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Sobre a Antologia de Poesia Açoriana de Pedro da Silveira

 

por Urbano Bettencourt (1978,1981)

 

 

 

Um ano praticamente passado desde o aparecimento da Antologia de Poesia Açoriana, de Pedro da Silveira (Sá da Costa Editora, Lisboa, 1977), agora se torna viável uma abordagem da mesma, com a vantagem de não existir o «factor surpresa», abordagem que se faz com a plena consciência de que muitas outras águas (leia-se acontecimentos, literários ou não) correram entretanto sob as abaladas «pontes do (nosso) pesadelo» — Camilo Pessanha quase, quase.

E, por mais ocasional que tenha sido a referência a Pessanha, reparo que ela se prende, afinal, e por via do simbolismo, com um problema (que acabou por tornar-se central) levantado no prefácio desta Antologia: o da existência (ou não) de uma literatura açoriana. Como se sabe, Pedro da Silveira alinha pela afirmativa e as justificações para isso aduzidas no prefácio acabaram por desviar em grande parte a atenção dos críticos, que em poucos casos tiveram a lucidez suficiente para avaliar devidamente e trabalho de investigação e recolha do organizador.

Efectivamente, o projecto a cuja concretização se lançou Pedro da Silveira era, à partida, extremamente vasto e ambicioso, agravado pelas condições de dispersão que rodearam (e continuam a rodear) o fenómeno literário nos Açores; falei em dispersão e acrescento desconhecimento para com estes dois termos sintetizar o que, por oposição, me parecem ser as duas grandes virtudes (a palavra soa a beatério, mas não me ocorre outra) desta Antologia: a de reunir e nos pôr à disposição um óptimo e funcional meio de trabalho e de estudo que doutro modo não seria fácil obter, e a de trazer ao conhecimento público nomes e textos que (alguns, pelo menos) poderão não ser muito originais e nem sequer se distinguir sobremaneira dos padrões continentais, mas que pura e simplesmente existem e, a não ser por este processo, continuariam como se tal acontecesse, (chegados a este ponto, não se percebe muito bem a afirmação de João Simões ao Jornal de Fall River, 12/10/1977, de que a descriminação da literatura por regiões, como no caso presente, « pode ser prejudicial à cultura portuguesa». O que será afinal a cultura portuguesa? Uma espécie de entidade supra-partidária, como se diz nos meios político-pluralistas, um fenómeno abstracto pairando por cima do nosso (des)contentamento? Ou não será antes um conjunto de realidades e manifestações multifacetadas e diversas mas interligadas entre si, conjunto esse tanto mais rico quanto maior for o conhecimento que se tiver de cada um dos elementos que o compõem?).

Evidentemente que a organização duma antologia obedece sempre a um critério, discutível como todos os critérios, e neste caso poderíamos perguntar por que motivos foram incluídos alguns autores que parecem ir pouco além da simples curiosidade histórica ou de indicadores do vasto arsenal de conhecimentos de Pedro da Silveira (verdadeiramente notável, diga-se de passagem; registe-se a quantidade de elementos bio-bibliográficos presentes ao longo da obra e pense-se no que isso implica de pesquisas e de trabalho, mesmo sabendo que, de um ponto de vista de análise textual, o biografismo tem de remeter-se ao lugar secundário que lhe compete). Por outro lado, e do mesmo modo, poderíamos interrogar-nos sobre a razão por que outros autores foram excluídos, e torna-se até bastante fácil enumerar para cima de uma dezena deles nessas condições, alguns por certo mais representativos que vários antologiados.

Posto isto, voltemos ao Prefácio. A reivindicação de uma literatura açoriana autónoma da continental, nos moldes em que é feita por Pedro da Silveira, parece ser uma falsa questão que não mereceria maior referência que a devida a uma opinião polémica, se não lhe estivesse subjacente uma questão política de fundo e daí não derivassem algumas posições ambíguas que convém esclarecer.

Federalista de longa data, sem nada dever a separatistas recentes e apressados, Pedro da Silveira equaciona as relações entre Portugal continental e os Açores em termos de colonizador/colonizado; daí que, na mesma linha de pensamento, defenda a existência de uma literatura açoriana distinta da continental. que os argumentos aduzidos não parecem suficientes e a valiosa resenha histórica que Pedro da Silveira faz desta problemática (e do seu equacionamento desde José Torres, em 1852) é pontuada aqui e além por observações menos consistentes.

As diferenças económicas, sociais e históricas entre o território continental e o insular serão de tal modo profundas, as zonas de influência cultural serão assim tão díspares que justifiquem uma literatura açoriana tão autónoma como Pedro da Silveira pretende mostrar? Será, por outro lado, a existência de alguns regionalismos, mesmo que usados exaustivamente, razão suficiente para pôr a questão nos termos em que ela é posta? Parece que não. Ainda a este respeito, julgo bastante despropositado o zelo com que Pedro da Silveira se insurge contra os que substituem os regionalismos por termos «colonizados» (cito, entre outros, aldeia, gaivota, que escritores como Nemésio e Mesquita empregam, aliás, sem grandes complexos de culpa), como se a língua fosse um fenómeno estanque, com fronteiras marcadas a régua e compasso, e não um tecido complicado de intercâmbios e influências. Além disso, interessaria saber quais desses (e doutros) regionalismos correspondem a um processo de diversificação linguística e quais os que resultam de uma cristalização de formas-padrão que com o tempo acabaram por ter um uso restrito a zonas específicas.

Por outro lado, a «erupção» de insularidade que se regista na escrita açoriana do período simbolista deve ser entendida dentro de determinados limites. Com efeito, quando Pedro da Silveira afirma que « enquanto simbolista é que a poesia (de Roberto de Mesquita) está saturada de insularidade» (sublinhado meu), a conclusão a tirar não será a de que a própria escola simbolista vem carregada de insularidade? (repare-se que o termo é muito mais vasto que açorianidade). Atente-se, porém, que com isto não se nega a originalidade nem a carga insular da poesia de Roberto de Mesquita; se é certo que na sua obra ressaltam frequentemente marcas palpáveis e elementos tópicos de escola (e influência de escritores: o poema Luar, por exemplo, é o decalque formal de um poema de Baudelaire, decalque incorrecto, por sinal, que no poeta francês a construção é produtora de sentido, o que não acontece no poeta açoriano), também é verdade que Mesquita soube ultrapassar de maneira notável os códigos de escola e dar o salto qualitativo que distingue os verdadeiros criadores dos simples imitadores — cito a propósito Jacinto do Prado Coelho: «a grande virtude de Almas Cativas está na convergência interior, não forçada, da experiência pessoal e da linguagem aprendida» («Prefácio» in Roberto de Mesquita, Almas Cativas e Poemas Dispersos, Edições Ática, Lisboa, 1973, p. 10).

que de todas estas observações até à afirmação de Pedro da Silveira de que «o Simbolismo correspondeu, no momento próprio, à liberdade que os jovens escritores açorianos requeriam para as suas criações» vai um passo demasiado arriscado que põe em causa toda a problemática da liberdade no interior da própria escrita, não se vendo bem porque há-de ser esta um acto menos libertador (ou libertário) num parnasiano do que num simbolista. Ainda, a manter-se a afirmação de Pedro da Silveira cairia por terra toda a genuinidade (ou insularidade, se quisermos) de outros escritores açorianos cuja escrita não passa necessariamente pelas coordenadas simbolistas e com os quais, no entanto, Pedro da Silveira pretende justificar a existência de uma literatura açoriana.

A finalizar, o que não significa seja menor a importância que se atribui à questão, vai um último reparo e ao mesmo tempo esclarecimento que por razões diversas neste momento vem a público. Ao longo do Prefácio e nos comentários que completam a Antologia, Pedro da Silveira resvala para posições que, por ambíguas e à falta de um enquadramento preciso a que nem todo o leitor terá acesso, dificilmente se distinguirão de outras sustentadas pelos líderes do actual separatismo açoriano, o que terá sido um mau serviço prestado a autores antologiados, em particular alguns das mais recentes gerações, referenciados à Gávea e ao Glacial.

A actividade desenvolvida à volta destes dois núcleos representa um esforço no sentido da procura e restauração duma identidade cultural açoriana, entendida como factor de libertação e resistência à despersonalização imposta pelo fascismo através dos respectivos aparelhos insulares (mui dóceis e sempre leais). De qualquer modo, nunca esteve em causa a criação de isolacionismo por que se bate hoje o separatismo açoriano, frequentemente jogando com alegações de tipo racista, até porque esse trabalho passou sempre por uma abertura a outros pontos e culturas situados para além dos limitados horizontes (físicos e mentais) do arquipélago; não admira mesmo que toda essa actividade tivesse desencadeado os furores (e os habituais processos «dissuasores») da classe dominante açoriana, na altura fanaticamente integracionista, hoje fervorosamente separatista.

Estas, algumas questões que necessitavam de um esclarecimento. Não situar devidamente as coordenadas e os objectivos de todo o movimento cultural (não oficial) que nos Açores teve lugar nas duas últimas décadas é, no mínimo, contribuir para um equívoco que urge desfazer, nestes tempos em que se abriram as portas aos mais descarados oportunismos, por sua vez geradores de correntes e grosseiras mistificações.

(1978)

 

ADENDA EM 1981

 

Três anos depois, releio o texto anterior sem que julgue necessário ou sequer conveniente retirar alguma coisa aos seus elementos fundamentais, ou corrigir-lhe quaisquer aspectos da argumentação, cujo sentido o tempo eventualmente tivesse feito inflectir de modo pertinente. Dizer isto significa assumir de novo, e agora, o que então se afirmava, mesmo naqueles pontos de ordem especificamente contextual ou de natureza extra-literária que se traziam a campo.

É certo que, terminada a sua função como ponta-de-lança ou «representação de cobertura» de outras forças que habilmente o manobraram em proveito próprio, o separatismo insular, como fenómeno social, viu decrescer a sua importância, acabando por cristalizar naquilo que realmente (não) representa, sem tempo sequer de vir reclamar para os seus arraiais uma obra como a de Pedro da Silveira. Sem tempo, dizia eu, mas sobretudo sem vocação para tanto, dada a natureza do seu projecto (?), avesso a quaisquer componentes de ordem cultural — fenómeno mais do que outros capaz de fazer luz sobre as suas motivações e intentos[1]. Apesar disso, impunha-se a chamada de atenção, o alerta contra possíveis confusões, como, aliás, ainda hoje se impõe, nestes brandos tempos em que o charme discreto da «doce paz burguesa» vai diluindo divergências e adormecendo feridas e poderá acabar até por nos fazer naufragar a todos na mesma barcaça (ou nalgum «lustroso bote administrativo») e supostamente à vista de qualquer ilhota prometida.

Mas, na continuidade de uma linha de transparência (hoje comotrês anos) e na posse de um maior ângulo de visão proporcionado pelo tempo desde então decorrido, não me sentiria bem comigo próprio e deixasse de referir aquilo que me parece cada vez mais uma evidência consolidada que por má-fé ou despeito se tentará (so)negar ao conjunto dos terrenos conquistados para o âmbito da cultura açoriana: a Antologia constitui hoje um marco inevitável e a ela reverterá forçosamente quem, porventura, se venha a preocupar com a génese da mais recente discussão sobre a questão da literatura açoriana. Os termos extremados, provocadores (talvez mesmo provocatórios) com que se defendia a existência de uma literatura autónoma no arquipélago eram de molde a não deixar indiferente quem a estes assuntos prestasse o mínimo de atenção, e torna-se necessário reconhecer que, a não ser dessa forma, talvez não tivéssemos chegado ainda à situação em que nos encontramos actualmente.

Naquilo que respeita aos Açores, no aspecto literário e cultural, a onda que se levanta em 1977 (após a Antologia) e se tem prolongado por estes quatro anos, assenta em duas componentes fundamentais: uma de natureza interna, respeitante à produção e criação de factos culturais, e outra de natureza externa, tendo a ver com a curiosidade gerada em relação às coisas dos Açores — por um lado, a discussão e a movimentação de ideias, dentro e fora do arquipélago[2] e o aparecimento de novas obras de ficção, na poesia, no ensaio, a reinventar a escrita e o espaço dos Açores, num evidente retomar de caminho em direcção às mais fundas raízes culturais e históricas; por outro lado, o movimento de fora para dentro, a atenção que se (re)começa a dedicar àquilo que no arquipélago e sobre o arquipélago se vai fazendo. Obviamente, não se pretende que tudo o que nos últimos anos apareceu e foi feito tenha de passar directamente pela matriz que a Antologia constitui, mas o facto é que, até por ricochete, ela veio criar a necessidade de reflectir e aprofundar questões antes abordadas apenas de forma difusa e mal consciencializada. Mas quanto à discussão da existência ou não de uma literatura açoriana autónoma, é na Antologia que teremos de procurar o ponto de arranque.

Passado este tempo, poder-se-á perguntar se se conseguiu avançar algo de significativo em relação àquilo que ficou consignado no folheto de Borges Garcia, Por uma autêntica literatura açoriana, e que constitui a súmula da discussão sobre o mesmo assunto registada em Ponta Delgada à volta de 1950. Pessoalmente, creio que nãoisto em termos de definição (demarcação) de uma literatura açoriana autónoma, distinta da continental. Mas, em contrapartida, ter-se-ão daí retirado efeitos secundários, como sejam uma maior tomada de consciência quanto à nossa realidade cultural, bem como o referido facto de se ter conseguido despertar a atenção alheia para essa mesma realidade[3] — de tal modo que, mesmo negando com barbas e dentes a existência de uma literatura açoriana, muito boa gente tenha vindo a beneficiar (comercial e promocionalmente) dessa discussão e das suas consequências próximas.

E, quase a finalizar um apontamento que não tem o mínimo propósito de exaustão, creio que será sempre conveniente olhar de modo lúcido para toda esta actividade, para aquilo que (com literatura ou sem literatura ela representa: uma prática de descentralização cultural efectiva e autêntica — há quem alimente o sonho de «levar Lisboa à província», o que não passa de um subtil atestado de minoridade a esta última, além de uma elegante forma de centralismo-em-viagem: a descentralização estará, antes, no desenvolvimento e na revitalização de práticas locais e na criação, , de outras (aviso mais que óbvio e urgente a certa esquerda festiva).

Finalmente, uma observação noutras ocasiões publicamente feita: aquilo que, em termos literários, e faz nos Açores pode passar muito bem sem o critério ou crivo da literatura açoriana: teremos, fundamentalmente, de tentar lê-lo segundo uma óptica estritamente literária (ao menos, para ). E — tranquilizem-se as almas pias que na capital do ex-império aspergem a água-benta dos seus doutoralmente doutos juízos críticos! — há muito por onde pegar na criação literária dos Açores, sem que tenham as citadas almas pias de vir a arrepender-se de mal disfarçados compadrios ou de dúbias prosas-de-copo-e-de-cama.

(Urbano Bettencourt, "Antologia de Poesia Açoriana"
in O Gosto das Palavras [I], , Angra do Heroísmo, SREC, 1983)


 

[1] No Manifesto ao Povo Açoriano, com que em 1978 o MNA/FLA veio a público (mais uma vez) demonstrar a sua capacidade de alinhar slogans feitos, não se deixava de, afirmar que «a história e a cultura açoriana serão defenidas (sic) e cuidadosamente ensinadas».

Mas, afora esta declaração de boas intençõestão abstracta que poderia ser subscrita pelos mais díspares e distanciados agrupamentos ideológicos — não se vislumbra nesse manifesto qualquer elemento que nos permita. minimamente pensar o que se entende por cultura açoriana. Nem nesse, nem no Manifesto da Liberdade, de idêntica origem e época — a menos que a prosa dos dois manifestos nos seja dada a tragar como uma componente (escreventual) dessa cultura ainda a defenir.

[2] Não sendo esta uma ocasião para balanços históricos, importa, porém, salientar que um forte núcleo de dinamização cultural se situava em Lisboa, sob a coordenação do Grupo de Intervenção Cultural Açoriano que, além de promover exposições, colóquios e debateis, criou e editou durante algum tempo a revista A Memória da Água-Viva e lançou ainda uma colecção de poesia em que chegaram a ser publicados 4 títulos.

Dentro do arquipélago, é em Ponta Delgada que se localiza o principal centro de actuação, em torno do suplemento cultural Raiz, coordenado pelo poeta Emanuel Botelho. Raiz abriu mesmo um debate público subordinado ao tema «Há ou não uma literatura açoriana?».

A nível de criação propriamente dita, haveria que ter em conta o muito que nestes anos foi surgindo, mas chamarei aqui a atenção apenas para alguns aspectos da actividade editorialpara a reedição de obras muito esgotadas e para a existência de uma colecção da SREC que, nos seus altos e baixos (a nível de selecção e de apresentação), constitui um facto significativo pelo que tem de inédito no arquipélago e na medida em que pode funcionar como estímulo à escrita e meio de escoamento para autores sem facilidade de acesso aos circuitos editoriais.

[3] É lógico que não podemos abstrair dos fenómenos sociais e políticos que enformam a vida do arquipélago nesta época.

Ainda como sinal desse interesse e atenção no estrangeiro refira-se, por exemplo, a criação de um Curso de Literatura Açoriana na Universidade de Brown (USA), orientado pelo (também escritor) açoriano Onésimo T. Almeida.

 

 

 

 

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1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/
acores/acorianidade_bettencourt_1978e1981.htm, 2008.
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