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“Nas segunda e terceira décadas do século XX, o movimento regionalista açoriano alarga o âmbito do debate sobre as realidades políticas, económicas, sociais.”
 

 

Quadro histórico da identidade cultural açoriana
segundo o professor doutor Carlos Cordeiro

 

A contestação ao centralismo e o projecto de "introspecção açoriana" são dois dos temas abordados nesta análise histórica.

 

 

Por meados do século XIX, cresce, nos Açores, a contestação ao centralismo do Terreiro do Paço e a ideia de tratamento desigual da população açoriana relativamente à continental. Ocorreram mesmo alterações da ordem pública, com alguns episódios a assumir significativos níveis de violência. Ora, esta "noção ressentida da diferença" conduziria, na última década do século, à campanha autonomista, que culminaria no Decreto descentralizador de 2 de Março de 1895.

Entretanto, o discurso autonomista foi sendo aperfeiçoado e aprofundado. O seu carácter negativo, ou seja, a fundamentação com base, sobretudo, na ideia de tratamento desigual e injusto da população açoriana relativamente à do Continente, foi sendo, então, acompanhada e enriquecida por argumentos colhidos na Filosofia Política e no Direito Comparado, mas também por alegações que já apelam às noções de "insularismo" e de identidade.

Esta identidade, ou a emergência de "interesses, tradições, costumes, aspirações próprias e peculiares", como a definia Aristides Moreira da Mota, exigia tradução num sistema político administrativo autónomo, consubstanciado na palavra de ordem "livre administração dos Açores pelos açorianos". Os autonomistas defendiam que a descentralização garantiria o reforço da unidade nacional, a igualdade entre todos os cidadãos portugueses e o desenvolvimento sustentado do arquipélago.

E se, naturalmente, eram as questões de natureza pragmática que concitavam as atenções gerais, não deixa também de ser significativo o facto de o movimento autonomista ter sido acompanhado por debates culturais, nomeadamente sobre a problemática da literatura açoriana.

Armando da Silva, ainda que reconhecesse que os Açores não possuíam uma literatura "propriamente sua", porque lhes "faltava ainda o indispensável vínculo moral de um espírito nacional", não deixava de defender a importância da literatura no processo identificador dos povos, considerando que via já, no caso dos Açores, alguns indícios de que a literatura enveredaria pela caracterização social e histórica do povo açoriano.

Nas segunda e terceira décadas do século XX, o movimento regionalista açoriano alarga o âmbito do debate sobre as realidades políticas, económicas, sociais e, dum modo muito especial, culturais insulares. Encetava-se, no fundo, um projecto de "introspecção açoriana", que envolveu intelectuais, políticos, jornalistas, empresários, elementos do clero, entre outros, que almejavam a "construção" de uma verdadeira consciência açoriana, entendida, em linhas gerais, como a substituição dos interesses particularistas de cada uma das ilhas pelos valores da unidade e solidariedade açorianas.

Com efeito, a ideia de realização de um congresso açoriano é retomada periodicamente, no seguimento de um primeiro projecto lançado pelo jornal A Persuasão, em 1881, que espelhava a necessidade de estudo e reflexão sobre o clima de crise económica e social que assolava a sociedade açoriana da época. Em 1908, como em 1912 13, 1916, ou 1920 1921, alarga se o âmbito dos temas a debater, com uma preocupação sempre presente: a da construção da unidade e solidariedade açorianas.

Assim, para Luís Ribeiro - que relançara, em 1920, a ideia da reunião de um congresso açoriano -, a unidade do povo açoriano, ou, ao menos, a aproximação das populações das diversas ilhas, seria atingida através do estreitamento dos afectos mas, sobretudo, pela actuação sobre os interesses. Só assim o "espírito açoriano" seria duradoiro. Havia, pois, que estudar o modo de defender os interesses comuns a todas as ilhas. Criticava fortemente a tendência para a monocultura e defendia, ao invés, a diversificação da produção, com vista a poder responder-se às exigências ao mercado regional. Na sua perspectiva, a unidade açoriana propiciaria a possibilidade de os Açores virem a influenciar a construção das grandes opções nacionais e internacionais. Isto passava pela prévia construção de um verdadeiro "espírito colectivo", quanto mais não fosse, por uma questão de "consciente solidariedade" entre as populações das diversas ilhas.

Em todo este movimento regionalista avulta, como se referiu, o interesse pelas questões culturais, enquanto elementos fundamentais de definição da identidade açoriana. É neste contexto que se pode compreender a passagem do discurso impressionista de exaltação das qualidades particulares do povo açoriano, à defesa da urgência do estudo e preservação dos traços fundamentais da cultura popular, pois só assim seria possível definir e fundamentar a verdadeira alma açoriana.

Seguindo, aliás, a tendência geral europeia, segundo a qual a essência profunda da identidade nacional se encontraria na cultura popular, e inserindo-se no contexto do desenvolvimento dos estudos etnográficos que se verificava a nível nacional, intelectuais, políticos e jornalistas açorianos sobrelevam a importância do isolamento insular como dique de contenção da "onda desnacionalizadora" que se estaria a verificar no País.

A "questão da literatura açoriana", ainda que provinda já de finais do século XIX, assume, nessa década de '20 do século XX, grande destaque no debate cultural, na medida em que os regionalistas a concebiam como instrumento essencial de divulgação dos valores dessa alma do povo açoriano, muito mais do que simples repertório da paisagem ou descritiva dos costumes açorianos. Luís Ribeiro, por exemplo, apresenta uma visão dupla do modo de conceber a "arte regionalista". De um lado, o modo "objectivo": a paisagem, os costumes, os trajes das ilhas. Do outro, o "subjectivo", ou seja, a interpretação artística da "psicologia popular" e da "alma açoriana". A verdadeira literatura açoriana seria aquela que expressasse equilibradamente estas duas vertentes da realidade insular. Ora, isso exigia a convivência constante do escritor com o povo e um grande poder de observação, de modo a compreender os sentimentos do povo e a expressá- los literariamente.

O reconhecimento da identidade açoriana, ainda que essencial, não garantiria, todavia, um futuro de desenvolvimento harmónico dos Açores. Isto implicava a "construção" de uma verdadeira consciência açoriana que substituísse ao particularismo a defesa da unidade do Arquipélago; aos interesses de cada ilha a prática da solidariedade interinsular; às rivalidades ancestrais a confraternidade açoriana.

Compreende-se, assim, a primazia conferida a iniciativas que contribuíssem para o estreitamento dos laços afectivos que deviam unir os açorianos das nove ilhas. Aqui se enquadra o movimento da confraternidade açoriana, provindo já de finais do século XIX. Intercâmbios desportivos, visitas turísticas, embaixadas culturais enquadravam se num esquema geral de actuação a favor da unidade e solidariedade açorianas - "a convivência que conduz ao conhecimento, o conhecimento que impele à amizade, a amizade que leva à união e a união que [...] trará a força", como referia, em 1924, um jornal faialense. Assim, os regionalistas viam este tipo de actividades não como um fim, mas como instrumentos eficazes de reforço da unidade açoriana, condição essencial para o desenvolvimento das ilhas e melhoria das condições de vida da sua população. Procurava-se, pois, esbater rivalidades de toda a ordem que entravavam a conjugação de esforços de elementos de elites políticas, culturais e empresariais de diversas ilhas, visando o desenvolvimento integral dos Açores.

Isto só seria possível se a população passasse a conceber os Açores como "expressão duma identidade ou comunidade de interesses e sentimentos" - nas palavras de José Bruno Carreiro - e não só como unidade geográfica. Neste sentido, não deixa também de se salientar a importância das questões económicas.

Ainda nos anos '20, o jornal Correio dos Açores conjugava nas suas colunas o vigor da reivindicação administrativa com a divulgação de temas ligados à cultura e à questão da identidade açoriana, da autoria de alguns dos mais destacados intelectuais da época.

O regionalismo, inserindo-se num vasto movimento que remete para as ideologias nacionalistas, procura desenvolver na sociedade açoriana um tipo de comportamento, uma espécie de "visão do mundo", assentes na ideia base "a região em primeiro lugar".

Nesta perspectiva, o regionalismo procura abarcar todas as vertentes da vivência açoriana, ao nível social, etnocultural, económico, político, propondo a "introspecção" como condição essencial para "regeneração" da sociedade açoriana. As propostas em torno da realização do Congresso Açoriano, que percorrem os anos '10 e '20, mas cuja concretização só se verificou em Lisboa, em 1938, são bem o exemplo desse afã em busca do autoconhecimento da sociedade insular para a construção da unidade e solidariedade açorianas. E se a Conferência Insular Açoriana de 1954 foi uma iniciativa oficial que reuniu as principais autoridades insulares, chefias da administração pública, representantes de instituições assistenciais, das actividades económicas, bem como jornalistas e intelectuais, a fim de discutirem problemas de interesse comum aos três distritos e de contribuírem para a afirmação da unidade açoriana, o certo é que foi o movimento das semanas de estudo da década de Sessenta do século passado, iniciativa do IAC, o principal exemplo deste modelo de "introspecção", com os seus lemas mais saber para melhor viver, somos responsáveis e conhecer para agir.

Ora, estes anseios, estes debates de ideias teriam, com os primeiros governos regionais, a sua tradução prática na política de "desenvolvimento harmónico dos Açores", em que a Cultura, nas suas variadas manifestações, era entendida como cimento da unidade e expressão da identidade açorianas.

CARLOS CORDEIRO
Docente na Universidade dos Açores

26 de Setembro de 2008
http://www.expressodasnove.pt/interiores.php?id=2762

 

 

 

 

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1.ª edição: http://literaturaacoriana.com.sapo.pt/CarlosCordeiro2008.09.26.htm (2008)
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