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GEOGRAFIA: INSULARIDADE E CLIMA

— A SUPOSTA INFLUÊNCIA PSÍQUICA

 

 

 

 

Onésimo Teotónio Almeida (1989)

 

 

 

 

Ao afirmar que para os açorianos a geografia é tão importante como a história, Vitorino Nemésio não foi de modo nenhum vítima de qualquer devaneio poético. Ela apenas expressou de modo sucinto uma intuição profunda que dominou desde muito cedo a sua compreensão da realidade açoriana.

A sua prosa reflecte constantemente essa visão simbólica do cultural e natural no espaço insular. Basta folhear-lhe os livros[1]. O mesmo acontece nas páginas de As llhas Desconhecidas, de Raul Brandão. Mas é toda a poesia açoriana que transborda de metáforas com um pé no espaço físico — a geografia em geral e o clima em particular. Roberto de Mesquita não precisou de ir longe para encontrar a massa com que moldou a sua imagética simbolista. Abra-se ao acaso esse precioso livro de poemas Almas Cativas. Se acontecer sair Spleen, quede-se aí o leitor um pouco:

Dezembro, dia pluvioso. Vem
Deste céu de burel um spleen mortal
Onde as almas se atolam como alguém
Que caísse num vasto lodaçal.

Olho em torno de mim: as cousas mesmas
Têm um ar de ‘desgosto sem remédio...
E as horas vão, morosas como lesmas,
Rastejando por sobre o nosso tédio.

O véu cinzento e denso que se espalha
Lá por fora, empanando as perspectivas.
Dir-se-á também que as almas amortalha
E afoga as suas vibrações mais vivas.

[…][2]

 

Se a poesia de Nemésio não é tão marcada pela geografia insular como a sua ficção, a presença dos elementos ilhéus ressalta nela constantemente. Um simples passar de páginas sirva de amostra:

À beira de água fiz erguer meu Paço
De Rei-Saudade das distantes milhas:
Meus olhos, minha boca eram ilhas;
Pranto e cantiga andavam no sargaço.

Atlântico, encontrei no meu regaço
Algas, corais, estranhas maravilhas!
Fiz das gaivotas minhas próprias filhas,
Tive pulmões nas fibras do mormaço.

[…][3]

Noutro poema:

Deixem-me só no mar, […]

Calem lá a sereia dos nevoeiros,
Que eu apalpo a noite, sinto vagas dentro

[…]

Nunca fui senão mar numa coisa peluda,
Mar numas veias cheias de ânsia.

[…][4]

O mar é uma constante e surge com frequência mesmo em títulos de poemas. «Ode ao Mar», «(Onde o mar me levou)», «A vaga verde», e até mesmo o poema «A concha», que começa tão belamente: «A minha casa é concha»[5]. Mas há títulos com referência ao clima, como «Azorean torpor», ou «A nortada encheu de ilhas o horizonte». Já agora, antes de passarmos a exemplos de outros poetas, parece que não deveria omitir-se aqui o próprio Antero, cujos escritos só indirectamente revelam preocupações com os Açores. Nalguns dos seus poemas a sua experiência insular está, porém, obviamente presente. Lembre-se o lugar clássico que é o soneto «Sepultura Romântica», que começa assim:

Ali, onde o mar quebra, num cachão
Rugidor e monótono, e os ventos
Erguem no areal os seus lamentos,
Ali se há-de enterrar meu coração.
[6]

Num outro soneto, intitulado «Oceano nox», o segundo quarteto:

Junto do mar sentei-me tristemente
Olhando o céu pesado e nevoento
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...
[7]

De Armando Côrtes-Rodrigues os exemplos também abundam. Sirva apenas este poema do seu Cantares da Noite:

Dia triste de invernia,
Cor baça de nevoeiro,
Que já rasteja no chão,
Que já enche o céu inteiro!

E são fantasmas as árvores,
Esbracejando na bruma,
Que tudo ganha mistério,
Tudo em mistério se esfuma.

A erva humilde tremeu
No terror da cerração.
Bruma dos olhos pisados,
Funduras do coração.

E na paisagem das almas
Toda em névoa de tristeza.
Passam soturnas, ritmadas,
As asas da incerteza.

Não há distância, nem longe,
Nem recortes do horizonte;
É tudo bruma dos olhos,
Parada, sempre defronte.
[8]

José Enes, o filósofo, teve a sua fase de poeta. Do seu único livro de poesia, Água do Céu e do Mar, a segunda parte tem por título «Sempre mar e a mesma terra». É aí que se encontra o expressivo poema «Chuva» de que aqui se transcrevem alguns versos apenas:

Cai uma chuva miudinha
impertinente
basta como a farinha
da peneira

[…]

As faias da terra e os incensos
ensopam seus braços de tempo
na humidade das horas.

O vento sudoeste
encharcado e bolorento
mornaça e bafiento
um sobretudo veste
de lã pingando suor...

[…]

Os musgos das paredes escorrem as lágrimas da espera impaciente dos milhos e trigos que alforram nos campos.

— Que vento
nojento
bafiento
bolorento
morrinhento
peguinhento
peçonhento
é este
o vento
sudoeste!
[…]
[9]

Quase todos os melhores poetas açorianos escreveram um poema com Ilha por título. Pedro da Silveira põe-na mesmo em título de livro — A Ilha e o Mundo:

Só isto:
O céu fechado, uma ganhoa:
pairando. Mar. E um barco na distância:
olhos de fome a adivinhar-lhe a proa,
Califórnias perdidas de abundância.
[10]

Fê-lo também, por exemplo, Almeida Firmino:

Sempre o mesmo horizonte
— mar, névoa, a ilha em frente.
Dizem os garajaus ao voltar
Que não mais será diferente.
[11]

Esta investida por esse sem-número de páginas de versos impregnados de geografia pretendia-se curta, objectivo que se torna difícil de atingir quando se tem nas mãos os próprios livros.

Carlos Faria fala de S. Jorge, «ilha parada, só o mar viaja» e deste afirma ser «mar diferente e duro, pesado e alevantado»[12]. E noutra página, noutro poema:

A terra treme: é o vulcão oculto da ilha, a boda
de rir tremendo, o registo nervoso nos ramos altos
das árvores livres... Tremer sem medo é uma
linguagem da ilha, a febre profunda de chegar
às raízes das pessoas...

É verão quando não chove e o vento sopra do sul.
E se chover é o mesmo...

O basalto é azul até onde o mar chega... A costa
norte rebenta de silêncio […]
[13]

E sempre o mar a galgar os versos por todos os lados, como neste poema ainda de Carlos Faria:

Os caminhos da ilha estão cobertos
de mar. São rosas de água estas
pedras onde cresce o funcho
e o milho...

O basalto é uma pele de rosto
oceânico: tão suave e quente
como o silêncio. Aqui onde
o Norte está virado ao Sul!

Os caminhos da ilha levam
os olhos para o mar levam
as mãos para as raízes das conteiras
e trazem o sal às espigas
e os remos ao peito

Os pássaros voam tão alto
nas manhãs de chumbo
que os grilos cantam o anúncio
das marés
com o regresso dos pescadores à terra
e dos camponeses ao mar...
[14]

Martins Garcia leva bem longe a metáfora de viver numa ilha, num poema («Signo Insulado») em que o efeito provém do círculo fechado conseguido pelo uso dos mesmos vocábulos-chave em cada quadra. Aqui reproduzem-se apenas as últimas duas:

o mar está todo por fora da ilha
o mar é quanto não cabe na ilha
o mar é quanto não cabe no poço
no fundo do mar morreu uma ilha

enlouquecer é morrer numa ilha
na ilha morta no fundo do mar
no poço secura por dentro da ilha
no fundo do poço correcto lugar
[15]

Urbano Bettencourt, no poema «Roberto Mesquita Corpo Insulado», por sinal num livro com Naufrágios por título, abre assim o poema:

quantos os graus de inquietude norte trezentos
e sessenta talvez mais que a circunferência
fechado o cerco a rede aperta as suas malhas
suas grades
os dominantes ventos de oeste norteiam
a sustentação secular do corpo os arquidogmas
a derivação final das rotas e sorteiam
os braços e os passos entre as notas
e a lava:
lavados de cinzento celebramos
a partida e nos partimos de cansaço
contra a rocha em saldo a soldo levados
no rasto das baleias como bichos
como botes
[16]

E depois:

aqui o homem ergue
uma ilha e olha
as palavras cercadas de sal
até onde o olhar se afoga.
[17]

Ou ainda estes outros de Álamo Oliveira:

na ilha não há sossego
Só o mar é grande e certo
deus está no bolso duma nuvem
[18]

Em Na Distância deste Tempo, Marcolino Candeias agrupa cinco poemas sob a rubrica «Ilha de Emoção». Um deles, «Crepúsculo na Ilha» termina:

III

No cheiro a erva
um sonoro subtil voar de silêncio
brota um crepúsculo de flores exemplares

IV

No ar
paira um odor a maresia
[19]

A poesia de Borges Martins é ela própria, como as suas lhas, «geografia semeada de brumas e ciclones»[20], onde «as horas são verdes por dentro e cheiram / a vento»[21]. Vale a pena transcrever por inteiro o poema «O vento escreve de viagem»:

1.

o vento escreve de viagem o mapa fisicamente humano e diz-nos com angústia ao ouvido que o camponês é um pássaro de coração enforcado na dor geográfica da ilha o vento é o rápido do arquipélago no postigo da casa a trinta e tal milhas recorda telegraficamente que as mãos do homem são a maior fotossíntese da terra e com os membros em forma de charrua vai campo adentro canalizando o sol que no fim de cada semestre é um ciclo de produção

2.

a seca é a doença do camponês que se multiplica na temperatura máxima da vida a sua vida é um termómetro desce com o sofrimento e sobe com a produção quando o mercúrio baixa o coração avaria ao cimo da cama e o camponês pendura-o no cabide com a viola abandonada a ilha baila ao compasso do mar mas o povo canta a ode da terra cuja dialéctica é de uma emoção tristemente feliz

3.

o vento não se deita só em segredo respira escreve de viagem a carta desta profecia no bloco portátil da memória ele é o elétrico mais rápido da ilha por isso quando se aproximam as primeiras chuvas as árvores dançam os campos riem o vento estremece e diz-me que o camponês regressa da hibernação só então a alegria sobe um pouco mais no termómetro da sua esperança a ilha baila ao compasso do mar e o povo faz das cordas da viola o ritmo da amargura

4.

e o vento pensando na ilha escreve que as aves saem dos poentes livres com asas de silêncio como um telegrama via aérea a planar na mágoa ilimitada das pessoas e o camponês cercado de mar e sacrifício por todos os sentidos dá as mãos às aves que lhe ensinam a lição da viagem[22]

O tema da humidade, o Azorean torpor que Nemésio popularizou na expressão emprestada dos irmãos Bullar[23], é também insistente. Santos Barros fê-la nome de um livro. Dele, um poema:

Aqui temos o ar pesado
que por sê-lo a nós se prende
e nos prende na corda
que vai do mastro à ilha

aqui temos o ar pesado
e o pesadelo de senti-lo
até por dentro e tão lento

aqui de bordo querer-se-ia
suave o que tem de rude
a noite a chuva o seu rumor

mas balançamos leves
e pesamos por dentro o enjoo
do ar pesado
[24]

Em verso ainda, Emanuel Jorge Botelho escreve:

A humidade é o
mosto da salga o nosso
medo e entra
nos poros da manhã
[25]

E para terminar esta excursão que se pretendia breve, um último poema — «Torpor» — desta vez de Vasco Pereira da Costa, num livro sugestivamente chamado Ilhíada:

sobe um sussurro cinzento ao chão da baía

o remo remove carrancas
membros de duendes em coito furtivo de desvairo

abafa a barra pesada parda toldada
que amassa as nuvens maciças
lassa a força
safa o sol

cega a luz da saudação da terra

embala a vaga o bote

a ilha dorme
[26]

Esta presença do ambiente geográfico na poesia açoriana não é de modo nenhum uma corrente literária que os poetas e escritores elegem. Essa omnipresença parece acontecer por ser mesmo assim, por fazer parte do mundo do poeta, do mundo açoriano. Relações íntimas, quase osmóticas entre o ambiente geográfico, o clima e a psique são livremente estabelecidas, algumas vezes de modo arrojado, como no poema «Sob a chuva do tédio», de Rebelo Bettencourt, sobre o suicídio de Antero do Quental:

Dia aziago. Chove... O céu é de ameaça.
Uma bruma cinzenta estrangula a paisagem
Oiço na voz uma estranha linguagem
E adivinho não sei que sombra de desgraça!

[…]

A tristeza é irmã desta chuva a tombar...
Foi numa tarde assim que Antero de Quental,
Desiludido e só, se resolveu matar.

Um tédio enorme deixa a paisagem doente:
— É o mesmo, talvez, que ‘anda, por nosso mal,
Nos Sonetos de Antero e na alma da gente!
[27]

 

Mas deixemos a expressão literária dessa omnipresença do espaço geográfico e do clima na existência insular, bem como as referências livres e sugestivas à influência desses factores na psicologia do açoriano. Vejamos o que sobre o assunto escreve um cientista como José Agostinho, que durante toda a sua vida dedicou grande parte do seu tempo ao estudo do clima açoriano.

Ele fala sem reservas no «peso que a gente sente sobre si nos dias mornos que começam pelos fins de Maio e se prolongam pelo Verão até Setembro, ou começos de Outubro. Estas condições afectam toda a gente, amolecem-nos, tornam o trabalho mais fatigante, afectam até o espírito, caracterizando aquilo que veio a chamar-se Torpor açoriano e que alguém, com bastante malícia, alcunhou de mornaça».[28]

Mais adiante, José Agostinho prossegue explanando sem cautelas o seu ponto de vista sobre a influência do clima na psicologia humana:

«E ninguém contestará a grande influência que o clima açoriano tem tido na actividade da população do arquipélago, tornando-a menos apta para o trabalho do que a gente do continente, como muito bem sabem os empreiteiros de obras que de lá têm vindo para aqui exercer a sua actividade. Aquilo que se possa atribuir a falta de energia e a indolência, não é senão uma consequência do clima. As repercussões disto, no meio social, são óbvias»[29].

Não é aqui o lugar para nos enfronharmos nessa antiquíssima questão da influência do clima na psique humana, mas detenhamo-nos um pouco no assunto a ver se é possível obter alguma luz do e para o caso específico açoriano.

 

Vem já de Heródoto, Aristóteles e Hipócrates uma das grandes teses de interpretação histórica que pressupõe a concepção do clima como factor fundamental na vida humana: foi o excelente clima da Grécia que permitiu o desenvolvimento da civilização grega e a supremacia por ela conseguida sobre a Ásia Menor.[30]

Mas a lista de autores que contribuíram para o desenvolvimento da teoria foi-se engrossando ao longo dos séculos. Ela inclui desde Estrabão a Jean Bodin[31] que, no século XVI, desenvolve a teoria de modo a responder às variáveis que o novo mundo apresentava às antigas concepções. Mas é então com Montesquieu e a sua obra L’Esprit des Lois que a teoria ganha um corpo coerente propondo explicação para a inter-relação entre três áreas distintas: a fisiologia e psicologia humanas, o meio ambiente natural e os sistemas políticos. De entre os diversos factores do ambiente natural, Montesquieu, influenciado provavelmente pelos trabalhos do inglês John Arbuthnot, prestou mais atenção à influência do clima.[32]

O século XIX foi fertilíssimo na proliferação de teorias sobre o impacto do clima nas culturas e nos rumos que o seu desenvolvimento (ou atrofiamento histórico) terão tomado. Algumas delas incorporaram perspectivas biológicas em voga na altura e provocaram acesos debates. As posições extremaram-se em dois pólos: por um lado, aqueles que acabavam por admitir transformações genéticas e, por isso, justamente acusados de deterministas; do extremo oposto, os marxistas, que queriam a todo o custo libertar os povos dessas amarras que, a serem tomadas a sério, impossibilitariam qualquer espécie de crença em mudança e muito menos numa revolução sócio-económica.[33]

Uma perspectiva abrangente mas moderada, isto é, evitando implicações genéticas, surgiu no princípio deste século com a obra de Ellsworth Huntington, Civilization and Climate[34]. Curiosamente, durante os anos em que no mundo de língua inglesa entravam em voga os pontos de vista de Huntington, na França, Lucien Febvre desferia, no seu La Terre et I’Evolution Humaine[35], golpes mortais nas teses do determinismo geográfico e que tanta influência haviam de ter nos postulados teóricos e metodológicas do grupo Annales.

Foi o descalabro provocado pela ideologia nazi e a horrorosa utilização de concepções racistas com suposta fundamentação genética que pôs termo a todo e qualquer debate com pretensões científicas que, remotamente sequer, permitisse uma associação com o determinismo geográfico. Com a explosão das ciências sociais ocorrida no pós-guerra, essa literatura foi completamente ignorada e acusada de não científica.

De vez em quando, porém, lá surge uma voz clamando no deserto insistindo nessa teoria que a ciência rejeitava mas que nem por isso deixava de gozar de grande popularidade entre o público em geral, incluindo mesmo camadas bem informadas. Robert Clairbone, por exemplo, na introdução ao seu Climate, Man and History[36], acusa frontalmente a ciência de «ter falhado» por não fazer as perguntas que devia e aborda directamente o problema do papel do clima na história reclamando a atenção dos cientistas para o estudo dessa problemática.

Em 1971, J. W. Berry abria um artigo numa revista de ciências sociais com a seguinte afirmação sem rodeios:

«É de novo uma empresa legítima para os cientistas sociais investigarem a possibilidade do papel da ecologia na modulação do comportamento humano. Longe vai o tempo do determinismo geográfico, que era tão fácil refutar».[37]

Essa atitude demorou todavia ainda algum tempo a generalizar-se. Mas aos poucos as críticas sobre essa lacuna na investigação científica surgiram de diversos flancos e muito recentemente um indiano publicou numa respeitável editora um arrojado estudo — Climate and World Order[38] — em que confronta os cientistas e os admoesta pelo seu receio nessa área. Contra aqueles que clamam não existirem dados seguros sobre a influência do clima no comportamento humano, nem muito menos sobre o grau dessa influência, caso ela fosse provada, ele contrapõe a sua experiência pessoal de homem viajado que se sente diferentemente em diferentes regiões do globo, sobretudo no que à apetência para trabalhar diz respeito. Segundo Bandyopadhyana, não existem estudos comparativos e nem sequer Huntington baseara as suas conclusões em comparações à escala global. Insiste em que as suas teses não são deterministas, mas que o clima é pelo menos um dos factores mais importantes para explicar a origem e a continuação da dicotomia Norte-Sul: «O clima é talvez o maior factor natural da origem e desenvolvimento desse hiato».[39]

As acusações de Bandyopadhyana não são sem fundamento. De facto, se folhearmos as revistas científicas, são pouquíssimos os estudos dedicados a essa problemática. As excepções só confirmam a regra[40]. Pelo menos isso foi verdade até há pouco tempo, já que a situação se alterou consideravelmente nos últimos anos. Pelo menos quatro grandes congressos internacionais foram organizados sobre essa temática — clima, história e sociedade[41]. Das comunicações apresentadas nesses encontros, independentes ao que parece, transpira um certo consenso em relação à negligência — ou talvez excesso de receios — da parte dos cientistas em abordarem frontalmente a questão e a necessidade de se desenvolverem métodos rigorosos de pesquisa para se evitarem as generalizações perigosas em que se caiu no passado. De permeio, os contribuintes para estes quatro volumes avaliam cuidadosamente os trabalhos mais importantes recentemente surgidos, sobretudo os que resultam do recente interesse no estudo dos climas do passado. Ingram, Farmer e Wigley reconhecem que a maioria dos historiadores se contentou com ignorar o assunto, mas registam como importante a alteração desse estado de coisas nos últimos anos com o trabalho de uma nova camada de historiadores que eles qualificam de «excelentes» e que admitem a possível importância das variações climáticas na actividade humana, tanto a curto como a longo prazo, embora exijam para esses estudos o mais elevado padrão de rigor. Entre os estudiosos cujo trabalho nesta área é endossado contam-se C. Pfister, J. de Vries e M. L. Parry.[42] Significativamente, o volume inclui um estudo de H. H. Lamb, um dos poucos estudiosos desta problemática durante o período de «abandono». No seu ensaio, ele afirma categoricamente: «A investigação climática é um campo que apela urgentemente para a colaboração entre historiadores e estudiosos competentes nas disciplinas das ciências humanas»[43]. Em termos idênticos, os organizadores de um dos outros volumes encorajam os especialistas de vistas largas a explorar a aplicação dos seus instrumentos científicos à problemática do clima, encarando este sob diversos ângulos e procurando interligar esses pontos de vista[44].

 

Alongou-se talvez demasiado esta excursão através da bibliografia sobre o clima e o seu impacto na vida humana. Para o estudo das diferenças culturais entre os Açores e o continente não era necessário ter-se ido tão longe, já que as condições climatéricas açorianas não são tão drasticamente diferentes das do continente português. Ao menos o não são suficientemente, já que os neodefensores da tese da influência do clima no comportamento estão a procurar construir os seus argumentos comparando regiões em que as condições climatéricas são radicalmente diferentes — por exemplo, zonas temperadas e zonas tropicais. Com efeito, nem José Agostinho nem outros estudiosos da psicologia do açoriano atribuem tudo ao clima. Atribuem, sim, a ele algumas das diferenças comportamentais entre os açorianos e as populações do continente, já que tanto um como outro estudioso encontra apenas diferenças de grau entre os dois grupos culturais quando comparados globalmente. Numa outra passagem do ensaio citado, ao alistar as «dominantes» do povo açoriano, José Agostinho escreve: «Uma certa moleza, que é de atribuir ao clima, pois que desaparece quando o açoriano se muda para climas mais estimulantes»[45].

Foi sobretudo o etnógrafo terceirense Luís Ribeiro quem mais livremente discorreu sobre o impacto do clima sobre os açorianos, nos seus breves mas muito interessantes Subsídios para um Ensaio sobre a Açorianidade[46] Desde o falar baixo e arrastado, à alegria contida e receosa, e à moleza dos gestos, em todos esses factos Luís Ribeiro diz ser «possível encontrar maior ou menor influência do meio geográfico». Mas é especificamente ao clima que ele se refere nestes termos:

«Nas ilhas a temperatura é variável, entre muito próximos limites, mesmo nas estações mais afastadas do ano, e grande o grau de humidade atmosférica que frequentemente se aproxima da saturação. Nesse ambiente morno todas as energias se quebram, e daí a indolência peculiar dos açorianos, ainda que em grau variável de ilha para ilha, entre o mínimo em S. Miguel e Pico e o máximo na Terceira e S. Jorge. É a acção do «Azorean torpor» de que fala Bullar.

E isto tanto parece ser assim, que a gente mais viva é a do Pico, que, pela sua constituição geológica, é a ilha mais seca»[47].

Mas nem tudo é influência do clima, segundo o ponto de vista de Luís Ribeiro. Ele dá igualmente atenção a outros factores geográficos, como o vulcanismo, no caso da religiosidade (como já fizera Arruda Furtado[48] e o isolamento provocado pela distância em relação ao continente e mesmo entre as diversas ilhas.

Apesar do cuidado nas suas afirmações, Luís Ribeiro exagerou ao levar as relações de causalidade entre a geografia, ou o clima em particular, e a psicologia a extremos deste teor sobre a saudade: «Produto de alma portuguesa, mercê de circunstâncias do meio geográfico, não só vicejou nos Açores, como neles se ampliou»[49].

Outra passagem:

«A humidade do clima temperado, determinando a indolência peculiar do açoriano e certa tristeza que a paisagem causa, ajudou e facilitou esta atitude servil, que foi adoptada em geral.

Amortecidas as suas energias, quebradas as possibilidade de reacção, incapacitados de lutar frente a frente com as classes ricas e privilegiadas, os homens do povo, no instinto da defesa, supriram a sua impotência com a astúcia e trataram de achar a forma de ladear as dificuldades que não podiam superar. Tenazes, abandonando dificilmente uma ideia ou um projecto, mas submissos por necessidade, medrosos e apáticos por índole, tornaram-se dissimulados e manhosos»[50].

Ou ainda esta última em que o clima acaba por explicar determinadas qualidades artísticas, como o da propensão para a sátira:

«O açoriano, impregnado da tristeza da paisagem, preocupado subconscientemente com os sismos e os vendavais sempre eminentes, abatido pelo azorean torpor, desforra-se rindo dos outros, das suas fraquezas, dos seus ridículos, que maldosamente amplifica».[51]

Sobre a influência do mar, Luís Ribeiro parece distrair-se em determinadas expressões e esquecer-se de que é etnógrafo e não poeta:

«Apesar disso, a influência do mar na formação do carácter do povo açoriano não é despicienda.

A contemplação do mar põe os homens cismadores, entristece e abate pela monotonia. O verde da terra, sempre coberta de vegetação durante o ano todo, um verde onde predominam os tons escuros, o azul do mar, às vezes terrivelmente escuro, outras embranquecido por obra das nuvens, visto à luz discreta e difusa que por nuvens se coa, aumenta a tristeza do meio e espalha a tristeza nas almas já abatidas por efeito da temperatura.

O mar é assim mais um factor da indolência, do saudosismo, de tudo o que faz do açoriano um homem emodorrecido e apático.

O receio das tempestades que se reflectem na terra, mas do mar vêm, aumenta o sobressalto que o vulcanismo gera.

Assim o mar influi no moral do ilhéu e parece até que o ritmo cadenciado das ondas e das marés lhe regula os passos lentos e os gestos graves, lhe dá o tom à fala arrastada e cantada, lhe enruga o semblante e lhe afina a vista».[52]

Destas críticas indirectas não se deverá inferir que o mar não constitua factor importantíssimo altamente condicionante da vida dos açorianos, ao menos pelas dificuldades físicas de comunicação que impõe.[53]

José Agostinho não se permite essas arrojadas associações de Luís Ribeiro[54]. Como meteorologista, estabelece as diferenças que os dados lhe permitem e só avança em algumas generalizações sobre a influência do clima quando supõe ter dados muito seguros.

E, todavia, quem viveu nos Açores e fora deles sente que existe uma realidade geográfica muito especial. Os seres humanos são todos diferentes uns dos outros, mas parece que uns são mais influenciáveis do que outros por determinados factores e um deles parece ser o geográfico em geral e o climatérico em particular. Se os proponentes das teorias da influência do clima têm pecado por excesso e por ilações, os seus oponentes refutam-nos muitas vezes com estudos rigorosos em que tiveram de pôr de lado uma grande quantidade de factores para poderem chegar a obter dados sólidos. O facto de não se possuírem dados seguros nesta matéria não dá direito a que se negue a possibilidade de influências. Não se trata aqui de reabrir a velha questão de quem terá obrigação de provar: os que propõem a teoria ou os que a negam. Mas não falta gente séria que possui vívidas experiências pessoais, ainda que elas não possam ser generalizadas.[55] O erro deverá ser apontado é às generalizações e, de entre essas, sobretudo às que poderão levar ao imobilismo. Aqui, têm razão todos os oponentes das teorias climatéricas que, acima de tudo, receiam as consequências que elas podem ter levando as pessoas à aceitação de tudo como causas naturais contra as quais nada há a fazer. É esse, no fundo, o grande problema subjacente ao debate sobre esta questão. Mas na história poucas vezes se deixou de investigar uma área ou de produzir um invento com base no receio do mau uso que disso se poderia fazer.

Os problemas que se levantam nesta área de estudos geográficos transcendem a metodologia e a mera identificação do objecto de estudo. Quem quer que se dê ao trabalho de manusear a extensíssima bibliografia nesse campo notará cedo que se entra constantemente nas mais diversas áreas das ciências naturais e sociais.[56] E, se nos embrenharmos um pouco mais nos debates, cedo nos aperceberemos de que se confrontam abertamente velhas posições da história do pensamento humano, como a da liberdade e o determinismo.[57] E num terreno tão complexo e interdisciplinar como este, as conclusões dos estudiosos são profundamente condicionadas pelos seus postulados ideológicos e pela sua mundividência. Por outras palavras, a ausência de dados concretos faz a questão desembocar num debate para-filosófico ou filosófico mesmo.[58]

Felizmente que o estigma que pairava sobre os estudos climáticos está a desaparecer e cientistas de todos os ramos começam a revisitar essa área de estudos com novas metodologias e com olhares frescos.

Mas também não seria nada mau que, da parte das pessoas com preocupações científicas, começassem a desaparecer também as valorações em relação ao estilo ou modo de ser das pessoas que aos diversos tipos de clima são associados. Não falta quem goste de ser taciturno e lento. E quem goste de cores tristes e sol por entre nuvens. Um professor meu costumava interromper a aula e sair de gabardine e boné de plástico quando chovia torrencialmente. Adorava deambular pela rua no meio da chuva.[59]

E há muita gente que, contra o stress da vida moderna, adora ir aos Açores e ilhar-se por uns instantes. Para não falar na grande maioria dos açorianos que gosta de ser como é. E os poetas e escritores de escrever sobre isso. Devido ao clima, à geografia ou a seja o que for que ainda ninguém sabe ao certo como é, mas que já Aristóteles procurava saber e muitos espíritos de hoje continuam interessados em indagar, quaisquer que sejam as opiniões políticas de alguns cientistas.

 

Onésimo Teotónio Almeida

“Geografia: insularidade e clima – a suposta influência do clima”

in Açores, Açorianos, Açorianidade – Um Espaço Cultural

Ponta Delgada, Signo, 1989, pp. 41-64.


 

 


[1] Heraldo G. da Silva facilitou-nos essa visão de conjunto na prosa de Nemésio. Veja-se sobretudo, no capítulo 1, as secções dedicadas ao Solo, Mar e Clima: Açorianidade na Prosa de Vitorino Nemésio (Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1985), pp. 69-144.

[2] Roberto de Mesquita, Almas Cativas e Poemas Dispersos (Lisboa: Edições Ática, 1973), p. 70.

[3] Poema «O Paço do Milhafre», no livro O Bicho Harmonioso, publicado na colectânea Vitorino Nemésio, Poesia 1935-1940 (Lisboa: Bertrand Editora, 1986), p. 130.

[4] Op. cit., pp. 137s.

[5] ld., p. 87.

[6] Antero de Quental, Sonetos (Lisboa: Sá da Costa, 1962).

[7] Idem.

[8] In Antologia de Poemas de Armando Côrtes-Rodrigues. Selecção e Prefácio de Eduíno de Jesus. Lisboa: Arquipélago, 1956, pp. 208-209.

[9] Lisboa: Editorial Império/Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1960, pp. 70-71.

[10] Pedro da Silveira, A Ilha e o Mundo, Lisboa: Centro Bibliográfico, 1953, p17.

[11] Almeida Firmino, Em Memória de Mim (Angra do Heroísmo: Edição do Autor, 1971, p. 27.

[12] S. Jorge (Cicio da Esmeralda), Lisboa: Cooperativa Semente, 1979, pp. 12 e 14.

[13] Id., p. 17.

[14] In Sempre Disse Tais Coisas Esperançado na Vulcanologia. 12 Poetas dos Açores. Organização e Notas de Emanuel Jorge Botelho, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984, p. 43.

[15] Invocação a um Poeta e Outros Poemas, Angra do Heroísmo: Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1984, p. 24.

[16] Naufrágios Inscrições, Ponta Delgada: Signo, 1987, p. 29.

[17] Id., p. 30.

[18] Álamo Oliveira, Itinerário das Gaivotas (Angra do Heroísmo: Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1982, p. 38.

[19] Angra do Heroísmo: Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1984, p. 37.

[20] Por Dentro das Viagens, Angra do Heroísmo: Edição do Autor, 1973, p. 26.

[21] ld., p. 33.
 

[22] J. H. Borges Martins, Galope em 4 Esporas, Angra do Heroísmo: Edição do Autor, 1976, p. 12. Num poema intitulado «Cardiolírica», Borges Martins definiu assim a ilha:

a ilha é um postal de névoa vegetal que os
garajaus trazem cardiografado na memória
do voo

In Vértice, nº 448, Maio/Junho, 1982, p. 381.

[23] Joseph and Henry Bullar, A Winter in the Azores; a Summer et the Baths of the Furnas, London: John Van Voorst, Paternoster Row, 1841.

[24] Publicado primeiro em edição stencil pela Cooperativa Semente, Lisboa, 1979, foi incorporado depois no volume S. Mateus, Outros Lugares e Nomes,Lisboa: Vega, 1981, p. 82.

[25] Mas o Território não é o Mapa, Angra do Heroísmo: Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1981, p. 17.

[26] Angra do Heroísmo: Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1981, p. 76.

[27] Vozes do Mar e do Vento. Antologia Poética, Lisboa, 1953, pp. 37s. Oliveira Martins, em carta a Eça de Queiroz, estabelecera já essa associação: «O nosso Antero cedeu por fim à tentação constitucional da sua vida. Morrer, era-lhe uma obsessão. Matou-o principalmente o clima enervante de S. Miguel que estonteia os mais fleumáticos. No meio desta aflição consola-me a ideia de que não morreu vítima de nenhuma dificuldade maior: nem dinheiro, nem doença, nem mulher. Nada. Matou-o a sua imaginação exarcebada pelo capacete de ozone da ilha. (In João Medina, Eça de Queiroz e o seu Tempo. Lisboa: Livros Horizonte, 1962), p. 247.

[28] Ten.-Cor. José Agostinho, «Dominantes histórico-sociais do povo açoriano», in Livro da II Semana de Estudos dos Açores, Angra do Heroísmo: lnstituto Açoriano de Cultura/Fundação C. Gulbenkian, 1963, p. 146.

[29] Id., p. 148. Para tratamentos específioos da acção de clima sobre a capacidade de trabalho, veja-se, por exemplo, S. F. Markham, Climate and the Energy of Nations (London: Oxford University Press, 1944), ou C. E. P. Brooks, Cilmate in Everyday Life (London: Ernest Benn Ltd., 1950). Recentemente estes estudos sobre as diferenças culturais em relação ao trabalho têm sido retomados com muito mais rigorosa metodologia e sem referência específica ao clima. Ver Geert Hofstede, Culture’s Consequences: International Differences in Work-Related Values. (Beverly HilIs, CA: Sage Publications, 1980).

[30] Ainda há autores recentes que aceitam a teoria. Veja-se S. F. Markham, op. cit., p. 11-20.

[31] Cfr. Jean Bodin, Method for the Easy Comprehension of History. Translated by Beatrice Reynolds, New York: Octaqon B’ooks, 1966.

[32] De Montesquieu vejam-se os Livros XVI-XVII do seu L’Ésprit des Lois, em que ele desenvolve a teoria da influência do clima sobre o comportamento e que constitui a parte mais controversa da sua obra. Cfr. ainda, entre outros, Robert Schakleton, «The Evolution of Montesquieu’s Theory, of Climate» in Revue International de Philosophie, nº 33-34 (1955), pp. 317-329 e André Merquiol, «Montesquieu et la Geographie Politique», in Revue Internationale d’Histoire Politique et Constitutionelle, 7 (1957), pp. 127-146. Um ensaio crítico particularmente informativo é o de Pierre Bourdieu, «Le Nord et le Midi: Contribution a une analyse de l’effet Montesquieu», in Actes de I Recherche en Sciences Sociales, nº 35 (1988), pp. 21-25. Uma análise mais pormenorizada juntamente com uma vasta série de interrogações a propósito deste ensaio ficará para uma ocasião futura.

[33] Estas breves notas nem pretendem ser sequer um apanhado geral das sucessivas teorias sobre o papel do clima na história humana. Não faltam livros que o fazem com minúcia. Cite-se como mero exemplo Miroslav Marsik, Natural Environment and Society in the Theory of Geographical Determinism (Praga: Universita Karlova, 1970). É uma história crítica elaborada dentro do paradigma marxista, mas que serve perfeitamente para equacionar as questões e permitir uma visão mais ou menos nítida dos parâmetros dentro de que se movem as duas correntes.
 

[34] Ellwsworth Huntington (New Haven: Yale University Press, 1915). Huntington publicou mais tarde um outro livro de texto mais rigoroso e menos abrangente mas ainda dentro das mesmas coordenadas e a partir das mesmas linhas de força do primeiro livro: Mainsprings of Civilization (New York: John Wiley and Sons, 1945). Os juízos que nos últimos anos são emitidos sobre a obra de Huntington diferem consideravelmente das rejeições radicais de há décadas atrás. Não faltam autores que vêem nessa obra «fascinante» pontos de vista que merecem ser devidamente testados. (Cfr. John E. Oliver, Climate and Man’s Environment (New York: John Wiley & Sons, 1973), p. 215.

Um outro exemplo desta série de estudos sobre a influência do clima mas sem grandes generalizações e com preocupações mais descritivas poderá ser Robert De Courcy Ward, Climate Considered in Relation to Man, 2nd edition (New York: G. P. Putman’s Sons, 1908).
 

[35] A obra tem por subtítulo Introduction Géographique à l’Histoire e a colaboração de Lionel Botaillon (Paris: La Renaissance du Livre, 1922). Em nota, L. Febvre diz ter sabido da existência do livro de Huntington (Civilization and Climate — ele cita o título ao contrário!) demasiado tarde para poder incorporá-lo nas suas análises.

Num ensaio publicado umas décadas mais tarde nos Annales, E. Le Roy Ladurie mantém a linha dura contra o método «analítico» de fazer estudos sobre a influência do clima. Ele não nega, todavia, a possibilidade dessa influência, mas sim o rigor científico e a evidência até hoje conseguida para apoiar tais generalizações. Acaba mesmo por sugerir linhas de orientação para investigações futuras («Histoire et Climat», Annales. Economies. Societés. Civilizations, 14 (1959), nº 1, pp. 3-34).

[36] New York: W. W. Norton & co., 1970.

[37] J. W. Berry «Ecological and cultural factor in spatial perceptual development», Canadian Journal of Behavioral Science, 3 (1971), p. 324.

[38] Jayantanuja Bandyopadhyana, Climate and World Order. An Inquiry into the Ntural Cause of Underdevelopment (Atlantic Highlands, N. J.: Humanities Press, 1983).

[39] Op. cit., p. 4. Existe uma vasta bibliografia sobre as diferenças culturais entre o norte e o sul atribuídas especificamente ao clima. Na Europa, a dicotomia é por vezes referida em termos de Norte e Mediterrâneo. Cfr., por exemplo, Ch. — Victor De Bonstetten, L’Homme du Midi et I’Homme du Nord (Géneve: J. J. Paschoud, lmprimeur-Librairie, 1824).

[40] Encontram-se aqui e acolá estudos como o de R. G. Nevins and J. D. Hardy, «Humidity Effects on the Confort and Well-being of People», ou P. E. Smith, Jr. and L. Brouha, «The Role of Humidity in the Evaluation of the Stress Imposed on Men Working in Hot Environments», ambos incluídos em Arnold Wexler, ed., Humidity and Moisture. Measurement and Control in Science and Industry. Vol. II. (New York: Reinhold Publishing Corp., 1963), pp. 3-11 e 12-16.

[41] Eles são: T. M. L. Wigley, M. J. lngram and G. Farmer, eds., Climate and History. Studies in Past Climates and their Impact on Man. (Cambridge: Cambridge University Press, 1981); Robert W. Kates with J. Ausubel and M. Berberian, eds. Studies of the Interaction of Climate and Society, (New York: John Willey & Sons, 1985); Robert I. Rotberg and Theodore K. Rabb, eds., Climate and History. Studies in Interdiscipllnary History (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1981); e Asit K. Biswas, ed., Climate and Development (Dublin: Tycooly International Publishing Ltd., 1984).

[42] Não é este o lugar para alistar a bibliografia destes autores. Citar-se-á apenas, por ser um bom indício, um dos estudos de J. de Vries: «Histoire du Climat et Economie: des faits nouveaux, une interpetation différent», in Annales: Économies, Societés, Civilizations, 32 (1977), pp. 198-226.

[43] H. H. Lamb, Climate and its lmpact on Human Affairs, in Wigley, et al., eds., op. cit. p. 306.

[44] Kates, et al., eds., ap. cit., p. 80. As razões da experiência pessoal do contacto com vários climas aduzidas por Bandyopadhyana que o levaram a reavaliar a questão levam-me a revelar uma suspeita que sobre este assunto há muito alimento. É que, ao ler as posições radicais de cientistas contra as teses da influência do clima no comportamento das pessoas, e que até há pouco tempo eram repetidas sem deixarem aberta qualquer hipótese de alteração futura do nosso estado de conhecimentos nessa área, interroguei-me sobre se não seria a explicação para isso o facto de esses cientistas viverem provavelmente em áreas onde o clima não lhes afecta muito o dia a dia, ou pelo menos estar controlado artificialmente com ares condicionados, desumidificadores, ou sistemas de aquecimento. Suspeitei sempre que o ambiente em que viviam deveria afectar os seus pontos de vista nessa matéria. Curiosamente encontro agora um cientista a fazer a mesma inferência num campo muitíssimo mais teórico e onde pouca gente suspeitará que tais subjectividades tenham acesso. É o Nobel da Física Freeman Dyson quem escreve: «Quando os cientistas argumentam acerca de problemas complicados e controversos, acontece frequentemente que os seus juízos técnicos são influenciados mais pela sua experiência pessoal do que por cálculos objectivos. Os argumentos acerca do inverno nuclear mostram claramente a influência do pano de fundo da mente do indivíduo. Por exemplo, Carl Sagan acredita fortemente na realidade de um inverno nuclear enquanto eu sou céptico. Ambos usamos a mesma matemática e ambos trabalhamos com as mesmas leis da física. Porque chegamos então a conclusões diferentes? Talvez essas diferenças resultem do facto de Carl Sagan ter passado uma grande parte da sua vida a estudar Marte enquanto eu passei parte da minha vivendo em Londres. A intuicão de Carl Sagan acerca do inverno nuclear está baseada na sua experiência das tempestades de poeiras marcianas. A minha intuição acerca do inverno nuclear baseia-se na minha experiência do tradicional nevoeiro de Londres. A diferença entre a tempestade de poeira marciana e o nevoeiro de Londres está em que Marte é seco e Londres molhada».

[45] Op. cit., p. 162.

[46] Informação Preambular, Notas e Bibliografia de João Afonso (Angra do Heroísmo: Instituto Açoriaro de Cultura, 1964).

[47] Op. cit., pp. 33s.

[48] Arruda Furtado, Materiaes para o Estudo Antropológico dos Povos Açorianos. Observações sobre o Povo Micaelense (Ponta Delgada: Tipografia Popular, 1884), p. 31.

[49] Op. cit., p. 37.

[50] Id., pp. 44s. As inferências livres sobre o papel do clima no comportamento humano são muito mais generalizadas do que passa à primeira vista parecer. Vejam-se, assim quase ao acaso, estas afirmações de Eça de Queiroz em carta da Inglaterra para Ramalho Ortigão: E agora que eu compreendo a profunda verdade dos livros de Taine sobre a Inglaterra — sobretudo a «História da Literatura». É o clima, é a horrível hostilidade exterior da Natureza, é o incessante descontentamento da vida física, que faz com que esta raça viva sempre dentro de si mesma e, em luigar de tomar como objecto de contemplacão e de inspiração a natureza exterior, tome a sua própria alma: daí vêm as elevações místicas do puritanismo, a ciência das paixões de Shakespeare, a violenta concepção de Dickens e o amor pelas observações psicológicas, que é o fundo desta literatura». (Newcastle, I-II-1875)

[51] Id., p. 52.

[52] Id., p. 59. Luís Ribeiro afirma também que: «Tanto, porém, a indolência e apatia da gente dos Açores, como a sua gravidade e vaga tristeza, são resultantes do meio insular, que, uma vez trocada por outra a terra natal, é profunda a transformação que nela se opera.

Na América do Norte, sobretudo na Califórnia, o açoriano que aí vive é um trabalhador diligente, infatigável, modelar. Sóbrio, económico, morigerado, não há entre os emigrantes naquele Estado outro que se lhe avantaje ou sequer se lhe compare no amanho das terras e no penso dos gados. Conserva inalteráveis as suas virtudes e costumes patriarcais; mas perde a apatia e a tristeza.» (ld., p. 37)

Ora isto é tema que daria para um outro ensaio. Se é verdade que algumas das características desapareceram com a emigração, como a mornaça; no fundo não há grandes alterações no comportamento do emigrante. (Luís Ribeiro não conhecia a situação emigrante açoriana na Califórnia). Isso tanto poderá significar que afinal esse comportamento não se devia ao clima, como que as influências do clima ao longo dos séculos bem pode ser que penetrem profundamente os hábitos das pessoas e se cristalizem em formas no sistema cultural.

[53] Ver sobre a insularidade, E. Aubert de la Rüe, L’Homme et les Illes, 10.e edition (Paris: Gallimard, 1956).

[54] Possuo ainda hoje extensas notas de uma série de palestras sobre Açores e o seu ambiente geográfico que José Agostinho proferiu, em 1963, no Seminário de Angra. As inferências que ele fazia em relação à psicologia do açoriano eram, de facto, muito poucas, ainda que nos ficasse a impressão do que ele tinha ideias relativamente claras sobre o assunto, embora a sua preocupação de objectividade científica o impedissem de expressá-las. Mas recordo-me perfeitamente de uma certa atitude de desapontamento da parte de alguns ouvintes pelo facto de ele não se arrojar em incursões, ainda que especulativas, sobre a psicologia do açoriano e o papel do clima na sua formação.

[55] O geógrafo açoriano João de Medeiros Constância, ao apresentar um conjunto de estatísticas sobre as diferenças de humidade entre a costa norte e a costa sul da ilha de S. Miguel, comenta: «Verifica-se, porém, que a população, mesmo sem o conhecimento de estatísticas, tem consciência de que o clima do lado norte é mais seco e estimulante do que o do sul». («Quadro físico dos Açores», in Boletim do Centro de Estudos Geográficas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, vol. II (1960) nº 18, 1.

Recordo-me do impacto que sobre mim teve, pelos meus nove ou dez anos, ler numa revista uma reportagem de uma excursão aos Açores de alunos do um colégio continental. Na capa, vinha um título: «Muito chove em S. Miguel!» Eu nunca me havia apercebido disso, certamente por não possuir outro termo de comparação. Mas isso não pode ser usado como argumento contra a influência do clima. Recordo-me de sentir os efeitos da humidade muito antes de ler Luís Ribeiro e de saber que nos Açores as condições climatéricas, para além dos terramotos e da chuva, eram muito especiais. Nos meus anos juvenis, ao sentir os efeitos da pressão atmosférica de mistura com a humidade e a baixíssima abóbada cinzenta com nevoeiro a roçar nos cabelos, também escrevi versos a falar disso. Mas o respeito pela poesia impede-me de publicá-los ou de sequer apenas citá-los aqui.

[56] Um apanhado sucinto mas esclarecedor, para quem não quiser ir mais longe, poderá ser a antologia organizada por J. Gómez Mendoza, J. Munõz Jiménez, e N. Ortega Cntero, El Pensamiento Geográfico. Estudio lnterpretativo y Antologia de Textos (De Humbolt a las tendencias radicales) (Madrid: Alianza Editorial, 1982).

 

[57] Não é necessário ir-se muito longe para se exemplificar esta afirmação. O nosso Orlando Ribeiro foi bem explícito ao escrever: «Ao invés do que pretende a ilusão determinista, é o destino humano que modela a fisionomia das regiões e que lhe confere a sua personalidade geográfica.» (In Ensaios de Geografia Humana e Regional, Lisboa, 1970, excerto antologiado em C. Coelho Ferreira e N. Neves Simões, A Evolução do Pensamento Geográfico, Lisboa, Gradiva, 1986, p. 125).

Curiosamente, o mesmo Orlando Ribeiro, ao falar da Cordilheira Central e do rio Mondego como elemento geográfico divisório das regiões norte-sul do país, compara essas regiões e interroga-se: «Contraste de civilização, contraste de clima e de paisagens. Não será a similitude de ambiente, de ambos os lados do estreito de Gibraltar, que, de certo modo, explique por que os mouros cedo abandonaram a Galiza e os confins do Douro e se agarraram tenazmento ao rincão meridional?» (Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Esboço de Relações Geográficas. 5ª Edição revista e ampliada. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1987, p. 57).

Suponho ser legítimo perguntar-se se os mouros terão «livremente» escolhido a região mediterrânica, ou se estariam condicionados a escolhê-la por milhares de anos de habituação a climas do Norte de África. Eis a razão por que esta velha disputa, sobre a influência geográfica (e sobretudo climática) parece não poder sair do modelo paradigmático consignado na antiquíssima história da prioridade do ovo ou da galinha.

Em Antrapologia, esta questão é hoje debatidíssima em termos de adaptabilidade. Um já clássico texto é o de Roy Rappaport, Pigs for the Ancestors (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1968), Uma perspectiva geral da problemática encarada por essa perspectiva, poderá encontrar-se em Emílio F. Moran, Human Adaptability. An Introduction to Ecological Anthropology (Boulder, Cobrado: Westview Press, 1979). Mas as questões de fundo hoje ainda são as mesmas já apontadas de há muito desde que se iniciou o debate.

[58] Ver, por exemplo, a obra de Harold and Margaret Sprout, The Ecological Perspective on Human Atfairs — With Specíal Reference to International Politics (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1965).

[59] Noutros lugares escrevi sobre o turismo açoriano possível. As especialíssimas condições climatéricas das ilhas, se lhes enriquecem a beleza paisagística e os espectáculos de cor capazes de assombrar espíritos sensíveis, como Raul Brandão, não são necessariamente o lugar preferido para o turista do sol e praia azul. (Cfr. L(USA)lândia — a 10ª Ilha (Angra do Heroísmo: Direcção dos Serviços de Emigração/Secretaria de Assuntos Sociais, 1987, pp. 275-277) e «A tripla Faial-Pico-S. Jorge e o turismo possível açoriano», Correio dos Açores, 9/11/88.

 

 

 

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