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O HOMEM AÇORIANO É UM MITO

E A EXPRESSÃO «LITERATURA AÇORIANA» É UM EQUÍVOCO

 

Cristóvão de Aguiar (1979)

 

 

 

 

S & E — Você acredita numa literatura açoriana?

C. A. — Acho que a expressão «literatura açoriana» é um equívoco. Desde lhe digo que prefiro o termo «literatura portuguesa de expressão açoriana», ou «de ambiência açoriana». Não acredito numa «literatura açoriana» quando esta nos é proposta como uma literatura amadurecida, independente e original em contraposição a uma literatura portuguesa. Não acredito, porquanto essa literatura não é possível nos Açores, como não é no Minho ou no Algarve. Para que essa literatura fosse possível deveria haver uma história açoriana própria (que não existe), e uma unidade do espírito açoriano que creio não poder vir a existir. Do mesmo modo e, consequentemente, o homem açoriano não existe. Há quem acredite, mas eu não perfilho dessa ideia, que foram criadas as condições necessárias para o seu surgimento e que o homem açoriano se revelará através de uma literatura própria, num futuro próximo. Assiste-se hoje, nos Açores a grandes transformações sociais, culturais e económicas e acredito que tudo isso possa vir a reflectir-se, a seu tempo, no futuro dos Açores mas, não sou profeta, e o que posso dizer é que o que hoje podemos ter é uma literatura de expressão açoriana, que agora desponta e que faz parte integrante da literatura portuguesa. Mesmo assim, terão de ser criadas condições para que se revelem nos Açores os valores humanos necessários e capazes de construírem essa literatura. Uma literatura não se fabrica. poderá haver uma literatura de expressão açoriana quando esta for uma literatura que se recrie a si própria, projectando-se universalmente. Com a excepção de um Vitorino Nemésio, um dos grandes romancistas portugueses, não vejo que os Açores tenham produzido esse tipo de literatura e, um escritor por si não constitui uma literatura. Claro que temos um Antero de Quental, mas esse foi um escritor universal em toda a dimensão da palavra. Antero de Quental não se preocupou em recriar a realidade dos Açores na sua obra e, mesmo que se tivesse preocupado, dar-lhe-ia uma dimensão universal. Hoje, corremos, antes, o risco de limitar a literatura escrita nos Açores a um regionalismo estreito, sem qualquer impacto na literatura portuguesa, quanto mais, na literatura universal. necessário haver uma distanciação entre o escritor e o objecto da sua criação literária para que o escritor possa dar a verdadeira dimensão à realidade que ele recria. Aqueles que conseguiram dar expressão universal às suas obras de ambiência açoriana foram escritores que transcenderam os acanhados limites das Ilhas, saindo delas. Vitorino Nemésio nunca teria escrito Mau Tempo no Canal se nunca tivesse saído da Ilha Terceira. Apenas um escritor conseguiu ser grande dentro da sua ilha — Roberto Mesquita — e, mesmo assim, temos de concluir que ele é mais um grande poeta simbolista da literatura portuguesa.

Será que Camilo Pessanha, pelo facto de ter escrito a sua obra em Macau, criou uma literatura macaísta? E as Ilhas Desconhecidas de Raul Brandão serão do mesmo modo pertencentes a uma literatura açoriana? Não estaremos a enganarmo-nos a nós próprios, e a lançar confusão em certos espíritos, ao pretendermos lançar os alicerces de uma literatura distinta, quando o destino do povo dos Açores tem sido comum ao do Continente, quer histórica, cultural e religiosamente?

S & E — Você não acreditaria, então, numa literatura açoriana possível?

C. A. — Continuo a preferir o termo «literatura portuguesa de expressão açoriana» devido aos equívocos de que falei. Neste sentido, acho que ela é possível e até desejável, porquanto vem enriquecer o grande todo que é a literatura portuguesa. Nesta ordem de ideias, nada pode impedir que ela cresça mas, antes de tudo é preciso que ela apareça e isso apenas aconteceu episodicamente. Presentemente, não conheço ninguém, ficcionista ou poeta açoriano (que viva nos Açores) que seja o continuador de um Vitorino Nemésio. Há uma grande crise de valores literários nos Açores e corre-se mesmo o risco de, no futuro, Nemésio, como escritor de ambiência açoriana, vir a ser apontado como um caso único e isolado na literatura portuguesa, o que não lhe retira em nada a posição cimeira que ele alcançou dentro da literatura portuguesa... Mau tempo no Canal é um romance açoriano apenas porque a sua acção se desenrolou nas Ilhas. As personagens, essas podem enfileirar na galeria das personagens universais. É isso que confere ao romance aquela fundura que o torna um dos grandes livros da literatura portuguesa, projectado além-fronteiras. A prova mais cabal de que a «literatura açoriana» não existe, como estatuto próprio e independente, é a obra antológica de poesia dita açoriana, compilada por Pedro da Silveira. Apesar de um prefácio polémico, raiando muitas vezes pelos limites da impertinência, Pedro da Silveira veio provar-nos exactamente o contrário daquilo que pretendia. Basta ler o livro com atenção. A realidade transmontana é também muito diferente da realidade das Beiras e, no entanto, Miguel Torga e Aquilino Ribeiro não são representantes de duas literaturas distintas. São, pelo contrário, dois escritores da literatura portuguesa, com modos e estilos diferentes de interpretar a realidade. É essa diversidade que confere unidade à literatura portuguesa, cuja língua, embora com pequenas variantes, é entendida por todos. Os Açores, na minha modesta opinião, são também uma parte desse todo. Embora com características próprias. Ou talvez por isso. As raízes da cultura são as mesmas. Tudo foi levado do Continente. Naturalmente que em contacto com a realidade das Ilhas se acentuaram certas características e se desenvolveram outras. De Ilha para Ilha diferentes. Nove Ilhas, nove realidades. O homem açoriano é um mito. Há, sim, o micaelense, o terceirense, o faialense e por fora, até se esgotarem as nove contas do rosário. Embora a realidade nos Açores seja actualmente muito diferente da de há alguns anos atrás, não vejo que o caminho seguido pelas novas instituições esteja a ser percorrido no sentido de uma unidade. A prova do que acabo de dizer está no Instituto Universitário fragmentado pelas três Ilhas mais importantes, e no próprio Governo Regional, espécie de corte ambulante da Idade Média, que percorre as ilhas, para se reunir aqui e ali, tentando dar, deste modo uma unidade que não existe e creio que não existirá jamais.

 

(entrevista conduzida por Carolina Matos, Suplemento «Ser & Estar», nº 1, Portuguese Times, 9-8-1979)

 

 

 

 

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1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/
acores/acorianidade_aguiar_1979.htm, 2008.
2.ª edição:
http://lusofonia.x10.mx//acores/acorianidade_aguiar_1979.htm, 2016.