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    Literatura Brasileira

 José Carreiro
 
aguiarcarreiro@gmail.com

 

Índice    (para consulta, clique nas ligações internas e externas abaixo indicadas)

 

I.

História da Literatura Brasileira em versos

História da Literatura Brasileira - tábua de matérias

II. A condição colonial da literatura brasileira

Leitura metódica da Carta de Pero Vaz de Caminha:
        Excerto da
Carta

       
Orientações de leitura

III. A busca de nacionalização da literatura: o caso do romantismo brasileiro

Leitura metódica de textos do romantismo brasileiro:
       Gonçalves Dias: "
Canção do Exílio" e "Marabá"

IV. Maturidade e originalidade da literatura novecentista brasileira:

O processo da modernidade
    Pré-modernismo
    Semana de arte moderna
    Características gerais do modernismo
    1ª fase do modernismo
    2ª fase do modernismo
    Pós-modernismo
    Produção contemporânea

Estudo de autores modernistas:   
    Jorge Amado (Os velhos marinheiros)
    Guimarães Rosa (O burrinho pedrês)

V. Estudos comparados de literatura:

    O Neorrealismo Português e o Romance de 30 do Nordeste, por Mª de Fátima Vaz de Medeiros

 

 

  HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRA EM VERSOS

Para a elaboração desta síntese, Ivaldo Nóbrega, em 1988, utilizou a sextilha como forma poética, modalidade composta de seis versos heptassílabos, rimando os versos pares entre si, sendo bastante usada pelos poetas populares, tanto na cantoria oral quanto nos folhetos de cordel.

São cento e quarenta e nove sextilhas, nas quais poderá encontrar informações valiosas, que o ajudarão a conhecer melhor as manifestações literárias brasileiras.                           

 

Ao aluno que estuda
E se dedica à leitura
Que se preocupa e pesquisa
Os aspectos da cultura,
Trago em versos um resumo
De nossa literatura.

Vou mergulhar nas raízes,
Sendo claro e objetivo,
Enfocando aqueles textos

HISTÓRIA DA LITERATURA BRASILEIRATÁBUA DE MATÉRIAS

 

1. A literatura no período colonial

1.1. Primeiras visões do Brasil.

A revelação do Novo Mundo / a literatura de viagens:

  • Carta ao Rei dom Manuel, de Pero Vaz de Caminha;
  • o Tratado da Terra do Brasil e a História da Província de Santa Cruz a Que Vulgarmente Chamamos Brasil, de Pero Magalhães Gândavo;
  • o Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa.

A literatura de catequese:

  • o Diálogo sobre a Conversão dos Gentios, composto entre 1556 e 1558 pelo padre Manoel da Nóbrega;
  • o teatro e os poemas do padre José de Anchieta.

1.2.  Barroco

  • Pe António Vieira: o engenhoso pregador português.
  • Bento Teixeira, Prosopopéia, de 1601, marco inicial do Barroco no Brasil.
  • Gregório de Mattos: o primeiro grande poeta brasileiro.

1.3. Arcadismo (Neoclassicismo)

Dois momentos: o poético e o ideológico.

  • Cláudio Manuel da Costa: os sonetos amorosos marcam o início do Arcadismo no Brasil.
  • Tomás Antônio Gonzaga: o pastor apaixonado.
  • Basílio da Gama, Uraguai (poema épico de louvor a Marquês de Pombal e sobre o heroísmo indígena).
  • Silva Alvarenga: a sátira política em o Desertor.
  • Alvarenga Peixoto e o nativismo sentimental.
  • Santa Rita Durão, Caramuru - Poema Épico do Descobrimento da Bahia.

2. Romantismo

2.1. Primeira geração: literatura e nacionalidade.

A poesia indianista da primeira geração:

  • Gonçalves de Magalhães, introdutor do Romantismo com Suspiros Poéticos e Saudades.
  • Gonçalves Dias: os índios, a pátria e o amor.

2.2. Segunda geração: idealização, paixão e morte, uma poesia arrebatada.

  • Casimiro de Abreu: versos doces e meigos.
  • Álvares de Azevedo: ironia, amor e morte.
  • Fagundes Varela: uma poesia de transição.

2.3. Terceira geração: a poesia social.

O Condoreirismo: a poesia clama por liberdade.

  • Castro Alves, um poeta de causas: uma, social e moral, a da abolição da escravatura; outra, a república, aspiração política dos liberais mais exaltados.
  • Sousândrade: a identidade americana.

2.4. O romance urbano: retrato da vida na corte.

  • O amor segundo Joaquim Manuel de Macedo.
  • José de Alencar: um crítico dos costumes.
  • Manuel Antônio de Almeida: a estética da malandragem.

2.5. O romance indianista.

  • A prosa indianista de José de Alencar.

2.6. O romance regionalista. O teatro romântico.

  • Alencar e os heróis dos sertões brasileiros.
  • Visconde de Taunay e o patriarcado do interior.
  • Franklin Távora: cantor do Norte.
  • Bernardo Guimarães: o folhetim regionalista.
  • O teatro romântico: Martins Pena e a comédia de costumes.

3. Realismo e Naturalismo.

3.1. Realismo: a sociedade no centro da obra literária.

  • Machado de Assis: um céptico analisa a sociedade de um Brasil em crise.

3.2. Naturalismo: a aproximação entre literatura e ciência.

  • Aluísio Azevedo: o autor das “massas”.
  • Raul Pompeia: um caso particular de estilo híbrido.

4. As estéticas de fim de século.

4.1. Parnasianismo:  a “disciplina do bom gosto”.

  • Olavo Bilac, o poeta das estrelas.
  • Raimundo Correia: as imagens mais sugestivas.
  • Alberto de Oliveira: pujança da natureza fluminense e os encantos da mulher brasileira.

4.2. Simbolismo: o desconhecido supera o real.

  • Cruz e Sousa: a transfiguração da condição humana.
  • Alphonsus de Guimaraens: o místico mineiro.

5. O Modernismo

5.1. Pré-modernismo: autores em busca de um país.

O Brasil republicano: conflitos e contrastes.

  • Euclides da Cunha: narrador da guerra do fim do mundo.
  • Lima Barreto: a vida nos subúrbios cariocas.
  • Monteiro Lobato: a decadência do café.
  • Augusto dos Anjos: poeta de muitas faces.

5.2. Primeira geração modernista: ousadia e inovação (poesia do quotidiano).

Semana de Arte Moderna: três noites que fizeram história.

  • Oswald de Andrade: irreverência e crítica.
  • Mário de Andrade: a descoberta do Brasil brasileiro.
  • Manuel Bandeira: olhar terno para o quotidiano.
  • Alcântara Machado: os italianos em São Paulo.
  • Outros autores: Cassiano Ricardo (Martim Cererê); Guilherme de Almeida (A flor que foi um homem); Menotti del Picchia (Juca Mulato); Plínio Salgado (O cavaleiro de Itararé); Raul Bopp (Cobra Morato)

5.3. Segunda geração modernista: misticismo e consciência social (eu e o mundo)

A consolidação de uma estética.

  • Carlos Drummond de Andrade: poeta do finito e da matéria
  • Cecília Meireles: a vida efémera e transitória.
  • Vinícius de Moraes: o cantor do amor maior.
  • Murilo Mendes: o católico visionário.
  • Jorge de Lima: o católico engajado.

5.4. O romance de 1930: a consciência do subdesenvolvimento brasileiro.

A retomada de um olhar realista.

  • Graciliano Ramos: mestre das palavras secas.
  • José Lins do rego: lembranças de um menino de engenho.
  • Rachel de Queiroz: um olhar feminino para o sertão.
  • Jorge Amado: retrato da diversidade económica e cultural.
  • Erico Veríssimo: o intérprete dos gaúchos.
  • Dionélio Machado: as angústias do homem comum.

6. O pós-modernismo

6.1. A poesia participante da geração de 1945  e o Concretismo.

  • A poesia em busca de um caminho: a poesia “equilibrada e séria” de Lêdo Ivo, Péricles Eugênio da Silva Ramos, Geir Campos e Darcy Damasceno.
  • A “máquina” do poema: João Cabral de Melo Neto.
  • Poesia Concreta: Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos.
  • Poesia participante: Ferreira Gullar.
  • Poesia praxis: Mário Chamie.

6.2. A prosa pós-moderna: a reinvenção da narrativa.

  • Guimarães Rosa: o descobridor do sertão universal.
  • Clarice Lispector: a busca incansável da identidade.

6.3. A escrita contemporânea

Décadas de 60 e 70:

  • Os romances-reportagens: José Louzeiro.
  • Os romances que retratam a realidade do país: António Callado, Inácio Loyola Brandão e Ivan Ângelo.
  • Romances com linguagem apurada e força poética: Raduan Nassar.
  • Contos e romances de grande penetração psicológica: Lígia Fagundes Telles.
  • Do grotesco ao banal nos contos de Dalton Trevisan.
  • O romance memorialista de Pedro Nava (painel da cultura brasileira no século XX com os costumes familiares e sua cultura popular).
  • Geração mimeógrafo (final dos anos 70), uma poesia anárquica, satírica e coloquial: Ana Cristina César e Cacaso.

A partir das décadas de 80 e 90:

  • Romance inspirado nos aspectos políticos e sociais da vida nordestina e brasileira: João Ubaldo Ribeiro e J.C. Dantas.
  • Romance intimista: Milton Hatoum.
  • Rubem Fonseca disseca a motivação das suas personagens urbanas em histórias realistas e violentas.
  • Em João Gilberto Noll a sexualidade vem acompanhada de um clima pesado de delírio.
  • A nível da poesiagrande influência do concretismo em Paulo Leminski e Arnaldo Antunes e até mesmo em compositores da MPB como Caetano Veloso.
  • Poesia ligada à região do Pantanal: Manoel de Barros.
  • Outros poetas realizam trabalhos muito pessoais, como José Paulo Paes, Hilda Hilst, Nelson Ascher e Adélia Prado.

 

Adaptado de: História Concisa da Literatura Brasileira, Alfredo Bosi, Literatura Brasileiratempos, leitores e leituras, Mª Luiza M. Abaurre e Marcela Pontara; Wikipédia, a enciclopédia livre; http://www.leremcd.hpg.ig.com.br/historia.htm

A CONDIÇÃO COLONIAL DA LITERATURA BRASILEIRA

 

O problema das origens da nossa literatura não pode formular-se em termos de Europa, onde foi a maturação das grandes nações modernas que condicionou toda a história cultural, mas nos mesmos termos das outras literaturas americanas, isto é, a partir da afirmação de um complexo colonial de vida e de pensamento.

 A colônia é, de início, o objeto de uma cultura, o “outro” em relação à metrópole: em nosso caso, foi a terra a ser ocupada, o pau-brasil a ser explorado, a cana-de-açúcar a ser cultivada, o ouro a ser extraído; numa palavra, a matéria-prima a ser carreada para o mercado externo. A colônia só deixa de o ser quando passa a sujeito da sua história. Mas essa passagem fez-se no Brasil por um lento processo de aculturação do português e do negro à terra e às raças nativas; e fez-se com naturais crises e desequilíbrios. Acompanhar este processo na esfera de nossa consciência histórica é pontilhar o direito e o avesso do fenômeno nativista, complemento necessário de todo complexo colonial.

 Importa conhecer alguns dados desse complexo, pois foram ricos de conseqüências econômicas e culturais que transcenderam os limites cronológicos da fase colonial.

 Nos primeiros séculos, os ciclos de ocupação e de exploração formaram ilhas sociais (Bahia, Pernambuco, Minas, Rio de Janeiro, São Paulo), que deram à Colônia a fisionomia de um arquipélago cultural. E não só no facies geográfico: as ilhas devem ser vistas também na dimensão temporal, momentos sucessivos que foram do nosso passado desde o século XVI até a Independência.

 Assim, de um lado houve a dispersão do país em subsistemas regionais, até hoje relevantes para a história literária; de outro, a seqüência de influxos da Europa, responsável pelo paralelo que se estabeleceu entre os momentos de além-Atlântico e as esparsas manifestações literárias e artísticas do Brasil-Colônia: Barroco, Arcádia, Ilustração, Pré-Romantismo…

 Acresce que o paralelismo não podia ser rigoroso pela óbvia razão de estarem fora os centros primeiros de irradiação mental. De onde, certos descompassos que causariam espécie a um estudioso habituado às constelações da cultura européia: coexistem, por exemplo, com o barroco do ouro das igrejas mineiras e baianas a poesia arcádica e a ideologia dos ilustrados que dá cor doutrinária às revoltas nativistas do século XVIII. Códigos literários europeus mais mensagens ou conteúdos já coloniais conferem aos três primeiros séculos de nossa vida espiritual um caráter híbrido, de tal sorte que parece uma solução aceitável de compromisso chamá-lo luso-brasileiro, como o fez Antônio Soares Amora na História da Literatura Brasileira.

 Convém lembrar, por outro lado, que Portugal, perdendo a autonomia política entre 1580 e 1640, e decaindo verticalmente nos séculos XVII e XVIII, também passou para a categoria de nação periférica no contexto europeu; e a sua literatura, depois do climax da épica quinhentista, entrou a girar em torno de outras culturas: a Espanha do Barroco, a Itália da Arcádia, a França do Iluminismo. A situação afetou em cheio as incipientes letras coloniais que, já no limiar do século XVII, refletiriam correntes de gosto recebidas “de segunda mão”, O Brasil reduzia-se à condição de subcolônia.

 A rigor, só laivos de nativismo, pitoresco no século XVII e já reivindicatório no século seguinte, podem considerar-se o divisor  de águas entre um gongórico português e o baiano Botelho de Oliveira, ou entre um árcade coimbrão e um lírico mineiro. E é sempre necessário distinguir um nativismo estático, que se exaure na menção da paisagem, de um nativismo dinâmico, que integra o ambiente e o homem na fantasia poética (Basílio da Gama, Silva-Alvarenga, Sousa Caldas).

 O limite da consciência nativista é a ideologia dos inconfidentes de Minas, do Rio de Janeiro, da Bahia e do Recife. Mas, ainda nessas pontas-de-lança da dialética entre Metrópole e Colônia, a última pediu de empréstimo à França as formas de pensar burguesas e liberais para interpretar a sua própria realidade. De qualquer modo, a busca de fontes ideológicas não-portuguesas ou não-ibéricas, em geral, já era uma ruptura consciente com o passado e um caminho para modos de assimilação mais dinâmicos, e propriamente brasileiros, da cultura européia, como se deu no período romântico.

 Resta, porém, o dado preliminar de um processo colonial, que se desenvolveu nos três primeiros séculos da vida brasileira e condicionou, como nenhum outro, a totalidade de nossas reações de ordem intelectual: e se se prescindir da sua análise, creio que não poderá ser compreendido na sua inteira dinâmica nem o próprio fenômeno da mestiçagem, núcleo do nosso mais fecundo ensaísmo social de Sílvio Romero a Euclides, de Oliveira Viana a Gilberto Freyre.

  

Textos de informação

 Os primeiros escritos da nossa vida documentam precisamente a instauração do processo: são informações que viajantes e missionários europeus colheram sobre a natureza e o homem brasileiro. Enquanto informação, não pertencem à categoria do literário, mas à pura crônica histórica e, por isso, há quem as omita por escrúpulo estético (José Veríssimo, por exemplo, na sua História da Literatura Brasileira). No entanto, a pré-história das nossas letras interessa como reflexo da visão do mundo e da linguagem que nos legaram os primeiros observadores do país. É graças a essas tomadas diretas da paisagem, do índio e dos grupos sociais nascentes, que captamos as condições primitivas de uma cultura que só mais tarde poderia contar com o fenômeno da palavra-arte.

 E não é só como testemunhos do tempo que valem tais documentos: também como sugestões temáticas e formais. Em mais de um momento a  inteligência brasileira, reagindo contra certos processos agudos de europeização, procurou nas raízes da terra e do nativo imagens para se afirmar em face do estrangeiro: então, os cronistas voltaram a ser lidos, e até glosados, tanto por um Alencar romântico e saudosista como por um Mário de Andrade ou um Oswald de Andrade modernistas. Daí o interesse obliquamente estético da “literatura” de informação.

  

A carta de Caminha

 Dos textos de origem portuguesa merece destaque a Carta de Pero Vaz de Caminha a el-rei D. Manuel, referindo o descobrimento de uma nova terra e as primeiras impressões da natureza e do aborígene.

 O que para a nossa história significou uma autêntica certidão de nascimento, a Carta de Caminha a D. Manuel, dando notícia da terra achada, insere-se em um gênero copiosamente representado durante o século XV em Portugal e Espanha: a literatura de viagens. Espírito observador, ingenuidade (no sentido de um realismo sem pregas) e uma transparente ideologia mercantilista batizada pelo zelo missionário de uma cristandade ainda medieval: eis os caracteres que saltam à primeira leitura da Carta e dão sua medida como documento histórico. Descrevendo os índios: 

A feição deles é serem pardos maneiras d’avermelhados de bons rostros e bons narizes bem feitos. Andam nus sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas e estão acerca disso com tanta inocência como têm de mostra o rosto.

 Em relevo, a postura solene de Cabral: 

O capitão quando eles vieram estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado e bem vestido com um colar d’ouro mui grande ao pescoço. 

Atenuando a impressão de selvajaria que certas descrições poderiam dar: 

Eles porém contudo andam muito bem curados e muito limpos e naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses que lhes faz o ar melhor pena e melhor cabelo que as mansas, porque os corpos seus são tão limpos e tão gordos e tão fremosos que não pode mais ser. 

A conclusão é edificante: 

De ponta a ponta é toda praia… muito chã e muito fremosa. […] Nela até agora não pudemos saber que haja ouro nem prata… porém a terra em si é de muito bons ares assim frios e temperados como os de Entre Doiro-e-Minho. Águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem, porém o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar. 

(Adaptado de: História Concisa da Literatura Brasileira, Alfredo Bosi, São Paulo, Editora Cultrix, 1995)

 

 

LEITURA METÓDICA DE TEXTO HISTÓRICO-LITERÁRIO

 

A CARTA

 

Senhor:

Posto que o capitão desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda quepara o bem contar e falar— o saiba fazer pior que todos.

Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.

Da marinhagem[1] e singraduras[2] do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o não saberei fazer, e os pilotos devem ter esse cuidado. Portanto, Senhor, do que hei-de falar começo e digo:

A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi, segunda-feira, 9 de Março. Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e as nove horas, nos achámos entre as Canárias, mais perto da Grã-Canária, onde andámos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo verde, ou melhor, da Ilha de São Nicolau, segundo o dito Pêro Escobar, piloto.

Na noite seguinte, segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco Ataíde com sua nau, sem haver tempo forte nem contrário para que tal acontecesse. Fez o capitão suas diligências para o achar, a uma e outra parte, mas não apareceu mais! E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo[3], até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa[4], que foram 21 dias de Abril, estando da dita ilha obra de seiscentas e sessenta ou seiscentas e setenta léguas, segundo os pilotos diziam, topámos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho[5], assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno[6]. E, quarta-feira seguinte, pela manhã topámos aves e que chamam fura-buxos[7].

Neste dia, a horas de véspera[8], houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas a sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome — o MONTE PASCOAL — e à terra — a TERRA DA VERA CRUZ.

Mandou lançar a prumo. Acharam vinte e cinco braças[9], e, ao sol-posto, obra de seis léguas de terra, surgimos âncoras[10], em dezanove braças — ancoragem limpa. Ali permanecemos toda aquela noite. E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra, indo os navios pequenos diante, por dezassete, dezasseis, quinze, catorze, treze, doze, dez e nove braças, até meia légua da terra, onde todos lançámos âncoras em frente à boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas pouco mais ou menos.

Dali avistámos homens que andavam pela praia, obra de sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos por chegarem primeiro.

Então lançámos fora os batéis e esquifes[11]; e vieram logo todos os capitães das naus a esta nau do capitão-mor, onde falaram entre si. E o capitão-mor mandou em terra no batel a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que[12] ele começou de ir para , acudiram pela praia homens, quando aos dois, quando aos três, de maneira que, ao chegar o batel, à boca do rio, ali havia dezoito ou vinte homens.

Eram pardos[13], todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas[14]. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente[15] sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os pousaram.

Ali não pôde deles haver fala. nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Deu-lhes somente um barrete vermelho e uma carapuça[16] de linho que levava na cabeça e um sombreiro[17] preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal[18] grande de continhas brancas, miúdas, que querem parecer de aljaveira[19]. as quais peças creio que o capitão manda a Vossa Alteza, e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

Na noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar[20] as naus, e especialmente a capitânia. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos nos, por conselho dos pilotos, mandou o capitão levantar as âncoras e fazer vela; e fomos ao longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados à popa na direcção do norte, para ver se achávamos alguma abrigada[21] e bom pouso, onde nos demorássemos, para tomar água e lenha. Não que nos minguasse, mas por aqui nos acertarmos[22]

Quando fizemos vela, estariam na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado aos poucos e poucos. Fomos de longo[23], e mandou o capitão aos navios pequenos que seguissem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.

E, velejando nós pela costa, acharam os ditos navios pequenos, obra de dez léguas do sítio donde tínhamos levantado ferro, um recife[24] com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram[25]. As naus arribaram sobre eles; e um pouco antes do sol-posto amainaram também, obra de uma légua do recife, e ancoraram em onze braças.

E estando Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro; e tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia[26]. Um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Trouxe-os logo, de noite, ao capitão, em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa.

A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andavam nus, sem cobertura alguma[27]. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos[28] e verdadeiros, do comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre os beiços e os dentes é feita como roque de xadrez[29], ali encaixado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber.

Os seus cabelos são corredios[30]. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia par baixo da solapa[31], de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera[32] (mas não o era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

O capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado. Sancho Tovar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia, e nós outros que aqui na nau com ele vamos, sentados no chão, pela alcatifa. Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do capitão, e começou a acenar com a mão para terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro[33]. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para terra e novamente para o castiçal como se também houvesse prata.

Mostraram-lhe um papagaio pardo que o capitão traz consigo; tomaram-no na mão e acenaram para terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: Não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados.

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, fartéis[34], mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e se alguma coisa provavam, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada[35]. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora.

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo.

Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera.

Então, estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir [...]. 

Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel, sobre o achamento do Brasil
Mem-Martins, Europa-América, s. d., pp. 59-68.


[1] MarinhagemArte de navegar; faina de bordo.
[2] Singraduras Navegação diária (24 horas) realizada por navio à vela, e geralmente contada entre o meio-dia de dois dias seguidos.
[3] De longoMovimento progressivo e rectilíneo em relação a um ponto determinado. (Jaime Cortesão, A Carta de Pêro Vaz de Caminha).
[4] Oitavas de PáscoaOito dias depois da Festa da Páscoa, que terminam no chamado Domingo de Pascoela.
[5] Botelho -— Espécie de alga, também chamada «sargaço».
[6] Rabo-de-asno — Supõe-se que seja uma planta medicinal usada para bloquear a hemorragia nasal.
[7] Fura-buxosAves aquáticas de família dos Procelarídeos, conhecidas também, no século XVI, pelos nomes de «chiretas» e «estapagados», típicas da costa portuguesa e do mar dos Açores. (Manuel Simões, A Literatura de Viagens nos Séculos XVI  e XVII, Editorial Comunicação, Lisboa, 1985.)
[8]  Horas de vésperaHora canónica em que se rezava a oração da tarde, entre as 15 horas e o pôr do Sol.
[9] BraçaMedida equivalente a cerca de 2,20 m.
[10]Surgimos âncoras — Lançámos as âncoras.
[11] EsquifesPequenas embarcações transportadas nas naus, utilizadas para salvamento em caso de naufrágio ou como transporte para terra.
[12] Tanto que Assim que.
[13] PardosCor entre o branco e o preto.
[14] Vergonhas — De emprego habitual nos séculos XV e XVI para denominar as partes pudendas [sic].
[15] RijamenteDecididamente.
[16] Barretes, carapuças Idênticos aos que se vêem nos painéis de Nuno Gonçalves.
[17] SombreiroChapéu de abas largas.
[18] RamalColar.
[19] Continhas [...] aljaveira — De significado ainda não muito bem esclarecido. Supõe-se serem semente deste tipo de planta (aljaveira), ou como quer Jaime Cortesão (op. cit.), moluscos dos mares tropicais que, na Europa, se encontravam em colares, cuja matéria servi a para marchetar objectos de indústria sumptuária.
[20] CaçarSair a nau do seu rumo por acção do vento, maré ou qualquer outro imprevisto da natureza.
[21] AbrigadaSítio abrigado das intempéries.
[22] Nos acertarmosNos orientarmos.
[23] Fomos de longo – Navegámos ao longo de.
[24] RecifeRochedo, que corresponde ao actual topónimo Coroa Vermelha. (Manuel Simões., Op. cit.).
[25] Amainaram – Recolheram as velas e pararam o barco.
[26] Almadia Embarcação comprida e estreita usada pelos indígenas.
[27] Bons rostos […] sem cobertura alguma — Esta perfeição física dos indígenas teria impressionado bastante quem com eles lidou nestes primeiros contactos. Assim, a sua nudez demonstraria a sua inocência [...]. (M. Viegas Guerreiro, Carta a El-rei D.Manuel sobre o achamento do Brasil)
[28] Ossos brancos Adorno de ponta fina que se prolongava para fora dos lábios e com uma base larga a segurar, «[…] ainda hoje o usam os índios do Brasil, que, por isso, se designam Botocudos. Outras populações do globo se enfeitam com ele, como os Macondes de Moçambique e de Tanganhica, mas estes introduzem-no no lábio superior.» (M. Viegas Guerreiro, op. cit.)
[29] Roque de xadrezNome dado às quatro torres do xadrez.
[30] Corredios lisos.
[31] SolapaModo de os indígenas usarem os cabelos, parte caindo sobre a testa e parte sobre o resto do crânio, que era rapado.
[32] Segundo Jaime Cortesão (op cit.) «esta cera era almácega, ou seja, a resina da pistácia lentisco... Como essa goma era branda e a cabeleira de penas muito basta e unida, podia facilmente levantar-se, ou separar-se dos cabelos, sem lavagem».
[33] Ali havia ouroPelo menos foi o que os portugueses quiseram entender pelos gestos dos índios: «Isto tomávamos nós por assim o desejarmos.»
[34] Fartéis Bolos de açúcar e amêndoas em capa de farinha de trigo.
[35] Albarrada Vasilha própria para beber água e vinho.

 

TAREFAS

 

1. Procure explorar através da escrita a sua reacção emocional perante a riqueza informativa e a frescura descritiva do texto que leu.

2. Orientação da leitura do excerto da Carta de Pero Vaz de Caminha:

A — Informação e análise histórica

quem foi Pêro Vaz de Caminha; sua função na armada;

breve confronto entre o propósito deste autor e o de Fernão Lopes na Crónica de D. João I.

B — leitura etnográfica e antropológica

projecção da visão europeísta na nova civilização.

C — Valor literário da Carta

marcas do género epistolar e diarístico;

progressão do relacionamento entre marinheiros e indígenas;

tom directo e espontâneo da narração;

poder de observação e visualismo nas descrições;

frase longa, sintaxe linear (SVO) e a variedade corrente da linguagem;

imagem do descobridor português face ao nativo (afabilidade?, arrogância?, respeito?, indiscrição?, etc.).

3. Elaboração de um comentário global. 

 

TÓPICOS DE APLICAÇÃO

UM EXEMPLO

Texto: A Carta de Pero Vaz de Caminha

 

INTRODUÇÃO

contexto literal, histórico, cultural

   

O alvoroço do «Descobrimento da Terra Nova que fez Pedro Alvarez» é a tónica dominante da Carta do Achamento de Pero Vaz de Caminha. Narrativa em espiral, centrada sobre um refluxo contínuo à volta de dados e reacções análogos, este documento precioso da Literatura quinhentista de Viagens e da Expansão é um misto de relato, descrição e comentário, formas de discurso que combinam com simplicidade e formosura estilísticas a espontaneidade dos sentimentos humanos ante a frescura de uma novidade e a fidelidade objectiva ao que é testemunhado. Texto antropológico por excelência, como primeiro registo português da visão do ameríndio, a Carta é hoje um notável documento histórico de uma descoberta e de uma época, através do qual perpassa uma complexa rede de vivências humanas que nos permitem inscrevê-lo no domínio do texto literário.

 

resumo por partes lógicas

 

   

 

O excerto transcrito, extraído do início do relato, reporta-se, segundo um critério cronológico habitual, aos primeiros três dias dos dez que envolvem a totalidade do texto, de 22 a 24 de Abril de 1500.

Após uma breve introdução, na qual se procede à justificação da iniciativa da Carta, dirigida ao rei D. Manuel I, segundo os tópicos retóricos da modéstia e da objectividade do discurso cronístico, o relato alude à partida de Belém e à passagem das Canárias e Cabo Verde, para se ocupar, logo de seguida, da descoberta da terra de Vera Cruz, ou do Brasil, após a identificação dos chamados «sinais de terra».

 

DESENVOLVIMENTO

explicação, comentário e fundamentação

[Neste caso:
marcas
distintivas, retratos, comunicação, chefes, códigos]

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

A cor, a nudez, os arcos e as setas são as marcas distintivas do grupo étnico descoberto: «Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas».

Na recepção a dois mancebos, outras marcas importantes, de grande pormenor descritivo, referem os traços fisionómicos, os cabelos, e os objectos decorativos: «A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos.[…]. Ambos trazem os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, do comprimento duma mão travessa, de grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como furador […]. Os seus cabelos são corredios. E andavam tosquiados. de tosquia alta, mais de sobre-pente, de boa grandura e rapados até cima das orelhas».

A troca de presentes é o primeiro sinal de amistosa comunicação, baixados os símbolos da bandeira defensiva e ofensiva, e os arcos e setas: «Deu-lhe [e não ‘dou-lhes’ — um erro de transcrição que corrigimos no texto] somente um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. Um deles deu-lhe um sombreiro de penas de ave compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas como de papagaio; e outro deu-lhe um ramal grande de continhas brancas, miúdas. que querem parecer aljaveira».

Mas, em contraste com o reconhecimento da figura hierárquica do seu chefe, patente na «espécie de cabeleira de penas», não é difícil aos nativos identificar os sinais do estatuto do cristão europeu: «O capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, bem vestido, com um colar de ouro mui grande ao pescoço, e aos pés uma alcatifa por estrado [...]. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao capitão nem a ninguém».

A preferência comunicativa, expressa pelo código visual, vai para a verificação das principais semelhanças e diferenças culturais entre os dois povos, agora em situação dialógica— os metaisum deles pôs olho no colar do capitão»], os animais [«Mostraram-lhes um papagaio pardo que o capitão traz consigo; tomaram-no na mão e acenaram para terra»], os alimentosnão quiseram comer quase nada daquilo»], as contas do rosário [«acenou que lhas dessem»].

Em contraste, ainda, com a atitude contrária, como adiantará o texto, os indígenas repousam de noite junto dos interlocutores estrangeiros: «Então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir».

 

CONCLUSÃO

coerência

contexto

ilações

   

E a Carta, continuando a revelação cultural do povo descoberto, vai apostar na predisposição do ameríndio para colher o cristianismo como a principal semente de civilização europeia, cuja frutificação se espera rápida e copiosa.

Assim, este texto, documento fundamental da revelação contrastiva de um Outro, permite-nos uma reflexão sobre a singularidade cultural do que é ser português e europeu. Esta consciência da diferença que tipo de reacção provoca nos jovens de hoje: racismo, racialismo, xenofobia ou, simplesmente, abertura aos valores do Outro, na base do respeito mútuo, sem a rejeição da identidade própria

(Adaptado de: Ler Para Ser, A. Moniz e O. Paz, Lisboa, Ed. Presença, 1994)

 

 

A BUSCA DE NACIONALIZAÇÃO DA LITERATURA: O CASO DO ROMANTISMO BRASILEIRO

 

Segundo a interpretação de Karl Mannheim, o Romantismo expressa os sentimentos dos descontentes com as novas estruturas: a nobreza, que já caiu, e a pequena burguesia que ainda não subiu: de onde, as atitudes saudosistas ou reivindicatórias que pontuam todo o movimento.

O Brasil, egresso do puro colonialismo, mantém as colunas do poder agrário: o latifúndio, o escravismo, a economia de exportação. E segue a rota da monarquia conservadora após um breve surto de erupções republicanas, amiudadas durante a Regência.

Carente do binômio urbano indústria-operário durante quase todo o século XIX, a sociedade brasileira contou, para a formação da sua inteligência, com os filhos de famílas abastadas do campo, que iam receber instrução jurídica (raramente, médica) em São Paulo, Recife e Rio (Macedo, Alencar, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela, Bernardo de Guimarães, Frânklin Távora, Pedro Luís), ou com filhos de comerciantes luso-brasileiros e de profissionais liberais, que definiam, grosso modo, a alta classe média do país (Pereira da Silva, Gonçalves Dias,[1] Joaquim Norberto, Casemiro de Abreu, Castro Alves, Sílvio Romero). Raros os casos de extração humilde na fase romântica, como Teixeira e Sousa e Manuel Antônio de Almeida, o primeiro narrador de folhetim, o segundo, picaresco; ou do trovador semipopular Laurindo Rabelo.

Nesse esquema, do qual afasto qualquer traço de determinismo cego, ressalte-se o caráter seletivo da educação no Brasil-Império e, o que mais importa, a absorção pelos melhores talentos de padrões culturais europeus refletidos na Corte e nas capitais provincianas.

Como os seus ídolos europeus, os nossos românticos exibem fundos traços de defesa e evasão, que os leva a posições regressivas: no plano da relação com o mundo (retorno à mãe-natureza, refúgio no passado, reinvenção do bom selvagem, exotismo) e no das relações com o próprio eu (abandono à solidão, ao sonho, ao devaneio, às demasias da imaginação e dos sentidos).

Assim, apesar das diferenças de situação material, pode-se dizer que se formaram em nossos homens de letras configurações mentais paralelas às respostas que a inteligência européia dava a seus conflitos ideológicos.

Os exemplos mais persuasivos vêm dos melhores escritores. O romance colonial de Alencar e a poesia indianista de Gonçalves Dias nascem da aspiração de fundar em um passado mítico a nobreza recente do país, assim como — mutatis mutandis — as ficções de W. Scott e de Chateaubriand rastreavam na Idade Média feudal e cavaleiresca os brasões contrastados por uma burguesia em ascensão. De resto, Alencar, ainda fazendo “romance urbano”, contrapunha a moral do homem antigo à grosseria dos novos-ricos; e fazendo romance regionalista, a coragem do sertanejo às vilezas do citadino. 

(História Concisa da Literatura Brasileira, Alfredo Bosi, São Paulo, Editora Cultrix, 1995)

  [1] Gonçalves Dias filho de um comerciante português e de uma cafuza (mestiça de negro e índio), nasceu a 10 de agosto de 1823, em Caxias, no Estado do Maranhão.

 

 

«O Brasil, que sentiu a necessidade de adotar instituições diferentes das que lhe havia imposto a Europa, o Brasil experimenta já a necessidade de ir beber inspirações poéticas a uma fonte que verdadeiramente lhe pertença […] Nessas belas paragens tão favorecidas pela natureza, o pensamento deve alargar-se como o espetáculo que se lhe oferece […] deve permanecer independente, não procurando outro guia que a observação.»  

Ferdinand Denis, Resumo da História Literária do Brasil, 1826 (cf. edição de 1978, p. 36).

 

Que importância têm as ideias de Ferdinand Denis na teoria e prática do Romantismo brasileiro? Quais as linhas essenciais desse movimento literário?

 Na Literatura Brasileira do século XIX, predominou o movimento Romântico. A independência em 1822, estimulou o sentimento nacionalista, fazendo com que a elite intelectual (donde se destaca Ferdinand Denis) buscasse um perfil cultural próprio. Além do mais, manter os laços com a ex-metrópole poderia ser sinónimo de atraso, porque o referencial cultural e social provinha, então, de França.

     A valorização dos elementos da terra, que timidamente tinha início no Arcadismo brasileiro, é tema central na prosa e poesia do século XIX. O índio é idealizado como herói nacional, principalmente na poesia de Gonçalves Dias e nos romances de José de Alencar (Iracema, O Guarani, Ubrirajara).

     Os temas sociais também fazem parte da literatura da época, principalmente na luta contra a escravidão, exemplo claro é o poeta baiano Castro Alves, com Navio Negreiro e Vozes d’África.

 

exercícios de aplicação

 

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

 
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
 

Gonçalves Dias

  

1. Para responder à questão, analise as afirmações que seguem, sobre o texto.

I. Através do texto, o poeta realiza uma viagem introspectiva à sua terra natal - ideia reforçada pelo emprego do verbo "cismar" (v.14).
II. A exaltação à pátria perdida dá-se pela referência a elementos culturais.
III. "Cá" e "lá" expressam o local do exílio e o Brasil, respectivamente.
IV. O pessimismo do poeta, característica determinante do Romantismo, expressa-se pela saudade da sua terra.

 Pela análise das afirmações, conclui-se que estão correctas:

(A) a I e a II, apenas;
(B) a I e a III, apenas;
(C) a II e a IV, apenas;
(D) a III e a IV, apenas;
(E) a I, a II, a III e a IV.

 2. Os versos da “Canção do exílio” são construídos nos moldes da redondilha maior, com predominância dos acentos de intensidade nas terceiras e sétimas sílabas métricas. Um verso que não segue esse padrão de tonicidade é: 

(A) Minha terra tem palmeiras;
(B) As aves, que aqui gorjeiam,
(C) Nosso céu tem mais estrelas.
(D) Em cismar, sozinho, à noite.
(E) Onde canta o Sabiá.

 3. Sobre o poema, escrito em Coimbra, é correcto afirmar (escolha a alternativa acertada):  

(A) O poema retrata o sofrimento do eu lírico em função da distância da mulher amada. O termo "Sabiá", recorrente nos versos, refere-se figurativamente ao amor feminino.  
(B)
A utilização dos termos “cá” e “lá” atém-se principalmente à necessidade de criar rimas, mais do que ao desejo do poeta de estabelecer o contraste entre espaços distintos.  
(C)
Para o eu lírico, estar exilado não significa necessariamente estar longe da terra, mas das suas referências de infância, factor que acentua a expressão saudosista do poema.  
(D)
Nesse poema, é possível reconhecer uma dialéctica amorosa trabalhada entre o desejo sexual pela mulher e sua idealização. O desejo se configura pelo verso "Mais prazer encontro eu lá" e a idealização, pelos versos "Não permita Deus que eu morra/Sem que eu volte para lá".  
(E)
A ênfase na exuberância da paisagem é estruturada a partir do jogo de contrastes entre a natureza tropical e a natureza europeia. Os versos da segunda estrofe reiteram a grandiosidade paisagística brasileira, além de enfatizarem a identidade do eu lírico.

 

MARABÁ


Eu vivo sozinha, ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá!
Se algum dentre os homens de mim não se esconde:
– "Tu és", me responde,
"Tu és Marabá!"

Meus olhos são garços, são cor das safiras,

Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
Imitam as nuvens de um céu anilado,
As cores imitam das vagas do mar!

Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
– "Teus olhos são garços",
Responde anojado, "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"

É alvo meu rosto da alvura dos lírios,
Da cor das areias batidas do mar;
As aves mais brancas, as conchas mais puras
Não têm mais alvura, não têm mais brilhar.

Se ainda me escuta meus agros delírios:
– "És alva de lírios",
Sorrindo responde, "mas és Marabá:
"Quero antes um rosto de jambo corado,
"Um rosto crestado
"Do sol do deserto, não flor de cajá."

Meu colo de leve se encurva engraçado,
Como hástea pendente do cáctus em flor;
Mimosa, indolente, resvalo no prado,
Como um soluçado suspiro de amor!

– "Eu amo a estatura flexível, ligeira,
Qual duma palmeira",
Então me respondem: "tu és Marabá:
"Quero antes o colo da ema orgulhosa,
Que pisa vaidosa,
"Que as flóreas campinas governa, onde está."

Meus loiros cabelos em ondas se anelam,
O oiro mais puro não tem seu fulgor;
As brisas nos bosques de os ver se enamoram
De os ver tão formosos como um beija-flor!

Mas eles respondem: "– Teus longos cabelos,
"São loiros, são belos,
"Mas são anelados; tu és Marabá:
"Quero antes cabelos, bem lisos, corridos,
"Cabelos compridos,
"Não cor d'oiro fino, nem cor d'anajá,"

E as doces palavras que eu tinha cá dentro
A quem nas direi?
O ramo d'acácia na fronte de um homem
Jamais cingirei:

Jamais um guerreiro da minha arazóia
Me desprenderá:
Eu vivo sozinha, chorando mesquinha,
Que sou Marabá!

Gonçalves Dias

  

Vocabulário:

Anajá: tipo de palmeira.
Anojado:
entristecido.
Arazóia
: araçóia (regionalismoda Amazónia); saiote, feito de penas, usado por mulheres indígenas.
Engraçado
: gracioso.
Fulgentes:
brilhantes.
Garços:
de cor azul-esverdeada.
Indolente
: insensível à dor; preguiçoso.
Jambo
: cor que lembra a do jambo (tipo de árvore); bem moreno ou cuja tez é da cor de um mulato ou mulata
Marabá:
mistura de índio e branco (francês).
Tupá:
Tupã.
Na mitologia dos indígenas de língua tupi, o trovão, venerado como divindade suprema.

 

Questionário:

1. Quais são as características físicas de Marabá?

1.1. A que ideal de beleza essas características correspondem?

2. Para apresentar as características de Marabá, são usadas comparações e metáforas. A que elementos ela é comparada?

 3. Desprezada por seu povo, Marabá reproduz as falas dos homens da tribo que fogem do contacto com ela. Explique, com base nessas falas, por que a índia é desprezada.

3.1. Que elementos, presentes nessas falas, comprovam esse desprezo?

 4. Esse poema, embora relacionado ao indianismo, apresenta um tom mais lírico e confessional. Que sentimento domina o eu lírico? Justifique com elementos do poema.

 5. O poema mostra um conflito entre duas formas de beleza feminina. Quais são elas e de que maneira cada uma é apresentada?

5.1. Percebe-se, no poema, a valorização de um certo padrão de beleza em função do contexto cultural em que é ambientado. Explique.

 6. Após leitura, análise e interpretação do poema “Marabá”, algumas afirmações como as seguintes podem ser feitas, com excepção de uma. Indique-a.

        (A) O poema se inicia com uma pergunta de ordem religiosa e termina com uma consideração de aspecto sensual.
        (B)
O poema é um profundo lamento construído com base na estrutura dialéctica, apresentando-se argumentação e contra argumentação.
        (C)
Ocorre interlocução registada em discurso directo, estrutura que enfatiza assim o desprezo preconceituoso dado à Marabá.
        (D)
A ocorrência de figuras de linguagem e o emprego da primeira pessoa marcam, respectivamente, as funções da linguagem poética e emotiva.
        (E)
Marabá é um poema representante da primeira fase que cultiva o aspecto físico da mulher.

 7. A unidade dramática vivenciada pelo eu lírico no poema “Marabá” concentra-se em

  (A) Tristeza e compreensão.
        (B)
Aflição e frustração.
        (C)
Amargura e comedimento.
        (D)
Indignação e passividade.
        (E)
Decepção e aceitação.

8. Sobre a poesia de Gonçalves Dias é correcto afirmar que

        (A) Cantou a natureza brasileira como cenário das correrias e aventuras do indígena bravo e leal.
        (B)
Elogiou a dissipação e os excessos do vinho em orgias nocturnas marcadas pela devassidão e crueldade.
        (C)
Denunciou a iniquidade (crime; injustiça grave; perversidade) da escravidão em poemas altissonantes e repletos de metáforas aladas.
        (D)
Elogiou os esforços do colonizador português em suas campanhas militares.
        (E)
Cantou a bondade da mãe e da irmã, sustentáculos femininos do núcleo familiar patriarcal.

               

LUSOFONIA - PLATAFORMA DE APOIO AO ESTUDO A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO, JOSÉ CARREIRO.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/LB.htm, 2008.
2.ª edição:
http://lusofonia.x10.mx/LB.htm, 2016.


De caráter narrativo
Trazendo alguns subsídios
Do Período Informativo

Não foi obra do acaso
Que aqui chegou Cabral,
Mas fruto de uma política
De expansão comercial
Feita por alguns países
Como Espanha e Portugal

[...]   
                                                                    

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