisboa, a África ou as Américas, e passando pela aprendizagem da vida e do corpo que a saída e a errância proporcionam, sem pôr de parte, ainda, os que, nunca tendo saído da Ilha, nela mesma de igual modo se perderam.

Mas quer se trate dos mundos recônditos que encontramos em Cristóvão de Aguiar, João de Melo, Vasco Pereira da Costa, Manuel Ferreira, Almeida Pavão e mesmo nos contos de Nemésio, quer se trate da luta do homem com o mar, e particularmente a saga do baleeiro picoense, em Dias de Melo, quer se trate ainda dos espaços concentracionários de José Martins Garcia ou, não tanto como isso, dos espaços fechados e opressivos de Fernando Aires, Fátima Borges e, parcialmente, Daniel de Sá — o que daí ressalta é ainda uma escrita preocupada em fazer da pluralidade dos seus universos um lugar do Homem, do Homem marcado pelas circunstâncias e os condicionalismos de um tempo e de um espaço insulares e oscilando entre o desejo de ficar e a ânsia de partir ou, dito de outro modo, entre a Ilha e o Mundo (título de um livro de poemas de Pedro da Silveira). E se é o sonho com outros mundos para do horizonte, mais amplos e libertos e menos asfixiantes que o da Ilha, quesentido a uma personagem como Margarida Dulmo, de Mau Tempo no Canal, o sonho com as “califórnias perdidas de abundância” (Pedro da Silveira) atirará muitas mais para os riscos, aventuras e desventuras da emigração, como é possível de ver na grande maioria dos escritores açorianos, seja a emigração perspectivada do lado de , como em Manuel Ferreira, Ruy-Guilherme de Morais, ou lado de , como em Onésimo Teotónio Almeida e Manuel F. Duarte (e escuso-me de citar de novo autores anteriormente referidos).

E da poesia? Uma muito elementar e, por certo, discriminatória esquematização levar-nos-ia à constatação de, pelo menos, três produtivos filões na recente poesia açoriana (entendendo-se por recente a respeitante a um período de sensivelmente 20 a 25 anos): uma poética do corpo, do amor, seja ele explosivo ou contido, reprimido ou transgressor (especialmente em Emanuel Félix, Álamo Oliveira, Victor Rui Dores, Judite Jorge ou Madalena Férin); uma poética da guerra, da colonial em particular (João de Melo, J. H. Santos Barros, Álamo Oliveira, Almeida Firmino, Borges Martins) e, finalmente, uma poética da ilha, onde acabam por aparecer os nomes anteriores. Mas como não ver que, por exemplo, J. Martins Garcia e Emanuel Jorge Botelho ou J. Tavares de Melo não se deixam apreender nas malhas desta rede tão limitada? E Eduardo Bettencourt Pinto, em cujo lirismo assomam os traços do tempo e do espaço africanos?

E que ilha é esta que nos poemas se diz? Que ilhas são estas? Ou antes, que visões da ilha são estas que os poemas constroem?

A ilha poderá ser, antes de mais, este espaço de estar (e “estar é muito mais verbo para ilhéu do que viver”, escreveu Nemésio) e onde se assiste ao fluir do tempo dissolvendo contornos e arestas. Espaço demasiado próximo do corpo, dorido e doloroso também, constrangedor e paradoxal nos horizontes ilimitados que deixa antever sem realizar — daí o confronto constante que na escrita se encena entre o efémero, a finitude da Ilha e o Absoluto como miragem do desejo.

Há, pois, uma visão de dentro onde é igualmente possível detectar a denúncia da(s) ruína(s) quotidiana(s), o isolamento (talvez melhor, o insulamento), a interpenetração do corpo na ilha e vice-versa. Mastambém uma visão de fora, à distância: a dos que partiram. Filhos de Itaca lhes chamarei, porque no seu percurso de (a)venturas eles constroem a Ilha imaginada pelo Desejo e pela Memória: simultaneamente Ulisses e Penélope, eles (des)fazem a mortalha de palavras com que entretecem o decurso dos dias à espera de uma chegada que sabem sempre adiada, porque a Ilha que procuram é a ilha perdida da memória. Visão evocativa, por isso, em que o Pretérito Imperfeito poderia ser o tempo verbal da nostalgia, do fascínio. Nemésio, Vasco Pereira da Costa, Marcolino Candeias, João de Melo, navegam (mais ou menos) nesta distância e recuperam pela escrita um tempo ilhéu em diluição.

Escrevendo também à distância uma parte substancial da sua obra, J. H. Santos Barros mantém-se, todavia, demasiado perto, porque o afastamento não reduzirá a sua relação violenta com a ilha (decerto porque conflituosa a partida, talvez mesmo porque demasiado curto o tempo entre esta e o regresso pela escrita).

 

Urbano Bettencourt, O gosto das palavras II (leituras e ensaios)
Ponta Delgada, Jornal de Cultura, 1995.


 

[1] A defesa e a divulgação da Literatura Açoriana passam por outros livros de Onésimo Teotónio Almeida, entre eles Açores Açorianos Açorianidade (Ponta Delgada, Signo, 1989).

A Literatura Açoriana tem ainda sido objecto da atenção crítica por parte de investigadores e ensaístas como, por exemplo, Adelaide Baptista, João de Melo e a Literatura Açoriana (Lisboa, D. Quixote, 1993), José Martins Garcia, Para uma Literatura Açoriana (Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1987) e, mais persistentemente, Vamberto Freitas, com destaque para O Imaginário dos Escritores Açorianos (Lisboa, Ed. Salamandra, 1992).

 

 

 

 

 

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1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/
acores/acorianidade_bettencourt_1993.htm, 2008.
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