José Carreiro
 aguiarcarreiro@gmail.com
 

lusofonia plataforma de apoio ao estudo da língua portuguesa no mundo

 

LITERATURA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

 

Índice

Introdução à Literatura de São Tomé e Príncipe
Nota sobre a Literatura Santomense
A poesia de Francisco José Tenreiro

 

 

 

INTRODUÇÃO À LITERATURA DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

 Manuel Ferreira 

 

     A evolução social de São Tomé e Príncipe teria sido paralela, em muitos aspectos, à de Cabo Verde. Mas, em meados do século XIX, implantando-se o sistema de monocultura, a burguesia negra e mestiça vai ser violentamente substituída pelos monopólios portugueses, o processo social do Arquipélago alterado e travada a miscigenação étnica e cultural. Mesmo assim, não podem deixar de ser considerados os efeitos do contacto de culturas. A sua poesia, de um modo geral, exprime exactamente isso; mas, na essência, é genuinamente africana. A primeira obra literária de que se tem conhecimento relacionada com S. Tomé e Príncipe é o modesto livrinho de poemas Equatoriaes (1896) do português António Almada Negreiros (1868-1939), que ali viveu muitos anos e terminou por falecer em França. A última é a de um moderno poeta português, crítico, e professor universitário em Cardiff, Alexandre Pinheiro Torres, cujo título, A Terra de meu pai (1972), nos fornece uma pista: memorialismo bebido na ilha, por artes superiores de criação literária metamorfoseada na ilha «que todos éramos neste país solitário». Sem uma revista literária, sem uma actividade cultural própria, sem uma imprensa significativa, apesar do seu primeiro periódico, O Equador, ter sido fundado em 1869, com uma escolaridade mais do que carencial os reduzidos quadros literários do Arquipélago naturalmente em Portugal encontraram o ambiente propício à revelação das suas potencialidades criadoras. O primeiro caso acontece logo nos fins do século XIX com Caetano da Costa Alegre (1864-1890), (Versos, 1916) cuja obra foi deixada inédita desde o século passado. Cabe aqui, todavia, uma referência particular ao teatro a que poderemos chamar «popular», pelas características e relevância que assume no arquipélago de S. Tomé e Príncipe. Trata-se, em especial, de duas peças: O tchiloli ou A tragédia do Marquês de Mântua e de Carloto Magno e do Auto de Floripes, mas com preferência para a primeira. A segunda oriunda da tradição popular portuguesa; e O tchiloli supõe-se ser o auto do dramaturgo português do século XVI, de origem madeirense, Baltasar Dias, levado, tudo leva a crer, pelos colonos medeirenses na época da ocupação e povoamento. Reapropriados pela população de S. Tomé (e do Príncipe) estão profundamente institucionalizados no Arquipélago, principalmente O tchiloli mercê da actuação de vários grupos teatrais populares que, continuadamente, se dão à sua representação, enriquecida por uma readaptação do texto e encenação, cenografia e ilustração musical notáveis.

Parece ter sido um homem infeliz, em Lisboa, o autor de Versos, Costa Alegre:

Tu tens horror de mim, bem sei, Aurora,
Tu
és dia, eu sou a noite espessa

     «Aurora» aqui é um ente humano e não um fenómeno cósmico. A ambiguidade resolve-se na leitura completa do poema. Caetano da Costa Alegre utiliza este signo polissémico com a intenção, ao cabo, de ele traduzir a cor branca:

És a luz, eu a sombra pavorosa,
Eu sou a tua antítese frisante.

     A poesia de Caetano da Costa Alegre, na quase totalidade, funciona espartilhada num mecanismo antitético. Exprime a situação desencantada do homem negro numa cidade europeia, neste caso Lisboa. Versos é, porventura, a mais acabada confissão que se conhece, quiçá mesmo nas outras literaturas africanas de expressão europeia, do negro alienado. Costa Alegre, não se dando conta (impossível, diríamos, no século XIX e no tempo cultural e político da área lusófona) das contradições que o bloqueavam, faz-se cativo da sua condição de humilhado:

A minha côr é negra,
Indica luto e pena;
És luz, que nos alegra,
A tua côr morena.
É negra a minha raça,
A tua raça é branca,
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Todo eu sou um defeito

     Como tenta Costa Alegre desbloquear-se desta situação? Porque «negra» é a sua «raça», «todo» ele é um «defeito». Como pode ele reencontrar o seu equilíbrio psíquico? Alienado, in-consciencializado, batido no deserto social em que se movimenta, então cura libertar-se através de uma compensação. Revoltando-se? Clamando contra a injustiça que o atinge? Não. Contrapondo atributos morais. «Ah! pálida mulher, se tu és bela, [...] Ama o belo também nesta aparência!». Amiúde as relacionações antinómicas vai buscá-las ao Cosmo:

« explendor por fóra,
trevas é no centro!
Ó Sol, és meu inverso:
Negro por fóra, eu tenho amor dentro»

     Com efeito, a sua poesia é a de um homem infelicitado. Amiúde recorrendo à comparação e à antítese, as figuras mais pertinentes são as que significam ou simbolizam as cores «negro» e «branco». Da erosão da sua alma transita para a obsessão infeliz, lutando por restabelecer a sua dignidade no refúgio do apelo à evidência moralizante, por norma em poemas lírico-sentimentais ou de amor. Versos fica como o primeiro e único texto onde o problema da cor da pele actua como motivo e de uma forma obsessivamente dramática. Consideramo-lo o caso mais evidente de negrismo da literatura africana de expressão portuguesa. Alguns autores angolanos coevos de Costa Alegre deram também uma contribuição para este fenómeno, mas percorrendo um espaço menos significativo.

 

 A LÍRICA

 Em capítulo anterior assinalámos que Caetano da Costa Alegre, poeta oitocentista são-tomense, fora o primeiro, em todo o espaço africano de língua portuguesa, a dar ao tópico da cor um tratamento poético, embora numa visão marcadamente alienatória, constituindo-se como produtor de uma expressão de negrismo. Curiosamente é também são-tomense o poeta que primeiro, em língua portuguesa, chamou a si a expressão da negritude. Trata-se de Francisco José Tenreiro (1921-1966), que irá assumir uma posição inversa à de Costa Alegre. Desalienado, liberto dos mitos da inferioridade social, identifica-se com a dor do homem negro e repõe-no no quadro que lhe cabe da sabedoria universal:

Mãos, mãos negras que em vós estou sentido!
Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a rosa-dos-ventos
mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens
beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbila que é o mesmo
dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.

     A sua voz é a voz real do homem africano, uma voz que vem das origens e ressoa no tempo: «cantando: nós não nascemos num dia sem sol!», e vamos com essa raça humilhada percorrendo a «estrada da escravatura», mas entretanto iluminada por «um rio» que «vem correndo e cantando/desde St. Louis e Mississipi.» (Obra poética de Francisco José Tenreiro, 1967, p. 100).

     Poeta bivalente («Nasci do negro e do branco/e quem olhar para mimcomo que se olhasse/para um tabuleiro de xadrez») na sua vocação para exprimir o mulato, que ele era, e o negro, que ele era, fundindo-se assim no poeta africano que ele foi, guinda-se à categoria de poeta da negritude de expressão portuguesa, e tão lucidamente que o surto da literatura angolana e moçambicana, que se impôs a partir de cinquenta, e muito lhe deve, o não teria ultrapassado na pertinência e na genuinidade dos temas.

     Interessante notar que a estrutura externa da poesia de F. J. Tenreiro adquire características diferentes, consoante a substância manipulada: poemas longos de longos versos para a negritude, poemas curtos de curtos versos enquanto poeta mestiço:

Dona Jóia dona
dona de lindo nome;
tem um piano alemão
desafinando de calor.

     Ou então:

De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas de Guillén
de coração em África com a impetuosidade viril de I too am American
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
de coração em África contigo amigo Joaquim quando em versos incendiários
cantaste a África distante do Congo da minha saudade do Congo de coração em África

     Há uma distância solar, como se , entre a humilhação da Costa Alegre e a glorificação dos valores culturais africanos por parte de Francisco Tenreiro que obviamente corresponde à amplitude consciencializadora que vai do século XIX ao século XX.

     O discurso de Alda do Espírito Santo descreve-se entre o relato quotidiano da ilha, impregnado de alusões simbólicas de esperança, ou do registo de anseios de transparência política: «uma história bela para os homens de todas as terras/ciciando em coro, canções melodiosas/numa toada universal» 08 até ao clamor da revolta de um povo oprimido como em «Onde estão os homens caçados neste vento de loucura»:

Que fizeste do meu povo?...
Que respondeis?...
Onde está o meu povo?...
E eu respondo no silêncio
das vozes erguidas
clamando justiça...
Um a um, todos em fila...
Para vós, carrascos,
o perdão não tem nome.

     O mesmo clamor da revolta percorre o discurso de Maria Manuela Margarido:

A noite sangra
no mato,
ferida por uma lança
de cólera.

     A cólera. A revolta. Duas constantes que, associadas ao movimento dialéctico da vida que tudo destrói e reconstrói, trazem a esperança: «Na beira do mar, nas águas,/estão acesas a esperança/o movimento/a revolta/do homem social, do homem integral», e é ainda o verbo de Maria Manuela Margarido. Daí a certeza inscrita no devir histórico:

No céu perpassa a angústia austera
da revolta
com suas garras suas ânsias suas certezas.

     Em meio da denúncia (do «cheiro da morte»), da acusaçãoeu te pergunto, Europa, eu te pergunto: AGORA?») perpassa a certeza. Ou a esperança. Não mera esperança idealista. A esperança concretizada na dialéctica do real. Tomaz Medeiros:

Amanhã,
Quando as chuvas caírem,
Nos braços das árvores,
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Irei
Desafiar os mais trágicos destinos
à campa de Nhana, ressuscitar o meu amor.
Irei.

     Poesia vinculada à sedimentação de uma consciência anticolonialista, mais do que a fala de cada poeta ela se consubstancia na voz colectiva do homem são-tomense. Mas não poesia de signos, de símbolos, de imagística protestatária, aliás de descodificação facilitada. Não poesia de anunciação e assunção. Não . Poesia tocada pelo afago lírico das coisas da «Ilha Verde, rubra de sangue». As «palmeiras e cacoeiros», «o aroma dos mamoeiros», o «cajueiro»; as «modinhas da terra», os «murmúrios doces dos silêncios», «as canoas balouçando no mar», o «sòcòpé», os deuses e os mitos, «orações dos ocás», os «cazumbis»

     Por derradeiro, Marcelo Veiga. Numa ordem cronológica Marcelo Veiga (1892-1976) deveria ter sido considerado logo após Costa Alegre. Marcelo Veiga, pequeno proprietário da ilha do Príncipe, estudou no liceu em Lisboa, aqui viveu por períodos intermitentes, foi amigo de Almada-Negreiros, Mário Eloy, Mário Domingues, José Monteiro de Castro, Hernâni Cidade. Passou despercebido até ao momento em que Alfredo Margarido o incluiu na antologia por ele organizada e publicada, da Casa dos Estudantes do Império, Poetas de S. Tomé e Príncipe (1963). Ultimamente obtivemos alguns poemas seus, inéditos, datados a partir de 1920, cedidos pelo poeta, pouco antes de falecer na sua ilha. Ele dá, assim, antes de F. J. Tenreiro, o sinal do «regresso do homem negro», o sinal da negritude não em S. Tomé e Príncipe como em toda a área africana da língua portuguesa: «África não é terra de ninguém,/De qualquer que sabe de onde vem, [...] A África é nossa!/É nossa! é nossa!».

     Eis, nítida e insofismável, a consciência da revolta:

Filhos! a ! a ! que é manhã!’
Esta África em que quem quer dá co’o
Esta negra África escarumba, olé!
Não a q’eremos mais sob o jugo de alguém,
Ela é nossa mãe!

     Irónico, mordaz, a língua destravada e rebelde, associada ao veneno lúcido da desafronta:

Sou preto o que ninguém escuta;
O que não tem socorro;
O – olá, tu rapaz!
O – ó meu merda! Ó cachorro!
O – ó seu filho da puta!
E outros mimos mais...

Ou

O preto é bola,
É pim-pam-pum!
Vem um:
Zás! na cachola...
Outro um chut – bum!

     A terminar, diríamos que a poesia de S. Tomé e Príncipe constitui uma expressão africana mais uniforme do que a de Moçambique ou mesmo de Angola, ainda considerando a franja de mestiçagem que a percorre. Construída apenas por negros ou mestiços, este punhado de poetas baliza a área temática no centro do universo da(s) sua(s) ilha(s) e organiza um signo cuja polissemia é de uma África violentada, inchada de cólera, a esperança feita revolta.

 

A NARRATIVA

 Modestíssima, quantitativa e qualitativamente, é a narrativa de S. Tomé e Príncipe. As esporádicas experiências de Viana de Almeida (Maiá Pòçon, contos, 1937) e de Mário Domingues. (O menino entre gigantes, 1960) não chegam a ser uma contribuição relevante. O primeiro, nesse tempo, prejudicado ainda por um ponto de vista subsidiário de uma época colonial; o segundo (também natural de S. Tomé e Príncipe, mas tornado escritor português pela obra e pela radicação) talvez pela carência da dramatização da personagem principal, o mulato Zezinho, nado e criado em Lisboa. De acaso teria sido o conto «Os sapatos da irmã», sem qualquer relação com S. Tomé, que Francisco José Tenreiro, em 1962, publicou na colectânea Modernos Autores Portugueses (Lisboa). Acidentais ainda, mas com uma visão ajustada a um real africano, foram também as experiências de Alves Preto, limitada, cremos, a dois contos: «Um homem igual a tantos» e «Aconteceu no morro». E ainda o caso de Sum Marky (i. e. José Ferreira Marques), branco nascido em S. Tomé, autor de vários romances, de importância discutível, alguns no entanto parcialmente com interesse, valendo citar Vila flogá, 1963, como testemunho acusatório da exploração colonialista.

  

A EXPRESSÃO EM CRIOULO

 Não obstante ser bilingue, visto que a população utiliza, além da língua portuguesa, o crioulo de S. Tomé, a criação literária é reduzida em dialecto, domínio que a tradição oral vem monopolizando com substancial interesse. Praticamente conheciam-se as composições poéticas de Francisco Stockler e uma experiência de Tomaz Medeiros. No entanto, após a independência nacional, parece haver sintomas de uma revitalização no uso literário do crioulo, ao nível popular, pelo menos a partir de agrupamentos musicais. Exemplo são os casos dos caderninhos de Sangazuza e o caderno do Agrupamento da Ilha, 1976, compostos de músicas revolucionárias e, de um modo geral, vertidos em rumbas, sambas, marchas, valsas, boleros e sòcòpés.

Literaturas africanas de expressão portuguesa - 1 , Manuel Ferreira
ICALP - Colecção Biblioteca Breve - Volume 6, 1977

 

NOTA SOBRE A LITERATURA SANTOMENSE 

A literatura são-tomense mergulha as suas raízes no século XIX – princípios do séc. XX, com a tradição do jornalismo praticado pela elite dos filhos-da-terra, na imprensa (revistas, jornais e boletins de associações), de que era proprietária e de que se destacam O Africano, A Voz d’África, O Negro, A Verdade, O Correio d’África, entre outros. Esses periódicos, de carácter não oficial e não governamental, que publicavam poemas dispersos dos colaboradores, eram dimensionados numa matriz pré-nacional(ista), indiciando uma consciência unitária e libertária. desenvolveram-se polémicas sobre a dignificação e instrução das populações nativas, sobre o abuso do poder, violência contra o negro e sobre a questão das terras expropriadas aos nativos durante a época da introdução das culturas do cacau e do café e consequente instauração das estruturas coloniais, preparando as condições para a segunda colonização, baseada na monocultura daqueles produtos que era praticada em unidades (sócio-)económicas denominadas roças. […]

Mas se a poesia de Caetano da Costa Alegre indicia um certo negrismo literário, configurador da etnicidade que marcará a literatura africana de língua portuguesa, será com Marcelo da Veiga que essa hesitante nomeação da diferença vai construindo um discurso de identidade pela exibição da cor, usos e costumes como diferenciadores étnico-culturais, pela memória vivencial, pela citação das figuras históricas que povoam o imaginário colectivo e pela colectivização da voz contestatária na primeira metade do século XX. […] A veemência do discurso de identidade de Marcelo da Veiga é tão forte que terá levado Manuel Ferreira a considerá-lo como “o mais longínquo pioneiro de autêntica poesia africana de expressão portuguesa; podíamos mesmo adiantar da negritude”. […]

É pacífica a ideia de que os fundamentos irrecusáveis da literatura são-tomense começam a definir-se com precisão em 1942, com Ilha de Nome Santo, de Francisco José Tenreiro. (Inocência Mata, “Marcelo de Veiga e Francisco José Tenreiro” in Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, vol. 64, Pires Laranjeira, Lisboa, Universidade Aberta, 1995, pp. 336-339 – adaptado)

 

LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO, JOSÉ CARREIRO.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/LiteraturaSantomense.htm, 2008-09-13.
2.ª edição:
http://lusofonia.x10.mx/LiteraturaSantomense.htm, 2016.